Nora Davis brandia a colher de pau como se estivesse pronta para resolver a situação com as próprias mãos.
— Meu Deus! Aquela menina perdeu o juízo de vez? — exclamou, lançando um olhar indignado para Ashley, que estava encostada no balcão, tomando calmamente seu chá.
Ashley deu de ombros antes de levar a caneca aos lábios.
— Tia, tenho certeza de que, assim como Lex, Cordélia nunca teve juízo. — Ela fez uma pausa, e um sorriso malicioso surgiu em seu rosto. — Mas a cara que ela fez quando me viu beijando Alex foi impagável.
Nora ficou em silêncio por um instante, claramente escolhendo as palavras com cuidado.
— Querida, você tem certeza do que está fazendo? — Sua expressão suavizou, carregada de preocupação. — Fico receosa porque você nunca foi uma pessoa vingativa. Do jeito que fala, parece que aceitou essa proposta mais para provocar Cordélia do que por vontade própria.
Ashley se afastou do balcão e ajoelhou-se diante da tia, segurando suas mãos com firmeza.
— Essas lojas são um legado para mim. Eu jamais venderia os imóveis pelos quais a senhora trabalhou tanto para manter. — Seu sorriso era seguro, e sua voz, carregada de convicção. — O que estou fazendo não é um sacrifício. Serão só três meses, e Alex pagará por tudo.
Nora inclinou a cabeça, avaliando as palavras da sobrinha.
— Tem certeza? Sei o quanto você foi apaixonada por Alex… e como sofreu quando ele ficou noivo de Cordélia. — Seus olhos brilharam com um toque de nostalgia. — O que eu disse naquela noite foi apenas para que você refletisse se valia a pena arriscar seu coração outra vez.
Ashley suspirou, levantando-se.
— Tia, não vou mentir, eu estou com medo. Mas é um risco que estou disposta a correr para alcançar meus objetivos.
Ela voltou a se encostar no balcão e cruzou os braços.
— Além disso, o que eu sentia por Alex ficou no passado. — Sua voz soou firme, mas o leve tensionar de seus ombros denunciava algo mais profundo. — Já superei o fato de que ele nunca me verá como nada além da garota da casa ao lado. Posso lidar com ele e com toda a arrogância que vem no pacote.
Nora relaxou na cadeira, mas logo um sorriso matreiro surgiu em seu rosto.
— Bem, ao menos você fez um pacto com um belo diabo. Já viu aquele traseiro? E as coxas? Sem falar no peitoral… digno de um ator de cinema. Dá calor só de imaginar.
Ashley arregalou os olhos, chocada.
— Tia Nora!
— O que foi, querida? Estou velha, mas não morta! — respondeu Nora, rindo enquanto pegava uma cebola para cortar.
Ashley balançou a cabeça, rindo em descrença. Era impossível negar que Alex era um homem extraordinariamente bonito, talvez o mais atraente dos Stella. Sua beleza e carisma sempre foram armas poderosas na arte da conquista. Mas ela sabia que ele havia mudado.
Seu plano inicial era manter uma conversa profissional com ele para ajustar os termos do acordo. No entanto, ao ver Cordélia com aquela habitual arrogância e pretensão, algo dentro dela se quebrou. A raiva acumulada por anos tomou conta, e seu ego falou mais alto. Beijá-lo foi um ato impulsivo, sim, mas também carregado da paixão reprimida que carregava desde a adolescência.
Ainda assim, não pretendia repetir a experiência.
O som estridente de uma panela caindo no chão a trouxe de volta à realidade.
Ashley se virou rapidamente e encontrou Nora apoiada no balcão, pálida e ofegante.
— Tia, a senhora está bem? — perguntou, apressando-se para segurá-la. — Venha, sente-se.
Com delicadeza, Ashley ajudou Nora a se sentar em uma cadeira próxima.
— Estou bem, querida. Foi só uma queda de pressão. Talvez seja o calor. — disse Nora, tentando tranquilizá-la.
