Cordélia Moore fitava Alex com um desdém inconfundível. Prima de Lex, não compartilhava apenas os mesmos traços físicos com ela, mas também o caráter egoísta e ambicioso. Era o tipo de mulher que faria qualquer coisa para alimentar seu próprio ego insaciável, movida por uma paixão voraz pelo dinheiro. Para Alex, Cordélia era o maior erro de sua vida e, ironicamente, a punição por sua ingenuidade em confiar plenamente em uma mulher.
Assim como Alec, ele cometera o engano de se comprometer cedo demais. E, assim como Alexandra, Cordélia jamais o amara de verdade. Seu coração sempre pertencera a algo muito mais valioso para ela: a fortuna da família dele. Não demorou para encontrar um motivo para traí-lo. Um filho de senador, dono de bolsos mais fundos que os de Alex, roubou sua atenção e seu interesse. Sem hesitar, Cordélia o trocou. A decepção e o rancor corroeram Alex, e ele nunca mais se permitiu amar. Sua vida se tornou um ciclo de trabalho incansável e noites insaciáveis, afogadas em mulheres e bebidas, tentando preencher o vazio deixado por sua confiança traída.
Vê-la ali, depois de tanto tempo, fez um nó apertar-se em seu estômago. Cordélia continuava impecável, como sempre. Seus longos cabelos negros estavam escovados e presos para trás, adornados por uma tiara prateada que reluzia sob a luz do ambiente. A camisa de seda preta, com um decote provocante, combinava com o short de grife que delineava suas pernas. Ela conhecia bem suas armas—e sabia exatamente como usá-las. O preto não era apenas uma escolha estilística; era um lembrete sutil, uma provocação calculada. Cordélia jamais esqueceria qual era a cor favorita de Alex. E, certamente, aquela coincidência não era acidental.
— O que você está fazendo aqui? – Alex perguntou, encarando-a com puro desprezo.
Cordélia ignorou o tom cortante dele e esboçou um sorriso debochado, lançando um olhar de relance para Allan antes de responder:
— É assim que me recebe? – provocou, inclinando levemente a cabeça. – Como vai, Allan? Tudo bem?
Allan retribuiu com um olhar carregado de desprezo.
— Aposto que melhor do que você! – disparou, pegando seu copo de café. Depois, voltou-se para Alex. – Estarei logo ali. Grite se precisar.
Ao se afastar, ainda lançou um último olhar desconfiado para Cordélia, que, indiferente, apenas sorriu com sarcasmo.
— Sempre tão encantador. – comentou, cheia de ironia. – Pena que não herdou o seu charme.
Alex, irritado, agarrou o braço dela com firmeza e a puxou para sentar-se na poltrona.
— Por que não corta o teatro e vai direto ao ponto? O que você quer?
Cordélia fez uma careta ao ser empurrada contra o estofado. Massageando o braço que Alex ainda segurava, lançou-lhe um olhar carregado de desdém.
— Adoro esse seu lado agressivo! É tão sexy e viril. – murmurou, deslizando os dedos pelo braço dele. – Essa sua roupa de montaria também fica muito bem você. Destaca os músculos. Andou malhando? Está ainda maior do que eu me lembrava.
Os olhos de Alex brilharam de repulsa.
— Não toque em mim! – ele puxou o braço bruscamente. – Tenho nojo de você!
Cordélia soltou uma risada baixa e provocadora.
— Que clima hostil… – disse, inclinando-se para ele. – Não sentiu saudades minhas?
Alex respirou fundo, tentando conter a irritação.
— Tanto quanto um javali, sente falta de um leão. – rebateu, cruzando os braços, impaciente. – Agora diga logo o que quer. Certamente não veio aqui por nostalgia.
Cordélia sorriu, o olhar cintilando com malícia.
— Nossa, que rude! Parece até que não ficou feliz em me ver.
— Não fiquei. – Alex respondeu secamente. – E, se não falar logo, eu juro que…
— Calma! – interrompeu ela, fingindo inocência. – Você está tão agressivo.
Alex estreitou os olhos.
— O que você faz em Lone Ridge, Cordélia? Sua família inteira está morta ou na prisão.
— Nem todos. – retrucou ela, com um sorriso presunçoso. – Ashley ainda está bem viva.
A mandíbula de Alex se contraiu.
— Lave a boca antes de falar o nome dela! Ashley é uma boa menina. – disse, a voz carregada de irritação. – Além disso, pelo que me lembro, vocês nunca se deram bem. Então, chega de papo furado.
Cordélia revirou os olhos.
— Você está mesmo defendendo aquela menininha patética? – zombou. – Se bem me lembro, você adorava zombar dela tanto quanto eu.
Um incômodo percorreu a espinha de Alex ao recordar-se de como fora cruel com Ashley no passado. Talvez ele realmente merecesse a lição da noite anterior…
— Quer saber? Não vou perder meu tempo com você. – disse, levantando-se. – Se não me disser por que está aqui, estou indo embora.
Cordélia segurou seu braço antes que ele se afastasse.
— Relaxa, Alex! – disse, apertando levemente sua manga. – Senta aí. Vou explicar.
