O confronto com Ashley, naquela manhã, trouxe uma reviravolta inesperada para a vida de Alex, especialmente no trabalho. Sempre que ensinava equitação, costumava manter o foco absoluto nas funções e nos alunos, principalmente nas mulheres. Mas, naquele fim de manhã, a falta de concentração o deixava exausto.
— Muito bem! Encerramos por hoje! – anunciou, dirigindo-se a uma das alunas.
— Mas ainda temos cinco minutos. – protestou Cristine, uma das mais assíduas. – Sem contar o exercício particular.
Alex suspirou, sem paciência.
— Bem, se quiser arriscar cair do cavalo, fique à vontade para continuar sozinha pelos próximos cinco minutos. – respondeu, seco. – Quanto às aulas particulares, estão suspensas por tempo indeterminado.
— Mas…
Ele não esperou a réplica. Saltou do cavalo, pegou as rédeas e seguiu para fora da arena, sem olhar para trás. Antes de sair, orientou um cavalariço a ajudar Cristine a desmontar e deu a aula por encerrada.
— Sem diversão hoje? – disse Allan, sorrindo com desdém ao vê-lo entrar na cozinha.
— Não estou com humor para isso. – Alex respondeu, sentando-se em uma das cadeiras. Cruzou as pernas e recostou-se, exausto.
— Parece que a conversa com Ashley não saiu como você esperava. – Allan comentou, entregando-lhe uma caneca de café.
— Na verdade, saiu exatamente como eu esperava. O que me mata é essa ansiedade. – Alex tomou um gole do líquido quente e fez uma careta ao queimar a língua. – Você sabe como tento me controlar, mas o suspense acaba comigo.
Suspirou, inquieto.
A proposta feita a Ashley não lhe saía da cabeça. Ele duvidava que ela fosse resistir. Sabia bem em que estado os imóveis ficaram após a tempestade e contava com isso para persuadi-la. Pelo seu cálculo, a situação só poderia ter piorado com o tempo em que permaneceram fechados. Nora tentou recuperá-los, mas sua saúde debilitada não permitiu grandes avanços. Uma lembrança específica veio à tona: Nora desabafando com Lena sobre as dificuldades financeiras. Tanto a farmácia quanto o pet shop deixaram de ser rentáveis, e ela já cogitava vendê-los.
— Alex, você precisa relaxar. Sabe que as coisas acontecem no tempo certo. – Allan sentou-se à sua frente, cruzando os braços. – Logo terá sua resposta, embora eu esteja bem descrente de que Ashley vá concordar com essa idiotice.
— De que idiotice estão falando? – perguntou uma voz inconfundível.
Alex desviou o olhar para a porta. Dominic entrou ao lado de Alec.
— Não me diga que engravidou a Melanie? – Dominic provocou, servindo-se de café antes de se sentar. – Isso seria uma estupidez das grandes.
— Credo, Dominic! Vá rogar praga para outro! – Alex fez uma careta e balançou a cabeça. – Coloquei um fim em qualquer coisa que havia entre mim e Mel esta manhã.
Ele fez uma pausa, inclinando-se na direção dela, os olhos gélidos.
— Aliás, o que você fez ontem à noite foi um golpe baixo.
Dominic arqueou as sobrancelhas, um sorriso de desdém brincando em seus lábios, e deu de ombros, com desprezo calculado.
— Eu pensaria duas vezes antes de voltar a mexer comigo. – disse ela, dando tapinhas provocativos na bochecha dele. – Você não achou mesmo que eu ficaria para velar o desmaio do bebezão, não é?
— Parem vocês dois! – disse Alec, ainda rindo da expressão de Alex. – Que tal explicarem de que idiotice o Allan falava quando entramos?
— Resumindo: Cordélia voltou à cidade e exigiu sua parte no apartamento de Alex. Mas, como sabemos, Alex é vaidoso e arrogante o suficiente para não querer vender nem comprar a parte dela. Para não sair em desvantagem, ele recorreu a uma cláusula do contrato que lhe dá algum tempo para provar que Cordélia não passa de uma fraude. Porém, para que essa cláusula jogue a seu favor, ele precisa estar noivo ou casado. E, como é um solteirão convicto e avesso a compromissos, teve a brilhante ideia de pedir a alguém que finja ser sua noiva. – explicou Allan, deixando Dominic boquiaberta com a quantidade absurda de informações que ele conseguia reter.