Ashley, no entanto, não parecia convencida. Sem dizer uma palavra, foi até a geladeira, pegou um copo de água gelada e o entregou à tia, seus olhos brilhando de preocupação. Nora era tudo o que ela tinha, a única pessoa que sempre esteve ao seu lado, sem julgamentos ou condições.
Quando fugiu de casa aos quinze anos, depois de uma festa de aniversário que terminara em desastre, foi para a casa da tia, que a acolheu sem hesitar. Lembrava-se vividamente do momento em que seu pai, Josh, ameaçara deserdá-la, tomado pela raiva e pelo orgulho ferido. Mas Nora, sem pestanejar, enfrentou o irmão e cortou laços com a família para protegê-la. Criou Ashley com dedicação, sustentando-as com os lucros das lojas que administrava com tanto empenho.
Por isso, vender aquele legado nunca fora uma opção para Ashley. As lojas eram mais do que um patrimônio: eram a prova da força e do sacrifício de Nora, o alicerce de sua nova vida.
Ela também jamais esqueceria a decisão que tomou ao devolver ao Estado cada centavo da herança deixada por Josh. Seu pai fora um político corrupto, e ela não queria carregar o peso do dinheiro sujo dele.
Ashley apertou com delicadeza a mão da tia.
— Não se preocupe, tia. — Sua voz era firme, carregada de determinação. — Vou cuidar da senhora. E as lojas continuarão exatamente como a senhora sempre sonhou.
O sorriso afetuoso de Nora aqueceu seu coração, mas Ashley ainda não estava disposta a ignorar o cansaço evidente no rosto da tia.
— Deixe que eu cuide do almoço hoje. — disse, segurando o braço de Nora para ajudá-la a se levantar. — Vá descansar um pouco, por favor.
— Ah, querida, não precisa disso. Estou bem. — protestou Nora, embora a exaustão em seus olhos contasse outra história.
Ashley arqueou as sobrancelhas e cruzou os braços, assumindo uma postura irredutível.
— Tia, isso não é um pedido. É uma ordem! — rebateu, um sorriso travesso nos lábios.
Nora riu baixo, balançando a cabeça.
— Está bem, está bem. Não vou discutir com você, general. — brincou, suspirando resignada. — Mas, por favor, tenha misericórdia com o tempero!
— Pode deixar! — Ashley piscou para ela antes de se voltar para o fogão. — Se precisar de algo, é só chamar.
Com um último olhar divertido, Nora deixou a cozinha, e Ashley soltou um longo suspiro, tentando dissipar a preocupação que ainda pairava em sua mente.
Voltou-se para os legumes sobre a bancada, começando a cortá-los com movimentos metódicos e precisos. O som rítmico da faca contra a tábua encheu o ambiente, trazendo-lhe um breve momento de alívio.
Mas sua paz durou pouco. Seus pensamentos logo voltaram ao acordo que fizera com Alex.
A ideia de passar os próximos meses lidando com o charme irresistível dele fez seu estômago se revirar.
“Eu preciso me proteger”, pensou, mordendo o lábio inferior.
Decidida, concluiu que a melhor estratégia seria fazer com que Alex a detestasse. Se ele a visse como uma ameaça, alguém insuportável, talvez isso o mantivesse afastado, e longe de qualquer tentativa de sedução.
Ashley sabia que, por mais que quisesse se convencer de que estava no controle, temia ceder ao magnetismo dele. Temia acabar com o coração despedaçado outra vez. Levou anos para reconstruí-lo, pedaço por pedaço, e não permitiria que Alex Stella o destruísse de novo.
Manter distância emocional e física seria um desafio.
Mas não impossível.
O Alex por quem se apaixonara um dia não existia mais.
No lugar do jovem doce e encantador, havia apenas um homem endurecido, arrogante e egocêntrico, que parecia exalar poder e sensualidade por todos os poros. Um perigo, não fisicamente, mas pelo que poderia fazer com suas barreiras emocionais, caso ela permitisse.
Ashley respirou fundo, afastando esses pensamentos.
Tinha um objetivo.
E nada, nem mesmo Alex Stella, a desviaria dele.
O almoço, pelo menos, seria uma batalha mais fácil de vencer.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Lucimara Sousa santos
amo a Alex
2025-03-15
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