Desde que voltei a conviver com Lucas, um turbilhão de emoções tomou conta de mim. Cada encontro, cada olhar trocado, era como um choque elétrico que percorria meu corpo. Eu sempre o observava de longe, em silêncio, enquanto ele andava ao lado de Francine, com aquele olhar apaixonado que eu já conhecia bem. Ela sempre tão confiante, tão calculista e dominadora. Eu conhecia minha prima melhor do que ninguém, e quanto mais via o jeito como ela manipulava Lucas, mais meu coração se apertava.
Estava sentada dentro do meu carro próxima à entrada da faculdade, folheando distraidamente um livro de anatomia. As páginas estavam cravadas de anotações e sublinhados, mas meus olhos não conseguiam se concentrar nas palavras. Meu olhar estava fixo neles. Francine tinha um sorriso largo nos lábios, mas eu sabia que aquilo era apenas uma fachada; um disfarce bem ensaiado para ocultar suas verdadeiras intenções. Lucas carregava uma expressão que eu reconhecia: o olhar apaixonado, mesmo cansado, ele disfarçava com um sorriso.
— Lucas, querido, eu te disse que esse relógio não combina com você — ela disse, puxando o pulso dele com uma delicadeza que parecia mais possessiva do que carinhosa. — Vamos trocar amanhã. Posso escolher algo mais sofisticado.
Lucas riu sem dar muita importância, mas parecia realmente achar graça.
— Francine, é só um relógio. Não precisa de tanto alarde. Eu gosto dele; foi um presente da minha avó.
— Claro que precisa! Você é um Montenegro; precisa estar sempre impecável e esse relógio parece um de banca de camelô! — Ela cruzou os braços e lançou aquele olhar que eu conhecia bem, o mesmo que usava quando queria tudo ao seu modo.
Lucas suspirou e passou a mão pelos cabelos sem se importar com suas palavras. Enquanto eu os observava, um misto de tristeza e admiração me dominava. Desde o ensino médio, eu guardava sentimentos por Lucas. Ele sempre foi o tipo de pessoa que iluminava qualquer ambiente. Popular, gentil e com aquele sorriso que parecia arrancar suspiros de todas as garotas da escola. Mas para mim, ele era mais do que apenas bonito; ele era doce, atencioso e genuíno. Nunca percebeu o impacto que causava nas pessoas.
Quando estávamos no colégio, eu costumava me esconder nos cantos, tentando não chamar atenção. Minha timidez me fazia evitar qualquer situação em que pudesse cruzar seu caminho. Ainda assim, bastava vê-lo passando pelos corredores para que meu coração acelerasse como se estivesse prestes a saltar do peito.
Agora, anos depois, ele estava novamente tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. A cada dia que o via e a cada conversa casual na faculdade, meu amor por ele crescia silenciosamente como uma chama teimosa que se recusa a apagar.
Francine, no entanto, era uma peça do quebra-cabeça da qual eu não sabia como lidar. Ela era bonita; não podia negar isso. Com seu cabelo impecavelmente cacheado e seus olhos vivos como estrelas em uma noite sem nuvens, ela exala confiança em cada passo que dava. Mas por trás daquela fachada brilhante havia um olhar sombrio e manipulador.
Nos dias seguintes, comecei a perceber os padrões nas interações deles. Francine era mestre em manipular Lucas; transformava situações simples em grandes dramas apenas para obter o que queria e mantê-lo preso a ela.
— Lucas! Por que você não atendeu minhas ligações ontem? — ouvi sua voz mais uma vez perto do estacionamento.
— Eu estava com minha avó, Francine. Você sabe como ela gosta de sair comigo e conversar — Lucas respondeu pacientemente.
— Mas custava atender e dizer isso? Fiquei preocupada! — Ela segurou o braço dele de forma teatral como se quisesse garantir a atenção dos outros ao redor.
— Eu já disse que estava com a minha avó — respondeu ele em um tom visivelmente incomodado pela altura da voz dela.
Era assim que ela agia: jogava pequenas sementes de culpa e observava enquanto elas cresciam até fazer efeito desejado sobre ele.
