Quando abri os olhos naquela manhã, eu senti um cheiro de café coado, queria eu tomar, um café fresco e me despertei mais rápido do que o despertador poderia me despertar. Não era meu cheiro habitual de café comprado à pressa no hospital, mas o meu próprio feito em casa, naquela cozinha, minha boca salivou. Levantei-me rápido para preparar o café da manhã. Eu amo café da manhã. Queria criar uma rotina que fosse minha, naquela casa que ainda me parecia estranha.
Vesti uma roupa simples, mas elegante, e prendi o cabelo em um coque baixo. Minha intenção não era impressionar, mas eu sabia que a postura dizia muito sobre quem eu era.
Enquanto cortava frutas e colocava em uma travessa, ouvi passos descendo as escadas. Era Lucas. Ele surgiu na porta da cozinha, parecendo confuso e curioso. Talvez fosse o aroma do café fresco e o som da geladeira abrindo, enquanto guardava as frutas picadas para resfriar um pouco, logo virei e fui virando as torradas.
“Bom dia,” disse ele, sem muita emoção, mas com um olhar que parecia me estudar.
“Bom dia", respondi, sem me virar. Comecei a espremer laranjas para o suco enquanto ele se aproximava da mesa já posta. Bacon dourado, ovos mexidos, coloquei as torradas crocantes e um bolo que enchia o ambiente com um perfume doce de baunilha e canela que eu havia feito.
Lucas se serviu, pegou um pedaço do bolo e deu a primeira mordida. Seus olhos se arregalaram por um breve instante.
“Você fez isso?” ele perguntou, apontando para o prato, como se fosse algo impossível.
“Sim, e o bolo também. o café da manhã, é a refeição que mais gosto, adoro um café fresco coado na hora.” respondi com naturalidade, tirando da geladeira a travessa de frutas frescas que eu havia picado um momento antes.
Ele ficou em silêncio por um tempo, observando enquanto eu colocava a travessa na mesa, ao lado de uma vasilha de uvas. Em seguida, servi meu café. Lucas pegou uma xícara e serviu tomando um longo gole, assentindo para si mesmo, como se fosse impossível negar que estava gostando. Não me importei, apesar de estar amando ele tomar café comigo.
Enquanto comíamos, senti o olhar dele sobre mim. Era quase palpável. Quando finalmente levantei os olhos, ele desviou os dele, mas não sem antes franzir o cenho.
“Você come bastante,” ele comentou de repente, como se não conseguisse conter a curiosidade.
“Eu me alimento muito bem, sempre fui assim. Trabalho, estudo e ainda tenho que aguentar as surpresas da vida,” retruquei com um meio sorriso, deixando claro que minha energia precisava ser sustentada. Ele ficou em silêncio novamente, parecendo intrigado.
Era como se Lucas estivesse me vendo pela primeira vez. A mulher que ele achava conhecer – ou que Francine havia pintado para ele – não era a mesma que estava ali, comendo frutas e ovos mexidos, torradas e bolo com a tranquilidade de quem não tinha nada para fazer, mas eu tinha um longo dia pela frente.
À noite, seguimos para um jantar na casa da família de Lucas. Eu sabia que precisaria manter uma postura firme e educada. Não estava ali para agradar a ninguém, mas tampouco queria passar a impressão errada eu gostava muito da família de Lucas, mas eles não sabiam o que tinham feito comigo nos obrigando a casar.
Ao chegarmos, fomos recebidos com sorrisos calorosos, embora eu soubesse que muitos aqueles olhares estavam me analisando e analisando o Lucas também. Dona Ester, sempre impecável, veio me cumprimentar.
“Lívia, querida, seja bem-vinda minha neta,” disse ela, olhando para mim dos pés à cabeça, pois estava com roupa branca de trabalho.
“Obrigada, Dona Ester. É um prazer estar aqui,” respondi, com um sorriso educado.
Durante o jantar, o pai de Lucas começou a falar sobre os planos para a empresa, discutindo a possibilidade de expandir os negócios para outras cidades. Eu, que geralmente preferia escutar nessas ocasiões, sem querer fiz um comentário distraído enquanto comia.
“Acho que a expansão é uma excelente ideia, mas será necessário um líder forte e decidido para gerenciar. Alguém que compreenda tanto os valores da empresa quanto as demandas do mercado,” comentei, com a voz calma mas firme.
O pai de Lucas olhou para mim com surpresa. “Você entende de negócios, Lívia?”