Ele hesitou por um momento, depois passou a mão pelos cabelos e se sentou novamente, embora a desconfiança ainda estivesse estampada em seu rosto.
— Sem enrolação. Se não for direto ao ponto, eu saio.
Cordélia suspirou dramaticamente, recostando-se.
— Certo… Vim pela minha parte no apartamento.
O sangue de Alex gelou.
— O quê?
— Fizemos um trato, lembra? Você moraria nele, e eu teria um prazo para exigir a venda e a minha parte em dinheiro. – disse, com um sorriso desdenhoso. – O prazo ainda não acabou, então… estou aqui para cobrar o que é meu.
Alex cerrou os dentes.
— Aquele apartamento é meu! Eu paguei a maior parte!
— Não, segundo o contrato. – cantarolou ela, provocadora.
A raiva subiu como fogo dentro de Alex. Ele segurou os braços de Cordélia e a sacudiu.
— Por que está fazendo isso? Seu marido não pode bancar um apartamento para você?
Cordélia soltou um riso sarcástico.
— Não seja ingênuo! Claro que ele pode. – retrucou, com ironia. – Aliás, já temos um. O problema é que as parcelas do financiamento estão atrasadas e meu sogro se recusou a nos ajudar. Então, decidi reivindicar minha parte e vender o apartamento para quitar a dívida.
Alex riu, incrédulo.
— Deixa eu ver se entendi… Você tem um apartamento, mas não pode pagar por ele, então quer vender o meu para cobrir a sua dívida? – zombou. – Você não tem um pingo de vergonha na cara, não é? Onde acham que irei morar?
Cordélia deu de ombros.
— Ah, não sei… talvez você possa voltar para o haras onde cresceu.
Alex fechou os olhos e respirou fundo, tentando organizar os pensamentos que se embaralhavam. Voltar para o haras estava fora de questão. Ele prezava sua privacidade e não abriria mão do apartamento, ainda mais por um capricho mesquinho e egoísta de Cordélia, embora pudesse pagar por outro.
— Você é uma cretina egoísta, sabia? – disparou, tentando conter a fúria que queimava em sua voz.
Cordélia arqueou as sobrancelhas com um ar indiferente, ajeitando os óculos escuros no rosto enquanto acomodava a bolsa no ombro.
— Obrigada! – respondeu ela, um sorriso gélido nos lábios. – Agora que estamos entendidos, vou falar com o corretor. Você acha que consegue se mudar em um mês? Já tenho um comprador interessado que quer o imóvel quanto antes.
O sangue de Alex ferveu.
— Você já está negociando o apartamento sem sequer me avisar?!
— E por que não? – Cordélia deu de ombros, sem um pingo de remorso. – Para que perder tempo?
Ela se levantou da poltrona, pronta para sair. Alex ficou atônito, as palavras lhe escapando enquanto o pânico e a indignação disputavam espaço em sua mente. Mas, em meio ao caos, um lampejo de clareza surgiu. Um detalhe específico do contrato voltou à memória.
— Um momento! – Sua voz firme fez Cordélia parar, os olhos desafiadores fixos nele. – Está esquecendo de algo… Um adendo que você mesma insistiu em incluir.
Ela ergueu o queixo com desdém.
— É mesmo? E que seria?
— Se um de nós estivesse em um compromisso sério, como noivado ou casamento, teria o direito de comprar a parte do outro antes de qualquer venda.
Cordélia inclinou a cabeça, estreitando os olhos enquanto avaliava Alex.
— E isso muda o quê?
— Bem, nós dois estamos em relacionamentos estáveis. Sendo assim, exijo uma avaliação do imóvel para comprar sua parte.
Ela piscou, incrédula, antes de explodir em uma risada cortante.
— Você? Comprometido? – zombou, cruzando os braços. – O maior promíscuo da cidade? Francamente, Alex, conta outra. Todo mundo sabe que você é um conquistador barato, sem coração e sem rumo.
Alex estreitou os olhos, um sorriso irônico curvando seus lábios.
— E como você sabe disso? – rebateu, a voz carregada de sarcasmo. – Anda me espionando? Ou foi sua adorável prima fofoqueira que resolveu narrar minha vida para você?
Ele deu um passo à frente, devagar, o olhar intenso forçando Cordélia a recuar, embora ela tentasse manter a pose. Alex sabia que, por baixo da máscara confiante, ela odiava perder o controle da situação.
— Não importa como eu sei! – retrucou Cordélia, hesitando por um segundo antes de recuperar o tom desdenhoso. – Sei que você está mentindo.
— Ótimo. Então, não vai se importar em esperar pelo avalista, certo?
Cordélia apertou os lábios, visivelmente frustrada.
— Um avalista pode demorar meses para aprontar um laudo! Eu não tenho esse tempo!
— Não é problema meu. – Alex deu de ombros, devolvendo a mesma indiferença que ela usara minutos antes. – Tenho prioridade na compra da sua parte. Exijo que o avalista faça a avaliação antes de qualquer venda.
Ela bufou, irritada, batendo o pé no chão como uma criança contrariada.