Para Alex e Alec, a habilidade de Allan em absorver e repassar detalhes com precisão já não era novidade, mas Dominic ainda não entendia como ele conseguia fazer isso.
— Espera aí! – Dominic piscou algumas vezes, tentando acompanhar. – Por que Cordélia precisa tanto da parte dela no seu apartamento? Pelo que sei, ela se casou com um homem extremamente rico.
— Parece que o apartamento onde ela mora com o atual marido está com algumas parcelas atrasadas, e o sogro se recusa a ajudá-los. – Allan continuou, indiferente. – Então, ela teve a brilhante ideia de vender o apartamento de Alex para quitar o dela.
Por um momento, o silêncio pairou na cozinha. Até que Alec estreitou os olhos para Alex.
— Aquela vaca! – Dominic grunhiu, socando a mesa.
— E você já encontrou alguém para fingir ser sua noiva? – perguntou Alec. – Sabendo o quão popular você é, não deve ser difícil encontrar alguém disposta a cumprir esse papel com muito entusiasmo.
Allan suspirou e deu de ombros antes de se sentar à mesa com outra caneca de café nas mãos.
— E é exatamente isso que assusta nosso querido irmão. – disse ele, sorrindo com deboche.
— Como assim? – Alec franziu a testa, curioso.
— Alex está com medo de que a escolhida tire alguma “vantagem” dele. – respondeu Allan, vendo Alex bufar.
— Tipo, financeira? – perguntou Dominic.
— Não. Está mais para… amorosa mesmo. – Allan retrucou, zombeteiro. – Ele teme que a escolhida confunda as coisas e acabe complicando tudo.
— Então, resumindo… Você tem medo de que ela se apaixone por você e estrague o plano? – concluiu Alec, rindo.
Alex grunhiu diante da zombaria.
— Isso não tem a menor graça!
— Alex, me desculpe, mas tudo que vem de você tem graça. – disse Alec, ainda rindo.
— E como pretende resolver isso? – perguntou Dominic. – Com esse seu charme irresistível, segundo você mesmo, acho difícil encontrar uma garota que o odeie o suficiente para não cair nas suas armadilhas.
Allan soltou uma risada.
— Ah, irmãzinha… Essa é a parte mais divertida! – disse Allan, dando um tapa no ombro de Alex. – Ele já encontrou a candidata perfeita para ser a maior tola da cidade.
— É mesmo? E quem é essa corajosa? – Dominic arqueou as sobrancelhas, intrigada.
— Por que não conta para nossos irmãos quem foi a pobre coitada escolhida para essa missão? – provocou Allan, divertido.
Todos os olhares se voltaram para Alex, que se remexeu na cadeira, visivelmente incomodado por falarem dele como se não estivesse ali.
— Você é um pé no saco, sabia? – grunhiu Alex. Ele respirou fundo antes de responder, já prevendo as críticas pela escolha que fez. – Conversei com Ashley e propus que fingisse ser minha noiva. Em troca, ofereci cobrir todos os custos da reforma que ela precisa fazer.
O silêncio caiu sobre o ambiente, e Alex soube que era a calmaria antes da tempestade. Ele apenas aguardou o momento em que um de seus irmãos explodiria de indignação. Afinal, todos gostavam de Ashley. Ele era o único que sempre fazia questão de menosprezá-la.
— Você o quê?! – Dominic foi a primeira a reagir, arregalando os olhos.
— Alex, você perdeu completamente a cabeça? – Alec retumbou, indignado.
— Foi a única coisa que me veio à mente! – Alex deu de ombros, como se sua decisão fosse perfeitamente lógica. – Entrei em pânico, OK?
— Entrou em pânico?! – Alec exclamou, incrédulo. – Alex, você tem noção do quão absurda é essa ideia? Já parou para pensar no vexame que Ashley pode passar ao aceitar essa farsa? Ela é uma garota doce, meiga e inteligente… e vai quebrar a cara com essa sua chantagem.
— Chantagem? Eu não estou chantageando ninguém! – Alex se defendeu, indignado. – Ofereci algo em troca.
— Alex, eu estive com você naqueles estabelecimentos quando se ofereceu para ajudar na limpeza. Você sabe que Ashley não tem outra escolha a não ser aceitar sua proposta. – retrucou Alec, em tom de reprovação. – Você a deixou sem saída.
