A manhã já começara mal.
Assim que se levantou, Ashley precisou lidar com Nora, insistindo na venda dos imóveis da família. Com muito esforço e sua melhor lábia, conseguiu convencê-la a desistir da ideia, pelo menos por enquanto. Em vez disso, propôs reformar os estabelecimentos e reabri-los, trazendo nova vida aos negócios. Mas sua confiança vacilou assim que analisou os livros-caixa. Não havia dinheiro suficiente para revitalizar tudo.
Durante o tempo que passou em Nova York, a saúde frágil de sua tia forçou o fechamento das lojas em vários dias, resultando em perdas significativas.
E como se o dia já não estivesse ruim o bastante, Ashley teve a infelicidade de encontrar Alex pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas.
Para completar, perdeu seu precioso chaveiro.
Definitivamente, não era seu dia.
— Como alguém conseguia perder tantas chaves?
A pergunta martelava na mente de Ashley enquanto ela descia os degraus da cafeteria, irritada por não conseguir encontrar o pequeno chaveiro, um presente de sua tia Nora em seu décimo quinto aniversário. Mas aquele não era um simples chaveiro. Era um símbolo. Representava o início de sua independência, um marco de liberdade. Perdê-lo não significava apenas trocar fechaduras, mas deixar para trás um pedaço de si mesma.
— Minha tia vai me matar! – murmurou, levando as mãos à cabeça em frustração.
Ao sair da cafeteria, encontrou alguns conhecidos e se perdeu em uma longa conversa. Quando finalmente se despediu e enfiou a mão na bolsa, sentiu um frio na espinha. O chaveiro não estava lá.
E com ele, havia sumido as chaves de casa, da velha picape, das duas lojas e do casarão da família, um legado deixado por sua avó.
Ashley olhou para a picape estacionada em frente à cafeteria e suspirou. Poderia chamar um chaveiro, mas, claro, não tinha o telefone de nenhum.
— Acho que só me resta caminhar. – pensou, lançando um olhar desgostoso para o veículo antes de seguir pela rua.
E a culpa, evidentemente, era de Alex.
Se ele não tivesse soltado aquelas insinuações maldosas, ela não teria saído da cafeteria tão apressada, sem verificar se havia deixado algo para trás. Com cada passo, a raiva dela crescia. Por mais que desejasse voltar e gritar com ele ou até mesmo socá-lo, sabia que não valia a pena machucar a própria mão por causa dele.
As palavras de Alex, sempre carregadas de desconfiança, a atingiam de um jeito particular. O passado sombrio de seu pai e de seus irmãos, Bryan e Alexandra, havia manchado o sobrenome Keller, deixando um rastro de suspeitas por onde passasse. Era inevitável. Onde quer que fosse, sempre haveria olhares questionando se a maçã caiu longe do pé.
E, por mais que isso a irritasse, Ashley não podia culpar Alex.
Provavelmente, toda a cidade pensava o mesmo. E se não fosse por sua tia Nora, ela jamais teria retornado.
A voz familiar de Simon Edwards a arrancou de seus pensamentos.
— Menina Keller? É você? – chamou o simpático dono da sorveteria, exibindo seu sorriso acolhedor. – Para onde está indo? Precisa de uma carona?
Ashley se virou, surpresa.
— Olá, senhor Edwards! – cumprimentou, retribuindo o sorriso com educação. – Estou indo até as lojas da minha tia. O senhor se incomodaria de me deixar lá?
— Claro que não! Entre aí! – respondeu ele, animado.
Assim que Ashley se acomodou no carro, Simon lançou-lhe um olhar curioso.
— O que aconteceu com a sua caminhonete? Bateu o motor de novo?
— Graças a Deus, não! – ela fez uma careta. – Perdi as chaves e agora preciso chamar um chaveiro… e trocar todas as trancas.
Simon balançou a cabeça com um suspiro.
— Puxa, que azar!
— Nem me fale! – murmurou Ashley, exausta.
Durante o curto trajeto, conversaram descontraidamente. Ela se sentiu grata pela delicadeza de Simon, que evitou tocar em assuntos sensíveis, como a prisão de seus irmãos ou a morte de seu pai. Ele perguntou apenas sobre Nora, e Ashley respondeu com um sorriso forçado, desviando do tema delicado da saúde da tia.
Ao estacionar em frente aos estabelecimentos da família, Simon se virou para ela com um sorriso caloroso.
— Foi bom revê-la, menina! Diga à sua tia que levarei mais tarde aquela torta que Lina faz e que ela tanto gosta.
— Obrigada, senhor Edwards. Direi a ela! – respondeu Ashley, inclinando-se para lhe dar um beijo na bochecha antes de sair do carro.
Mas, antes de fechar a porta, lembrou-se de algo.
— Ah, senhor Edwards, o senhor sabe se Natan ainda trabalha como chaveiro?
Simon fez uma careta.
— Sinto muito, querida, mas Natan se mudou para a Flórida no ano passado. O chaveiro mais próximo fica na Lone Ridge Store.
Ashley suspirou, frustrada.
— Ótimo…
— Boa sorte, menina! – desejou Simon com um aceno simpático.
— Vou precisar! – respondeu ela, forçando um sorriso antes de seguir para as lojas.
Enquanto o veículo desaparecia no fim da rua, Ashley voltou sua atenção para os imóveis à sua frente. Observou a fachada desgastada com um misto de nostalgia e melancolia. O letreiro do pet shop estava quebrado, e o toldo azul, embolado pelo vento. Ao lado, a farmácia não parecia em melhores condições. No entanto, para ela, aqueles prédios representavam muito mais do que meros negócios. Eram o legado de sua família.
