Allan lançou um olhar de desdém para Alex enquanto injetava o medicamento que Ashley havia deixado.
— Quando você pediu álcool e um torniquete, achei que ia se drogar.
Alex soltou uma risada sarcástica, fazendo uma careta ao sentir a picada da agulha.
— Quem me dera! Pelo menos, teria uma desculpa decente para o meu comportamento nas últimas horas.
Allan esboçou um sorriso de canto, como se já estivesse esperando essa resposta.
— Quem manda ser tão imprudente? Agora aguenta. – Ele deu de ombros. – Se não fizesse tanta questão de se exibir, talvez não estivesse parecendo um completo idiota agora.
Terminando de aplicar o medicamento, Allan se acomodou na cadeira e fez um sinal para Lena, que logo entendeu e foi buscar o que ele queria.
— Mas uma coisa é certa… Aquela pequena feiticeira trapaceou. – Alex bufou, dando um tapa na mesa, ainda indignado. – Ela nem piscava! Ficou lá, alternando tequila e aquela maldita cerveja, como se fosse água. Hoje de manhã, parecia que nada tinha acontecido, enquanto eu me sentia como se tivesse sido atropelado por uma carruagem desgovernada.
Allan pegou o copo duplo de café que Lena trouxera e riu.
— É claro que ela trapaceou.
Alex estreitou os olhos.
— Então, você acredita em mim? Acha que aquela pirralha me passou a perna?
— Sem dúvidas! E mais, usou um truque bem ridículo.
— Que truque?
Allan inclinou-se ligeiramente para frente, como se estivesse prestes a contar um segredo.
— A garrafa de cerveja. Ashley a usou para cuspir parte da tequila enquanto fingia beber. – Ele deu um gole no café antes de continuar. – Foi por isso que manteve a garrafa que já estava bebendo antes da aposta, em vez de pegar uma nova. Já estava pela metade, com espaço suficiente para executar o plano sem levantar suspeitas.
O silêncio pairou por um instante enquanto Alex processava a informação. Então, explodiu:
— Mas que droga! Eu sabia que tinha algo errado!
— Pois é. – Allan riu, recostando-se na cadeira. – E o melhor? Você caiu direitinho num truque velho… que você mesmo já usou antes. Parece que o destino resolveu te dar um gostinho do próprio veneno.
Alex bufou, sentindo a frustração se intensificar. Ele realmente subestimou Ashley e pagou o preço por isso. Mas, como todo bom estrategista, já começava a planejar sua vingança.
Enquanto observava Allan com um olhar crítico, sentiu os efeitos calmantes do remédio começando a agir. Sua cabeça latejava menos, e o nó em seu estômago finalmente dava sinais de alívio. Viu Allan terminar o café e pedir outro.
— Você precisa pegar mais leve na cafeína quando está em público. Vai acabar levantando suspeitas. – Alex comentou, com um tom de advertência. – Outro dia, ouvi Dominic questionando o fato de você tomar tanto café.
Allan ergueu os olhos, sua expressão séria.
— Você sabe por que prefiro me manter acordado.
— Sei. Mas os outros não. – Alex inclinou-se para falar mais baixo. – Se quiser manter nosso disfarce, precisa ser mais discreto.
Allan fez uma careta, impaciente.
— Não se preocupe comigo, Alex. Eu não sou você. Caso alguém questione, sei exatamente o que responder.
— Responder ou enrolar?
Allan arqueou uma sobrancelha.
— Desculpe, irmão, mas esse é o seu talento.
Alex lançou-lhe um olhar de puro desdém antes de se recostar na poltrona. No fundo, sabia que Allan tinha razão. Ele sempre soube manter sua vida pessoal cercada de mistério, deixando os outros no escuro. Mesmo trabalhando ao lado dele todos os dias, Alex sabia que ainda havia muito sobre Allan que permanecia oculto… e talvez fosse melhor assim.
Alex pegou a ampola vazia do remédio que Allan havia acabado de aplicar em seu braço, girando-a entre os dedos enquanto observava o líquido remanescente. Curioso, decidiu ler a bula. Talvez até valesse a pena conseguir mais daquele medicamento.
Mas, assim que seus olhos percorreram as minúsculas letras impressas no papel, a cor sumiu de seu rosto.
— Nossa, Alex, você ficou pálido de repente. – Allan comentou, erguendo uma sobrancelha.
— Aquela maldita trapaceira! – Alex grunhiu, olhando para o irmão com indignação. – Você leu essa bula?! Isso aqui é um remédio para cavalos!
Allan soltou uma risada, claramente se divertindo com a reação exagerada de Alex.
— Talvez Ashley tenha te confundido com um cavalo… Ou quem sabe tenha te visto relinchar algumas vezes. – Provocou, dando um gole no café. – Convenhamos, você faz isso muito bem.
— Isso não tem graça, Allan! – Alex explodiu, indignado. – Eu poderia ter me intoxicado com esse troço!
— Ah, para com isso, Alex. – Allan revirou os olhos. – Claro que li a bula antes de aplicar. É um anti-inflamatório potente, com efeito analgésico imediato. Eu mesmo já usei no Black Night. Se administrado na dose certa, funciona em humanos sem problemas.
Ele fez uma breve pausa, bebendo mais um gole de café antes de lançar um olhar divertido para o irmão.
— No fim das contas, talvez você devesse agradecer à Ashley. Afinal, ela se preocupou em curar sua ressaca… que, sejamos sinceros, foi totalmente culpa sua.
Alex abriu a boca para retrucar, mas congelou de repente. Seu olhar fixou-se na porta da cafeteria, e toda a sua irritação deu lugar a um silêncio tenso.
Allan percebeu a súbita tensão do irmão.
— Alex? O que foi? – perguntou, franzindo a testa.
Alex não respondeu de imediato. Seu olhar continuava fixo na entrada da cafeteria, a expressão tomada pela incredulidade.
— Isso não pode estar acontecendo… – ele murmurou, quase sem voz. – Diga que é uma miragem!
Intrigado, Allan seguiu o olhar do irmão até a porta. Assim que viu do que se tratava, seu sorriso desapareceu.
— Ah, não…
Ambos ficaram imóveis, como se tivessem acabado de testemunhar um desastre iminente.
Ali, parada diante do vidro da entrada, estava uma mulher de longos cabelos negros e um sorriso presunçoso. Seus olhos, ocultos atrás de óculos escuros, estavam fixos em Alex, cheios de uma diversão calculada. Com a leveza de um felino prestes a dar o bote, ela entrou no café, caminhando na direção deles.
Parou diante da mesa e, com um gesto lento e provocativo, retirou os óculos, revelando um olhar afiado.
— Olá, príncipe… – seu sorriso se alargou em pura malícia. – Quanto tempo!
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Atualizado até capítulo 40
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