Ashley congelou ao ver Alex diante dela. O choque percorreu seu corpo como um raio. Não esperava encontrá-lo tão cedo, não depois do espetáculo da noite anterior. Pelos seus cálculos, ele deveria estar dormindo até o fim do dia, o que lhe daria tempo de sobra para circular pela cidade sem o risco de esbarrar com ele.
— Então é aqui que você se esconde, pequena trapaceira? – provocou Alex, a voz carregada de deboche.
O comentário a irritou, mas Ashley se recusou a lhe dar o prazer de ver sua compostura vacilar.
— Para começo de conversa, eu não estou escondida. – rebateu, sarcástica, acomodando-se novamente. – Este é um lugar público, caso você não tenha notado. Além disso, não vejo motivo para me esconder. Até onde sei, não sou nenhuma criminosa.
Ela sabia que era apenas uma questão de tempo até Alex descobrir que trapaceara para vencer a aposta. E quando isso acontecesse, ele a atormentaria sem piedade, arrancando uma confissão e, sem dúvidas, tramando algum tipo de vingança criativa.
Alex sorriu, a ironia cintilando em seu olhar.
— Tenho minhas dúvidas sobre essa última parte. – retrucou, a voz afiada como uma lâmina.
Ashley cruzou os braços e o encarou com desdém antes de simplesmente ignorá-lo. Ele estava tentando provocá-la, jogar com seus nervos, mas não seria tão fácil assim. Voltou a se inclinar sobre a planta das lojas, focando novamente nas marcações da rede elétrica. Precisava avaliar os estragos da tempestade e planejar os reparos.
— Não vai mesmo me contar como trapaceou ontem à noite, vai? – Alex perguntou, inclinando-se sobre a mesa, os cotovelos apoiados. – Porque sei que você trapaceou.
— Alguém já te disse que você é um péssimo perdedor? – Ashley suspirou, exasperada. – E um chato do caralho!
Alex arqueou as sobrancelhas, surpreso com a ousadia.
— Nossa, que boca suja a sua!
Ashley riu, indiferente, dando de ombros.
— Você ainda não viu nada.
Ele a observou com atenção, estudando cada nuance de sua expressão. Ashley sustentou o olhar, desafiadora, até que decidiu voltar ao trabalho. Alex detestava ser ignorado, mas, por algum motivo, parecia se divertir com o desafio. Para ele, era um jogo. E Alex adorava jogar.
— Eis as minhas teorias… – começou ele, levantando a mão para chamar Lena, que trabalhava atrás do balcão. – Ou você cuspiu aquela bebida quando eu me distraí, ou é um extraterrestre disfarçado.
Ele fez uma pausa, esperando a reação dela, antes de concluir com um sorriso irônico:
— Sinceramente, aposto na primeira opção, mas não descartaria a segunda. Afinal, você sempre foi… peculiar.
O sangue de Ashley ferveu ao ouvir a palavra "peculiar". Por anos, esse rótulo a perseguiu: "esquisita", "estranha", versões disfarçadas de um mesmo desprezo. E, claro, Alex sempre liderou o coro das zombarias, especialmente no colégio, quando ela era apenas uma garota introspectiva e ele, o garoto mais popular.
Mas isso ficou no passado.
Ela respirou fundo, controlando a raiva que ameaçava transbordar. Então um pensamento lhe ocorreu: Alex ainda a subestimava.
E isso era algo que ela poderia usar a seu favor.
Ashley inclinou-se ligeiramente na cadeira, mantendo os olhos fixos na planta das lojas. A raiva ainda fervilhava sob a superfície, mas ela sabia que reagir impulsivamente era exatamente o que Alex queria.
— Interessante, Alex. – Sua voz saiu fria e calculada. – O que me impressiona é o tempo e a energia que você desperdiça pensando em mim. Quase lisonjeiro.
Ele soltou uma risada baixa, carregada de sarcasmo.
— Não se ache tanto, Ashley. Só estou curioso. Admito que trapacear para ganhar de mim exige… criatividade.
Ashley ergueu o olhar, os olhos faiscando entre o desafio e a exasperação.
— Curioso? Não me faça rir. Você só está irritado porque, pela primeira vez, perdeu o controle.
Alex bufou, recostando-se na cadeira como se a provocação o divertisse.
— Perder não é uma palavra que faz parte do meu vocabulário.
— Essa é a principal diferença entre nós dois. – A voz dela tornou-se amarga. – Eu aprendi a perder.
As palavras de Ashley atingiram Alex como um golpe. Ele enrijeceu por um instante, sentindo o peso do que havia dito. Conhecia a história dela. A cidade inteira conhecia. Os anos difíceis convivendo com pais controladores e irmãos cruéis, até o dia em que ela abandonou o conforto da casa da família para viver com a tia. E, apesar de tudo, ela ainda estava ali: forte, resiliente, inquebrável.