— Até que não está tão ruim quanto imaginei… – murmurou, fazendo uma careta.
Ashley soltou um longo suspiro. Havia muito trabalho pela frente. Mesmo sem poder entrar por enquanto, decidiu começar pelo letreiro e pelo toldo. Também pretendia comprar algumas lâmpadas novas para iluminar a fachada, ainda que as lojas permanecessem fechadas.
Lembrou-se de que, na esquina do quarteirão, havia uma pequena loja de ferragens. Com esperança de que ainda estivesse lá, seguiu a passos firmes na direção da loja, rezando para que o tempo não tivesse apagado mais essa parte de sua infância.
Enquanto caminhava, notou um grupo de rapazes encostados em motos do outro lado da rua. Eles riam alto, garrafas de cerveja em mãos. Assim que passou por eles, sentiu os olhares pesarem sobre si. Instintivamente, abaixou a cabeça, torcendo para não chamar atenção. Para seu alívio, eles apenas cochicharam entre si e a ignoraram.
Ao avistar a loja de ferragens, um sorriso aliviado surgiu em seu rosto. Estava exatamente como se lembrava. Assim que entrou, foi recebida por Della, que a cumprimentou com um sorriso caloroso.
— Olha só quem está de volta! – exclamou a mulher, animada. – Não sabia que tinha voltado, querida!
— Cheguei ontem à noite. – respondeu Ashley, retribuindo o sorriso.
— Nova York fez muito bem a você… – disse Della, puxando-a para um abraço apertado. – Está ainda mais linda.
Ashley riu, afastando-se levemente.
— Obrigada, Della!
— Bem, em que posso ajudá-la, belezinha? – perguntou a mulher, indo para trás do balcão.
— Preciso de uma escada para retirar o toldo das lojas. O vento rasgou a lona e quero removê-la antes que fique pior. Também preciso de lâmpadas novas. Sei que ainda levará um tempo para reabrir as lojas, mas pelo menos posso iluminar a entrada.
Della piscou para Ashley.
— Claro, querida! Me dê só um instante.
Ela foi até o fundo da loja, enquanto Ashley se apoiava no balcão, suspirando, com o queixo na palma da mão.
Pouco depois, Della retornou com algumas lâmpadas e apontou para a entrada.
— A escada está ali. Tem alguns bons degraus, mas acho que vai servir.
Ashley se virou e viu a escada de ferro encostada na parede. Mesmo com sua altura mediana, ela seria suficiente para alcançar o letreiro.
— Vou torcer para a fiação estar em boas condições. – comentou, enquanto pagava pelas lâmpadas. – Espero que a chuva não tenha danificado nada.
Della franziu a testa.
— Tome cuidado, querida. Na última tempestade, já era madrugada. Você sabe que Nora sempre deixava as luzes da fachada acesas, então, se ainda houver alguma corrente elétrica, pode estar em curto.
— Não se preocupe, serei cuidadosa .— garantiu Ashley.
Despediu-se de Della, pegou a sacola com as lâmpadas e a escada, então saiu da loja, sentindo-se um pouco mais animada. No entanto, ao dobrar a esquina, um assobio cortou o ar, fazendo-a parar.
Virou-se, esperando encontrar alguém conhecido, mas, em vez disso, deparou-se com o olhar avaliador de um dos rapazes das motos.
— Olá, princesa! Precisando de ajuda? – perguntou ele, com um sorriso bêbado.
Era alto e forte, de pele morena, cabelos longos e negros. O torso musculoso estava coberto de tatuagens e completamente exposto.
— Não preciso de ajuda, mas obrigada. – respondeu Ashley, mantendo a voz educada, mas o olhar sério.
Tentou seguir caminho, mas outro homem bloqueou sua passagem.
— Para onde vai com tanta pressa? – perguntou ele, um sorriso debochado nos lábios. Era quase idêntico ao primeiro, exceto pelos cabelos mais claros.
Ashley bufou, impaciente.
— Isso não é da sua conta.
— A belezinha está de mau-humor – zombou ele, arrancando risadas dos demais.
O moreno de cabelos longos se aproximou mais um passo.
— Você é bonita. Como se chama?
Ashley respirou fundo, exasperada.
— Com licença, mas não estou interessada.
Sem esperar resposta, virou-se e apressou o passo.
— Bando de desordeiros idiotas… – resmungou, enquanto caminhava.
De volta às lojas, encostou a escada na parede e deixou as lâmpadas no chão. Retirou a mochila e o tubo de PVC das costas, colocando-os ao lado. Pronta para começar o trabalho, abriu a escada de ferro e subiu com cuidado, posicionando-se na altura do letreiro.
A primeira lâmpada saiu facilmente, mas a segunda parecia emperrada.
— Mas que merda… – resmungou, puxando-a com mais força.
Sem pensar muito, colocou a mão no pino lateral para aplicar mais pressão. Como Della alertara, a energia estava em curto. Assim que seu dedo tocou um dos pinos de contato, um choque percorreu seu corpo, fazendo-a estremecer e perder o equilíbrio.
Ashley sentiu o chão se aproximar rápido demais.
Mas, em vez de cair, foi amparada por algo firme e quente.
— Olá, pequena! – disse uma voz carregada de diversão.
Ashley piscou, tentando recuperar o fôlego, e se deparou com um sorriso presunçoso.
— Justo quem eu procurava. – completou Alex.
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Atualizado até capítulo 40
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