Ashley ficou imóvel, incapaz de processar o que acabara de ouvir. Seus olhos se fixaram em Alex, buscando qualquer sinal de hesitação, um desvio no olhar, um sorriso nervoso, qualquer coisa que indicasse que ele recuaria, reformularia a pergunta ou, no mínimo, admitiria ser uma piada. Mas ele permaneceu firme, a determinação em seu olhar desafiando o dela.
— O que foi que você disse? — ela perguntou, rompendo, enfim, o silêncio.
— Quer casar comigo?
Dessa vez, a voz de Alex veio mais firme, carregada de uma seriedade deslocada demais para a situação.
Incrédula, Ashley soltou uma risada nervosa, tentando se convencer de que havia entendido errado. Mas a risada descontrolada logo se transformou em uma tosse ofegante, roubando-lhe o fôlego.
— Você está bem? — Alex se inclinou para frente, dando leves tapas nas costas dela. — Por que está rindo?
Ashley respirou fundo, recuperando-se enquanto levava a mão ao peito.
— Por que você não está? — respondeu, ainda entre risadas, a incredulidade estampada em seu rosto.
— Porque isso não tem graça alguma! — Alex retrucou, ofendido.
Ela forçou-se a encará-lo com mais atenção. Foi então que percebeu… ele não estava brincando.
Um arrepio de alerta percorreu seu corpo. Alex sempre fora mestre em trotes e pegadinhas, e por um momento, Ashley pensara que aquilo não passava de mais uma das suas brincadeiras de mau gosto.
— Me desculpe, acho que entendi errado… Você me pediu em casamento?
— Não, você ouviu muito bem. Quero que seja minha noiva.
A seriedade no tom dele inflamou a raiva de Ashley.
— Alex, você é o maior canalha que eu conheço! Essa é, sem dúvida, a brincadeira mais idiota e grosseira que você já fez!
— Por que está gritando comigo? — ele rebateu, ríspido. — Estou falando sério. Sei que fui um idiota em várias ocasiões, mas nunca brincaria com algo assim.
Ashley ficou boquiaberta.
— Você está falando sério?
Alex confirmou com um aceno.
O sangue dela ferveu. Deu um passo à frente e o empurrou com força.
— Você perdeu a cabeça ou perdeu uma aposta, por acaso? — perguntou ela, com desdém. — Já sei! Descobriu ser gay e não quer admitir? Acertei?
O semblante de Alex endureceu. Ele avançou, segurando os braços dela e puxando-a contra si. Ashley prendeu a respiração.
— Nunca mais diga isso! — sua voz saiu baixa, entre dentes, carregada de ameaça. — Não que eu tenha algo contra ser gay, mas minha predileção é por mulheres. Então, muito cuidado com o que diz!
A proximidade e o tom dele fizeram Ashley perder o ar. Antes que pudesse reagir, Alex inclinou-se para seu rosto, um sorriso arrogante brincando nos lábios. Então, com uma ousadia que a deixou atordoada, passou a ponta da língua levemente pelo lábio inferior dela.
Ashley ficou paralisada. Uma das mãos dele segurou firme sua nuca, mantendo-a próxima.
— Se deixar, garanto que não vai se arrepender.
O corpo dela reagiu antes da mente. O calor do toque dele fez seus joelhos fraquejarem, e um arrepio percorreu sua espinha. Quando Alex começou a beijar seu ombro, um gemido suave escapou de seus lábios. Mas o som de um carro passando na rua trouxe-a de volta à realidade.
Com um esforço súbito, empurrou-o para longe.
Alex cambaleou, surpreso, mas riu.
— Você é louco! — ela gritou, a voz carregada de indignação. E, sem pensar duas vezes, desferiu um chute certeiro contra a canela dele.
— Por que fez isso? — ele reclamou, se contorcendo. — Isso dói, sabia?
— Estou pouco ligando para isso! — retrucou, dando de ombros. — E quanto ao seu pedido? A resposta é não!