— Não é verdade! Eu realmente pretendo ajudá-la com a reforma. – disse Alex, suspirando, pegando a todos de surpresa. – Prometi à Nora que, se ela precisasse, poderia contar comigo.
— E por que não contou isso a Ashley? – perguntou Alec. – Aliás, ela sabe que foi você quem cuidou de Nora a maior parte do tempo?
— É claro que não!
— Por que não?
— Porque eu não quero que ela pense que estou fazendo isso porque precisei dar um tiro nela, apenas para derrubar o irmão. – respondeu Alex, atônito. Ele abaixou os olhos e o tom de voz. – Não quero que ela pense que estou pagando algum tipo de penitência por isso e por outras coisas também.
— E você está? – perguntou Dominic.
— É claro que não!
— Por que não?
— Porque eu não quero que ela pense que estou fazendo isso por culpa, só porque precisei dar um tiro nela para derrubar o irmão. – respondeu Alex, desviando o olhar e abaixando o tom de voz. – Não quero que ela pense que estou pagando algum tipo de penitência por isso… e por outras coisas também.
Dominic estreitou os olhos.
— E você está?
Alex desviou o olhar, apertando os punhos sobre a mesa.
— Claro que não. – respondeu, mas sua voz soou menos firme do que gostaria.
Dominic cruzou os braços, sem tirar os olhos dele.
— Jura? Porque parece exatamente isso.
— Ah, vamos lá, Dominic! – Alex bufou, impaciente. – Eu só achei que faria sentido compensar um pouco o transtorno que causei.
Alec soltou uma risada irônica.
— “Compensar um pouco”? Você basicamente enfiou a garota em uma mentira gigantesca!
— O que importa é que, sei que ela aceitará. – retrucou Alex.
— Isso não significa que será uma escolha justa! – Dominic rebateu. – Além disso, você acha mesmo que Ashley vai conseguir fingir que gosta de você sem querer te matar no meio do processo?
— Exatamente! – Allan entrou na conversa, rindo. – A questão aqui não é se ela vai se apaixonar por você, Alex. É se ela vai conseguir te suportar!
— Muito engraçado. – Alex revirou os olhos.
— Estou falando sério! – Dominic insistiu. – Ashley pode ser educada e prestativa, mas se tem uma coisa que ela não é, é trouxa. Você acha que ela não vai encontrar um jeito de se vingar?
Alec assentiu, pensativo.
— É uma ótima pergunta. – disse, lançando um olhar divertido para Alex. – O que te faz pensar que Ashley não vai aproveitar essa oportunidade para te transformar no maior otário da cidade?
Alex abriu a boca para responder, mas parou no meio do caminho.
— Bom… – ele pigarreou. – Eu… confio no bom senso dela.
Allan soltou uma gargalhada tão alta que quase derrubou sua caneca de café.
— Ah, essa foi boa! – disse, enxugando uma lágrima do canto do olho. – Você confia no bom senso dela? Depois de tudo que você já fez para a garota?
— Eu nunca fiz nada de tão grave assim! – Alex rebateu, na defensiva.
Dominic e Alec o encararam, incrédulos.
— Você vive implicando com ela desde sempre. – Dominic enumerou nos dedos. – Já fez piada do trabalho dela, do jeito dela, da voz dela, do cabelo dela…
— Do nome dela. – acrescentou Alec.
— Do gato dela. – completou Allan, ainda rindo.
— Isso foi um mal-entendido! – Alex resmungou.
— Ah, claro. – Dominic balançou a cabeça. – Se eu fosse você, ficaria atento. Ashley pode ser doce, mas todo mundo tem um limite.
— Exatamente. – Allan concordou, batendo na mesa. – Você acha que está no controle, mas e se, no final, ela virar o jogo e fizer você se apaixonar por ela?
O silêncio caiu sobre a cozinha.
Os irmãos de Alex se entreolharam, depois voltaram o olhar para ele.
Alex franziu a testa.
— Isso é ridículo. – resmungou. – Eu não vou me apaixonar por ela.
Alec e Dominic sorriram, como se tivessem acabado de ver o futuro.
— Hum… – murmurou Alec. – Vamos ver, então.
Allan levantou a caneca como se brindasse.
— Ah, esse vai ser um espetáculo maravilhoso de assistir.
Alex bufou, se levantando da cadeira.
— Odeio vocês.
Dominic sorriu, apoiando o queixo na mão.
— Mal posso esperar para ver você engolir essas palavras.
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Atualizado até capítulo 40
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