A festa havia sido um espetáculo. A mansão dos Montenegro parecia ter saído diretamente de um conto de fadas, emanando uma aura de encanto e requinte. Lustres de cristal pendiam do teto, refletindo a luz suave que iluminava os tecidos finos e os arranjos de flores brancas e douradas, como se cada detalhe fosse desenhado por mãos divinas. O bolo de cinco andares era uma obra-prima que desafiava a gravidade e o buffet, repleto de pratos elaborados, prometia delícias para os paladares mais exigentes.
Os convidados formavam um verdadeiro desfile da alta sociedade: políticos com sorrisos calculados, empresários ostentando poder, e aquelas figuras imponentes que sempre pareciam estar em destaque nas revistas de fofoca. Ao meu redor, meus parentes permaneciam um pouco deslocados, como peixes fora d'água, mas sua presença era um alívio reconfortante em meio à opulência que me sufocava. Minhas amigas do hospital e da faculdade, com suas risadas sinceras e semblantes acolhedores, traziam um pouco de normalidade que eu tanto precisava.
Entre todos os rostos conhecidos, Francine e sua mãe chegaram como se fossem as protagonistas da noite, atraindo olhares admirados. Dona Ester, sempre atenta e astuta, não deixava passar nada. Dois seguranças, discretos mas firmes, acompanhavam cada passo das duas, prontos para intervir a qualquer sinal de confusão.
Lucas e eu éramos o centro das atenções, recebendo felicitações que pareciam flutuar no ar. "Que casal lindo!", diziam, com sorrisos amplos. "Que vocês sejam muito felizes!" Eu retribuía com um sorriso educado, mas vazio, como um copo de vidro sem conteúdo. Lucas também parecia um pouco perdido, sua expressão mascarando o desconforto que pulsava sob a superfície. Em um momento, ele tentou segurar minha mão, um gesto que deveria ser reconfortante, mas que senti como uma correnteza me puxando para longe.
"Não precisa, Lucas", murmurei, me afastando levemente. "Estamos apenas cumprindo um protocolo, uma exigência da sua avó e o acordo pedido por você." Suas mãos hesitaram antes de se recolherem, e um suspiro exausto escapou de seus lábios. Minhas palavras deixaram ele sem graça e sem reação.
Busquei refúgio entre minhas amigas, tentando mergulhar em suas conversas animadas, enquanto Lucas se juntava a seus amigos. Mas, em um breve momento, não pude evitar observar seu riso, tão raro nos últimos tempos. Havia algo genuíno na forma como seus olhos brilhavam, mas logo percebi que essa luz também era um lembrete do abismo entre nós. Eu gostaria que fosse diferente, que pelo menos meu amigo " Lucas" estivesse comigo.
"Lucas parecia despreocupado com o grupo, mas havia um peso nos seus ombros, e ele evitava olhar para mim", pensei, enquanto me esforçava para manter a postura. Eu me sentia como uma peça de um quebra-cabeça que já não se encaixava. A dança dos noivos foi inevitável, Dona Ester veio sorridente para nos levar até o centro do salão, ricamente decorado. Enquanto eu dançava com Lucas, ele parecia confortável, mas eu sentia como se estivéssemos separados por um muro invisível. Meu coração apertava, e a respiração se tornava um esforço. Olhava para qualquer ponto da sala, exceto para ele.
Depois da dança, cumprimentei as famílias apressadamente e pedi licença, alegando uma necessidade urgente de ir ao banheiro. Mas não consegui escapar de Francine, que me seguiu como uma sombra, seus comentários venenosos cortando a atmosfera leve.
"Você realmente acha que essa encenação vai durar?" ela provocou, um sorriso malicioso nos lábios. "Você pode fingir o quanto quiser, mas todos sabem que Lucas é meu."
Minhas mãos se fecharam em punhos, e respirei fundo, tentando manter a calma. "Com licença, Francine", murmurei, tentando sair, mas ela segurou meu braço com força. Em um movimento puxei o meu braço, e o movimento foi brusco, Francine perdeu o equilíbrio e caiu no chão.
A segurança, designada por Dona Ester, interveio de imediato, sua voz firme ecoando no salão. "Levante-se e saia agora."
Francine tentou argumentar, mas foi interrompida. "Ou você sai por conta própria, ou eu te tiro à força."
Sem escolha, Francine deixou a festa, lançando-me um olhar carregado de ódio, suas intenções maliciosas, claro como água.
Retornei ao salão, com o coração acelerado, e procurei minha mãe. "Não me sinto bem", disse-lhe, e ela imediatamente se preocupou.
"Você está pálida, Lívia. Como vai viajar assim?", perguntou Dona Ester, seus olhos cheios de preocupação.
"Eu realmente não posso, Dona Ester", expliquei, tentando manter a voz firme. "Minha prioridade nesse momento é a faculdade. Mas prometo que, assim que me formar, nós viajaremos."
Ela suspirou, relutante, mas compreendeu, e aquilo me deu uma sensação estranha de alívio e culpa.
Quando a festa enfim chegou ao fim e retornamos para a mansão, um silêncio ensurdecedor dominava o ambiente. Lucas e eu seguimos caminhos opostos, os nossos mundos tão próximos e tão distantes. Ele hesitou à porta do seu quarto, chamando-me com a voz hesitante.
"Lívia..." Sua voz parecia carregar um peso que eu não conseguia identificar.
"Sobre a viagem..." ele começou, mas eu interrompi a urgência de meus pensamentos superando a vontade de ouvir suas palavras.
"Você deveria ir, Lucas. Divirta-se." Sem esperar pela resposta, entrei no meu quarto e tranquei a porta.
Assim que fiquei sozinha, o peso de tudo desabou sobre mim. As lágrimas, contidas durante toda a noite, finalmente escorreram pelo meu rosto. Tirei o vestido, agora pesado como uma armadura, e desfiz o penteado, sentindo-me despida de todas as ilusões. No chuveiro quente, a água escorria, lavando as lágrimas que escorriam dos meus olhos, enquanto tentava apagar a dor que pulsava dentro de mim, como uma ferida aberta.
No quarto no começo do corredor, Lucas também se sentia perdido. Sentado à beira da cama, olhou para a porta do quarto vazio e depois abriu e olhou para o corredor silencioso.
Frustrado, murmurou para si mesmo. "Ela nunca reclamou, nunca exigiu nada. Então por que parece tão distante? Onde foi que eu errei? Ela não aceitou a viagem."
A noite avançava, mas o sono não vinha para nenhum de nós. Eu encarava o teto, com perguntas sem respostas se juntando na mente, enquanto Lucas, em sua solidão, lutava contra os próprios demônios internos. Dois amigos, agora estranhos, separados por uma barreira invisível, perdidos em seus próprios pensamentos, tentando desesperadamente entender como chegaram àquele ponto.
A ausência de promessas e a presença dolorosa da realidade nos uniam em um silêncio que gritava verdades não ditas. Queríamos ser felizes, mas o que nos impedia? A festa havia terminado, mas a batalha estava longe de acabar.
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Atualizado até capítulo 49
Comments
Nana
tá difícil....
2025-03-09
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Djanira Ribeiro
Autora sei que é uma relação difícil a deles, pois ambos foram prejudicados por uma armação cruel, e ele completamente manipulado por uma mulher invejosa, cruel e sem caráter, mas na minha opinião falta diálogo entre eles, eles precisam conversar e tentar uma solução para tudo isso.
2024-12-17
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