Ashley girou nos calcanhares, pronta para ir embora, mas a voz de Alex a deteve.
— Por favor! — Havia algo diferente nele agora. Algo quase… vulnerável. — Me escute por um minuto.
Ela parou, desconfiada.
— Preciso estar em um compromisso pelos próximos três meses ou perco meu apartamento para Cordélia.
O nome fez o sangue de Ashley gelar.
— Cordélia está aqui?
— Sim. Você não sabia? Ela saiu da cafeteria pouco antes de você entrar.
Ashley sentiu algo se revirar dentro dela. Sua única prima era a personificação de seus pesadelos: manipuladora, cruel e sempre pronta para humilhá-la. Desde crianças, Cordélia fazia questão de ridicularizá-la, muitas vezes aliada a Alex, que, na época, parecia inconsciente do impacto de suas palavras.
Mas o pior golpe veio quando Cordélia percebeu que Ashley era apaixonada por Alex. Foi quando a rivalidade infantil se tornou ainda mais venenosa. Cordélia passou a se insinuar para ele, não por afeto, mas apenas pelo prazer de vê-la sofrer.
— Não, não a vi. — Ashley respondeu, sentindo a frágil compostura que tentava manter ameaçar ruir. — Eu saí irritada demais com você para prestar atenção em qualquer coisa.
Alex estreitou os olhos, desconfiado.
— Estranho… Ela saiu pouco antes de você entrar. Como vocês não se cruzaram?
— Alex, eu estava desnorteada por perder meu chaveiro! Você acha mesmo que eu repararia em quem entrava ou saía da cafeteria? — retrucou Ashley, irritada. — E, além disso, mesmo que eu a tivesse visto, teria passado direto como se fosse uma estranha qualquer.
Alex percebeu a mudança de humor dela e, antes que pudesse escapar, segurou um dos pés da escada, impedindo-a de seguir em frente.
Ashley murmurou um palavrão, chutando uma pedra ao quase perder o equilíbrio.
— Merda, Alex!
Ele sorriu, mas seu olhar era sério.
— Você ainda não respondeu à minha pergunta.
— Já respondi! Mas, caso não tenha ficado claro, a resposta continua sendo não! — Ashley retrucou, tentando mais uma vez passar, mas Alex manteve-se firme, bloqueando sua passagem.
Ela soltou um grunhido frustrado.
— Dá para parar com essa dancinha ridícula e me deixar passar?
— Só me escute por um minuto. Se depois disso você ainda quiser ir, eu deixo. — O tom dele era mais suplicante do que autoritário, o que a desarmou instantaneamente. Como sempre acontecia.
Ashley suspirou, cruzando os braços.
— Certo, mas seja breve.
Alex passou a mão pelos cabelos, como se precisasse organizar os pensamentos antes de falar.
— O apartamento onde moro… Cordélia e eu compramos juntos. Na hora de firmar o contrato, ela incluiu uma cláusula que, na época, me pareceu estranha, mas agora faz todo sentido.
— Que cláusula?
— Em caso de venda do imóvel, quem estivesse em um compromisso sério teria prioridade para adquiri-lo.
Ashley franziu o cenho, tentando processar aquela informação antes de soltar uma risada.
— Então, basicamente, ela já sabia que você acabaria se tornando um sedutor inconsequente que preza a liberdade acima de tudo?
— Isso não tem graça.
— Tem, sim. E muita! — disse, rindo ainda mais alto, o que fez Alex bufar. Depois de alguns segundos, ela se obrigou a se recompor. — Ok, OK… Mas por que você simplesmente não compra a parte dela? Com ou sem compromisso, a cláusula ainda te dá prioridade. E, convenhamos, dinheiro nunca foi um problema para você.
— Porque eu me recuso a dar esse gostinho para Cordélia. Não vou deixar que ela fique com um centavo meu, nem direta, nem indiretamente. — O tom de Alex era carregado de raiva, e ele passou as mãos pelos cabelos, visivelmente irritado. — Por isso, preciso de uma noiva. Se eu estiver em um relacionamento sério, ela será obrigada a esperar pela avaliação do imóvel antes de vender sua parte. Enquanto isso, Allan investiga a história que ela me contou.