— Está bem! Mas lembre-se de uma coisa, Alex: isso só vale se você estiver noivo ou casado. Ou seja, terá que apresentar a infeliz que aceitou o fardo de estar com você. Sem isso, o adendo não tem validade.
Cordélia se aproximou, um sorriso frio e provocativo brincando nos lábios. Ergueu o dedo e deslizou lentamente da base do pescoço até o peito de Alex, por cima da camisa.
— Vou querer conhecê-la primeiro. Depois disso, aceito vender minha parte pelo valor que o avalista determinar.
Antes que pudesse recuar, Alex agarrou seu pulso com firmeza, arrancando dela um pequeno arquejo surpreso.
— Não brinque comigo, Cordélia… – sua voz era baixa, carregada de ameaça. – Você pode acabar se arrependendo.
Com um gesto brusco, ele soltou seu pulso. Cordélia inclinou a cabeça, um sorriso venenoso se espalhando em seus lábios.
— Você tem três dias, príncipe. – Sua voz era doce, mas o tom continha uma lâmina afiada. Ela se inclinou um pouco mais, lambendo os próprios lábios antes de sussurrar junto aos de Alex: – Se em três dias você não me apresentar sua noiva para validar o adendo, eu fecho negócio com meu comprador. E, a propósito, ele fez uma oferta excelente.
Alex fechou os olhos, exalando um suspiro pesado. O cansaço daquela conversa parecia pesar em seus ombros. Quando os abriu novamente, Cordélia já caminhava em direção à porta com a confiança de quem sabia estar no controle.
A batida da porta ecoou no silêncio, deixando Alex sozinho… ou quase.
Allan, que assistira à cena à distância, se aproximou com uma expressão curiosa.
— Que diabos foi essa história de “adendo”?
Alex soltou um suspiro e cruzou os braços, seu olhar ainda fixo na porta por onde Cordélia havia saído.
— Uma cláusula no contrato de compra e venda do apartamento. Na época, achei um absurdo, mas agora vai me dar tempo. – ele lançou um sorriso satisfeito. – Cordélia incluiu essa condição achando que tiraria vantagem, já prevendo que me deixaria por aquele cretino.
Allan franziu a testa.
— Certo… Pelo que entendi, para ter prioridade na compra da parte dela, você precisa estar casado. E como pretende provar isso? Pensei que tivesse terminado com a Mel.
— Terminei. – Alex respondeu seco.
— Então, por que diabos disse à Cordélia que está noivo? Por que não simplesmente compra a parte dela e encerra logo isso?
A expressão de Alex endureceu.
— Porque eu não tenho a mínima intenção de vender ou comprar esse apartamento. Principalmente para Cordélia.
Allan ergueu uma sobrancelha, um sorriso se formando nos lábios.
— Ah… entendi. Você quer tempo. – Ele deu um tapa no ombro do irmão, já sacando o plano. – Vai investigá-la, não vai?
Alex assentiu.
— Não engulo essa história sobre o sogro dela. Tem algo muito errado nisso.
— Deixa isso comigo. – Allan sorriu malicioso. – Você sabe que minhas credenciais são melhores que as suas.
— E você nunca me deixa esquecer que é meu chefe. – Alex revirou os olhos.
— Um bônus divertido, irmãozinho. – Allan riu. – Além disso, você tem um problema maior para resolver.
— Tipo, encontrar uma noiva?
— Exatamente.
O tom irônico do irmão fez Alex suspirar. A cidade estava cheia de mulheres que, sem dúvida, topariam fingir um noivado, mas todas elas acabariam pedindo algo em troca. E ele não estava disposto a pagar esse preço.
Ainda processava as possibilidades quando a porta da cafeteria se abriu com um estrondo. Uma figura pequena e loira entrou como um furacão, atravessando o salão, apressada.
Ashley.
Ela sequer olhou para Alex enquanto vasculhava as poltronas, claramente procurando algo.
Alex inclinou a cabeça, observando-a por um momento antes de esboçar um sorriso travesso.
— Pensando bem… acho que acabei de encontrar a pessoa perfeita para o papel.
Allan franziu a testa.
— Você não está falando sério.
Alex abriu um sorriso ainda maior.
— Claro que estou.
A ideia de usar Ashley como sua “noiva de mentira” era tão absurda que fazia sentido. Ela tinha um bom coração, era confiável e, acima de tudo, não parecia o tipo de pessoa que tentaria chantageá-lo depois. Com Ashley, ele não arriscava perder algo mais valioso que dinheiro: sua paz.
Ashley soltou um grunhido frustrado ao não encontrar o que procurava. Foi até o balcão, perguntou algo a Lena, que negou com a cabeça, parecendo lamentar. Desanimada, ela olhou ao redor e, ao perceber Alex observando-a, lançou-lhe um sorriso sarcástico.
Sem hesitar, ergueu o dedo do meio antes de sair da cafeteria.
Allan explodiu em risadas, dando mais um tapinha no ombro do irmão.
— Boa sorte, meu irmão. – disse, debochado. – Você vai precisar.
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Atualizado até capítulo 40
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