Eu não podia fazer nada além de assistir a tudo isso acontecer diante dos meus olhos. Quem era eu para interferir? Francine era parte da minha família; Lucas... bem, elevera apaixonado por ela mesmo quando a insatisfação transparecia em seu rosto cansado; ainda assim ele a abraçava carinhosamente pedindo calma ou fazendo-a rir com alguma piada sem graça.
Às vezes me pegava imaginando como seria se eu tivesse coragem suficiente para dizer tudo o que sentia por ele. Mas rapidamente afastei esses pensamentos da minha mente atormentada; ele estava com Francine e eu não tinha o direito de me colocar entre eles.
Certa vez, enquanto revisava algumas anotações na biblioteca silenciosa da faculdade, ouvi passos se aproximando. Quando levantei os olhos do livro amarelado pela passagem do tempo e pela pressão dos meus estudos intensos (quem diria que medicina poderia ser tão densa?), lá estava ele: Lucas! Com aquele sorriso radiante capaz de iluminar até os dias mais tristes da minha vida.
— Está estudando muito, hein? — Ele brincou ao colocar um livro ao meu lado na mesa empoeirada por folhas soltas.
— Medicina não dá trégua — respondi tentando parecer calma mesmo com meu coração batendo acelerado como tambores festivos nas festividades juninas.
— Sempre soube que você se daria muito bem no que escolhesse fazer — disse isso com uma sinceridade tão pura que quase me desarmou completamente.
Senti minhas bochechas queimarem como se tivessem sido expostas ao sol escaldante; desviei rapidamente o olhar para as páginas do livro à frente como se ali estivesse toda a resposta para as perguntas silenciosas na minha mente agitada: “Por quê? Por quê você não nota?”.
Ele se sentou ao meu lado; por um breve momento foi o suficiente para sentir novamente seu perfume amadeirado misturado à leve brisa daquele dia ensolarado; sua presença emanando calor como uma fogueira acolhedora nos meses frios do inverno.
Mesmo com esses pequenos momentos compartilhados entre nós dois – risadas contidas sobre as dificuldades acadêmicas ou as piadas bobas sobre professores – eu sabia muito bem qual era a realidade: havia uma barreira intransponível entre nós dois. Lucas parecia confortável ao meu lado como sempre fora desde aqueles tempos inocentes na escola primária onde tudo era mais simples; mas havia algo dentro dele ainda preso ao relacionamento complicado com Francine mesmo quando essa relação demonstrava sinais claros de desgaste emocional nas expressões cansadas dele.
E eu? Eu continuaria ali observando em silêncio enquanto tentaria encontrar força suficiente para sufocar meus próprios sentimentos em nome da amizade familiar e do respeito à sua escolha amorosa. Mas a cada olhar perdido entre nós dois ou cada sorriso compartilhado durante aquelas horas preciosas juntos era como se o destino estivesse brincando comigo cruelmente; me dizendo em voz baixa mas insistente: Haverá algo maior reservado para vocês dois – mesmo quando eu ainda não conseguia entender essa mensagem confusa.
Amar alguém em segredo é um fardo pesado, pensei certa noite enquanto olhava pela janela do meu quarto iluminada pela luz suave da lua cheia refletindo na superfície tranquila do lago próximo à nossa casa – É uma mistura turbulenta de dor e esperança: querer se aproximar mas temer que isso possa destruir tudo.
Mas mesmo assim decidi manter esse amor guardado no fundo do meu coração angustiado sem nunca deixar transparecer aos olhos curiosos daqueles ao nosso redor – talvez o destino estivesse apenas esperando pacientemente por seu momento certo para revelar todos os segredos ocultos sob camadas densas de incertezas emocionais… E até lá continuaria admirando Lucas silenciosamente; carregando comigo todo amor intenso desde aqueles tempos passados no colégio onde tudo começou…
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Atualizado até capítulo 49
Comments
Fatima Matos
arruma um também assim veremos se ele tem ciúmes
2025-03-07
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