— Ashley, eu…
— Poupe seu fôlego. – Ela o cortou antes que ele pudesse continuar. – Você disse exatamente o que pensa.
Ela o encarou, os olhos firmes, mas com um brilho que ele reconheceu como dor.
— Mas quer saber? Não se preocupe. Já estou acostumada. Passei a vida lidando com pessoas como você. Gente que confunde arrogância com força, que acha que está acima de tudo e de todos.
Alex abriu a boca, mas não teve chance de responder.
— O que você não entende… – continuou ela, sua voz afiada como uma lâmina – é que tudo isso só me fortaleceu. Enquanto você está preso nesse mundinho ridículo, tentando provar sua superioridade, eu aprendi a enfrentar. E, sinceramente, não tenho tempo para lidar com suas inseguranças disfarçadas de sarcasmo.
Ela recolheu os papéis, apontando para a planta sobre a mesa.
— Agora, se não se importa, vou voltar ao meu trabalho. Diferente de você, tenho prioridades de verdade.
E, com isso, se afastou, os saltos ecoando pelo chão da cafeteria.
Alex ficou imóvel, acompanhando-a com o olhar até que desaparecesse pela porta. Sentia a culpa latejando com sua cabeça. Ele suspirou, passando a mão pelo rosto.
Droga.
Quando desviou o olhar para a mesa, algo chamou sua atenção: um molho de chaves esquecido em um canto. Pegou-o, girando o chaveiro entre os dedos. Era uma pequena Fender Stratocaster, já desgastada pelo tempo.
— Só você para carregar tantas chaves… – murmurou, observando o objeto. – Aposto que algumas delas abrem as portas do inferno.
Por mais irritado que estivesse com Ashley, sabia que tinha exagerado. Guardou o chaveiro no bolso, decidindo que o devolveria depois. Talvez aproveitasse para… se desculpar.
Antes que pudesse aprofundar-se demais no pensamento, Lena surgiu, colocando uma caneca fumegante e alguns bolinhos diante dele.
— Um agrado da casa.
Alex balançou a cabeça e empurrou os bolinhos de volta para ela.
— Sem chance. Só o café, por favor.
Lena ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— Recusando comida? Isso não é típico de você.
— Meu estômago está uma bagunça. – Alex fez uma careta antes de soltar um sorriso torto. – Ressaca.
Lena riu, recolhendo os bolinhos.
— Bem feito. Quem manda beber tanto? Só tenta não se matar, ok?
— Não posso prometer nada! – Ele piscou para ela, divertido.
Lena se afastou, deixando Alex sozinho novamente. Ele levou a caneca aos lábios, deixando o café quente deslizar pela garganta, aliviando parte da tensão. Suspirou, mas a dor de cabeça persistia, pulsando no ritmo incômodo do próprio coração.
Instintivamente, sua mão foi ao bolso da camisa, onde seus dedos tocaram o pequeno frasco que Ashley lhe deixara. Retirou-o, girando-o entre os dedos enquanto refletia sobre a mensagem que Dominic havia deixado. Mesmo que Ashley tivesse trapaceado para ganhar a aposta, ainda assim se preocupou com ele no dia seguinte.
O pensamento apenas aumentou a culpa que pesava sobre seus ombros. As palavras que despejara sobre ela minutos antes voltaram como um soco no estômago.
Com um suspiro, Alex guardou o frasco e pegou o telefone. Não conseguiria chegar ao haras sozinho, sentia-se péssimo.
Digitou rapidamente para Allan, um sorriso de frustração brincando em seus lábios.
"Me encontre na cafeteria. Preciso de ajuda para chegar ao haras. Não estou me sentindo bem.
PS.: Traga álcool, algodão e algo que sirva como torniquete."
Colocou o celular de lado e recostou-se mais uma vez, os olhos recaindo sobre o chaveiro esquecido no bolso. Será que Ashley já tinha notado a falta dele?
Alex pegou novamente o chaveiro e girou entre os dedos, o pequeno formato da Fender Stratocaster refletindo a luz suave da cafeteria.
Se conhecia Ashley, e ele conhecia, ela já devia estar revirando a bolsa, xingando a si mesma por esquecer onde colocou as chaves. Talvez até estivesse cogitando voltar ali, irritada, mas fingindo que não se importava.
Ele soltou uma risada baixa.
Seria divertido ver sua reação ao perceber que ele as tinha. Mas, acima disso, era uma oportunidade. Uma chance de se desculpar sem precisar admitir completamente que estava errado.
Alguns minutos mais tarde, a porta da cafeteria se abriu, e Alex ergueu os olhos, esperando ver Ashley.
Mas não era ela.
Allan entrou com sua expressão impassível de sempre, analisando Alex por um instante antes de soltar um suspiro exagerado.
— Foi aqui que solicitaram a presença de um enfermeiro?
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Atualizado até capítulo 40
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