— Que história?
— Que as parcelas do apartamento atual dela estão atrasadas e o sogro se recusou a ajudá-la com a quitação. Então, ela precisa do dinheiro da venda para resolver isso.
Ashley revirou os olhos.
— Pelo visto, Cordélia continua a mesma de sempre. — suspirou, dando de ombros, antes de franzir o cenho. — Mas espera… Por que Allan, e não Alec, está investigando?
— Porque Allan tem contatos melhores para esse tipo de coisa. — respondeu Alex, como se fosse óbvio. — Mas isso não importa agora. O que importa é que preciso de uma noiva. E quero que você desempenhe esse papel.
Ashley cruzou os braços, estreitando os olhos.
— Certo, vamos fingir por um momento que eu aceite essa loucura. Como exatamente você pretende justificar nosso súbito noivado?
Alex deu de ombros, um sorriso despreocupado nos lábios.
— Podemos dizer que começamos a nos envolver em uma das minhas viagens a Nova York.
Ashley arqueou uma sobrancelha, incrédula.
— E quando foi que você esteve em Nova York?
Ele piscou, pego de surpresa.
— Eu… nunca estive. Mas achei que ajudaria a tornar a história mais convincente.
— Sei… — respondeu Ashley, carregada de sarcasmo. — E quanto à Mel?
— O que tem ela?
— Soube que vocês têm um relacionamento. Embora você a tenha dispensado ontem, como fez questão de mencionar. — Ela soltou uma risada debochada.
Alex se aproximou lentamente, inclinando-se ligeiramente na direção dela, um sorriso de canto brincando em seus lábios.
— Você percebe que essa frase soa um pouco ciumenta?
— E você percebe que é um completo idiota? — rebateu Ashley, lançando-lhe um olhar irônico.
Ele riu baixo, mas logo voltou a ficar sério.
— Seja lá o que você ouviu sobre Mel e eu, é mentira. Somos apenas amigos. — Alex recuou um passo e cruzou os braços. — Além disso, qualquer coisa que tenha existido entre nós, acabou esta manhã.
Ashley o analisou com desdém.
— Então ela passou a noite na sua casa? — perguntou, carregando ironia na voz. — E como você espera que alguém acredite nessa história absurda de que nos apaixonamos em uma viagem fictícia para Nova York?
— Porque sou eu quem vai contar!
Ela balançou a cabeça, descrente.
— Alex, as pessoas desta cidade podem ser moralmente falidas, mas não são idiotas. — Ela cruzou os braços, olhando para ele como se explicasse algo óbvio. — Se fosse o Allan, até poderia colar, mas você… É praticamente assinar um atestado de burrice!
Ela se virou para pegar a escada novamente.
— Espera aí! — Alex chamou, fingindo indignação. — Está dizendo que meu irmão é melhor do que eu?
Ashley ergueu uma sobrancelha e lançou um sorriso debochado.
— O que você acha?
Sem esperar por uma resposta, pegou a escada, recolheu suas coisas e saiu andando até a esquina. Estava tão distraída que não percebeu o impacto iminente contra um peito tatuado assim que fez a curva.
O som metálico da escada caindo ecoou pelo ambiente quando o homem agarrou seu pulso, segurando-a antes que perdesse o equilíbrio.
Ele sorriu, com uma provocação descarada nos olhos.
— Me desculpe! — disse Ashley, puxando a mão com uma careta enquanto tentava se recompor. — Eu não vi você.
— Mas eu vi você. — O sorriso torto do homem se alargou enquanto ele dava um passo à frente.
Ashley estreitou os olhos, reconhecendo-o de imediato.
— Ah, não… Você de novo?! — exclamou, o desgosto evidente na voz.
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Atualizado até capítulo 40
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