“Não sou especialista, mas acredito que, com a liderança certa, qualquer desafio pode ser superado,” respondi, lançando um olhar sutil para Lucas.
Lucas pareceu desconcertado, mas não de uma forma ruim. Ele sorriu de canto, talvez reconhecendo que eu estava, de certa forma, o apoiando. Isso fez com que seu pai começasse a considerar seriamente a ideia de passar a presidência da empresa para ele.
Depois do jantar, enquanto tomávamos café na sala, Dona Ester e a mãe de Lucas trouxeram à tona o assunto do casamento religioso.
“Não podemos deixar esse casamento apenas no civil,” disse Dona Ester, olhando diretamente para Lucas. “Nossa família sempre foi tradicional e todos se casam na igreja. E, francamente, é o que todos nós esperamos de vocês dois.”
Eu continuei calada, segurando minha xícara de café. Não era minha vontade discutir sobre casamento naquele momento, especialmente porque sabia que Lucas já havia deixado claro como iria lidar com tudo.
“Bem, isso é algo que precisa ser discutido com calma,” ele respondeu, lançando um olhar rápido na minha direção, como se esperasse alguma reação de minha parte. Eu não o encarei, mas resolvi e disse a Dona Ester que não queria realizar casamento religioso naquele momento, deixando ela séria me observando.
Eu mantive a mesma postura tranquila, sem dar sinais de concordância ou discordância. Meu silêncio e depois meu comentário parecia ter incomodado, mas eu não tinha intenção de ceder à pressão da família dele naquele instante.
“Lívia, querida, você realmente pensa assim?” perguntou a mãe de Lucas, tentando me entender. É o sonho de toda mulher Lívia, vestido, festa, lua de mel...
Olhei para ela com um sorriso educado. “Acho que Lucas tem razão. Precisamos pensar com calma.”Já casamos perante a lei e já é o suficiente.
Era evidente que minha falta de entusiasmo deixou Lucas desconfortável. Ele esperava outra reação minha, tipo pular de alegria, dizer que estava realizando um sonho, falar como sonhava com meu casamento pomposo e caro, algo mais emotivo talvez, mas não tinha nada disso para oferecer. Eu não estava ali para cumprir expectativas irreais.
De volta à casa, o clima entre nós dois era silencioso, mas não hostil. Lucas parecia perdido em seus pensamentos, e eu estava exausta demais para tentar entender o que passava pela cabeça dele. Subi as escadas para me trocar, enquanto ele permaneceu na sala, folheando algum documento que trouxe consigo.
Depois de me trocar, fui até a cozinha preparar algo leve para comer. Estava faminta novamente, mas dessa vez o silêncio da casa me fazia sentir um pouco mais à vontade. Liguei o rádio baixo e comecei a cozinhar, como tinha feito pela manhã.
Mais uma vez, Lucas apareceu na porta, como se fosse atraído pelo som ou pelo cheiro. Ele ficou parado, observando, mas dessa vez eu não o ignorei completamente.
“Quer alguma coisa?” perguntei, olhando brevemente para ele.
“Não, só... você gosta mesmo de cozinhar, né?” ele disse, parecendo mais curioso do que antes.
“Gosto. É relaxante. E, pelo visto, você gosta de aparecer na cozinha quando eu estou aqui,” respondi, sem deixar de mexer na panela.
Ele riu baixo, balançando a cabeça. “Talvez. Ou talvez seja só o cheiro que me atrai.”
Sorri de canto, mas não disse mais nada. Ele continuou ali por alguns minutos, observando enquanto eu terminava de preparar a comida. Era uma nova rotina, estranha e ainda cheia de incertezas, mas que começava a criar um tipo de convivência entre nós. Mesmo que forçada e constrangida. Comemos em silêncio. O jantar na casa dos pais de Lucas foi tenso e eu não comi direito e estava com fome. E pelo visto ele também.
Enquanto subia para o quarto mais tarde, percebi que, apesar de todas as diferenças, talvez houvesse uma chance de encontrarmos algo em comum. Mesmo que isso significasse começar pelo café da manhã ou por um jantar simples na cozinha. Eu tinha esperanças, afinal eu amo Lucas.
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Atualizado até capítulo 49
Comments
Anonymous
Tbm acho
2025-02-24
0
Maria Luísa de Almeida franca Almeida franca
que mulher idiota misericórdia
2025-02-23
1