Ao término da aula, Bianca estava me esperando. Ela perguntou se poderíamos conversar.
_ Oi Bianca. É sobre Júlia? Ela está indo bem.
_ Não senhora. É sobre aquele assunto.
_ Bianca eu gostaria de conversar com você, mas eu preciso que o meu marido esteja presente. Ele vem me buscar. Você pode aguardar?
_ Posso. A minha vizinha buscou Júlia e ficará com elas até eu chegar.
Fomos até a sorveteria esperar o Paulo. Ele não demorou. Resolvemos ter a conversa lá mesmo.
_ Bianca, esse é Paulo o meu marido.
_ Prazer senhor Paulo_ ela o olhou timidamente.
_ Não precisa me chamar de senhor. O prazer é meu, Bianca.
_ Bianca, como você está?
_ Fisicamente estou bem. Muito cansada. Mas bem. A senhora conversou com o seu marido?
_ Sim, ela conversou comigo. Você não mudou de ideia?
_ Não. E sem chance de que eu mude de ideia. Eu sou decidida e sei que é o meu jeito de mostrar que amo o bebê. Não posso ficar com ele.
_ E quando as suas irmãs crescerem e não precisarem mais de seus cuidados?
_ Aí vou cuidar da minha vida. Eu sou jovem, mas sinto a juventude ir embora a cada minuto. Eu nunca pude ter um momento só meu. Pode parecer egoísmo. Mas se sou, peço perdão a Deus.
_ Não é egoísmo, Bianca. Você renunciar ao bebê para cuidar de suas irmãs é altruísmo.
_ Bianca, se você tivesse condições financeiras para cuidar das suas irmãs e do bebê, tomaria outra decisão?
_ Não. Eu nunca pude cogitar a ideia de ter filhos. Fui leviana ao me embebedar e confiar no traste do meu namorado. Mas eu nunca pensei em ser mãe.
_ Talvez porque está sobrecarregada acha que não será capaz de cuidar do bebê.
_ Talvez se eu não tivesse sido induzida a fazer sexo, não teria ficado grávida. Não foi a minha primeira vez. Mas eu sempre exigia a camisinha. Mas a bebida me deixou sem reação. E fiquei com ódio do pai dele e consequentemente também do bebê. Não sou capaz de olhar para o bebê e ver o rosto dele nela.
_ Você está disposta a conversar com um advogado?
_ Sim. É só marcar.
Paulo olhou para mim que assenti com a cabeça. Ele ligou para o dr. Humberto e marcou o horário para o dia seguinte.
_ Bianca, o nosso advogado nos espera amanhã. Quer que a busque na sua casa?. Será às 8 horas da manhã.
_ Pode me pegar aqui na porta da escola.
Fomos embora e dessa vez nós dois estávamos ansiosos. No dia seguinte, Paulo chegou ao portão da escola e Bianca estava lá. Seguimos direto para o advogado. Bianca repetiu tudo que nos disse. Não titubeou nenhuma vez.
_ Bianca, você está ciente que ao renunciar ao bebê, assinará a declaração, teremos a audiência com o juiz e depois disso, você não poderá mudar de ideia?
_ Estou ciente de tudo. Podemos ir ao juiz hoje que assino.
_ Preciso de todos os seus documentos. Assim que marcar avisarei.
_ Está bem.
_ Você irá começar a trabalhar depois que o bebê nascer?
_ Sim. Os meus patrões deram esse tempo para que eu arrumasse tudo.
_ Não tem chance desses parentes mudarem de ideia e reivindicarem a guarda do bebê?
_ Não. Eles são parentes distantes, mas não são consanguíneos. São conhecidos do meu pai. E já foi difícil aceitar as meninas.
_ Você é estudada?
_ Tirei o Ensino Médio. Tem alguma importância isso?
_ Não. É que não tenho costume de conversar com uma jovem que se expressa tão bem.
_ Sempre gostei de estudar. E ficava fascinada com essas palavras difíceis. Procurava o significado.
_ Interessante. Bem por hoje é só. Você escolheu bons pais para o bebê. Paulo e Izabella são pessoas incríveis.
_ Eu sei. Júlia adora a professora. A ideia que o bebê terá como mãe uma professora tão especial me agrada. E podem ficar tranquilos. Nunca mais me verão depois que entregar o bebê.
Os dias seguintes foram horas em cartório para registrar a declaração. Providenciar documentos de todos. O advogado marcou a entrevista de Bianca com a assistente social, que deu o parecer favorável, justificando que Bianca não queria o bebê. Ela repetiu a mesma conversa com juiz na terceira vez. E o juiz mandou esperar a sua decisão.
Eu não quis falar nada com a família . Paulo também achou melhor. Primeiro esperaríamos a decisão do juiz.
O ano terminou. O nível de ansiedade estava nas alturas. Não consegui me conter e comprei muitas coisas de bebê. Como não sabia o sexo, comprei cores neutras. Nesse tempo compartilhava das alegrias da minha cunhada e prima que estavam grávidas. Ambas esperavam menino. Fizemos um chá de bebê para a minha prima. E a minha imaginação corria solta.
Em abril, o juiz nos chamou para dar a sentença.
Paulo, Bianca com uma barriga enorme, que me levou às lágrimas, o advogado e eu esperávamos.
_ Bom dia a todos. Eiupensei muito. Analisei cada perfil. As assistentes investigaram a vida de cada um. Incluindo as declarações delas e as da vara de família que cuidam do pedido do casal na fila da adoção. Eu decidi, pelo bem estar da criança e baseei nas conversas da mãe biológica que interiorizou a concepção como abuso, já que estava sob efeito de álcool e não conseguiu evitar. Se enquadra no caso de estupro presumido. É desejo dela doar o bebê ao casal. Eu dou a sentença favorável à adoção. O bebê sairá da maternidade com a documentação organizada que dará ao casal a permissão de registrar o bebê.
Eu comecei a chorar e Paulo me abraçou.
_ Senhorita Bianca, o que está fazendo não é crme. Está escolhendo pais para um filho que não consegue amar. Contudo espero que não haja mais gravidez indesejada. Eu sei que é responsável e foi uma fatalidade. Sabe que não poderá aproximar da senhora Matos.
_ Eu sei, meritíssimo. Assim que o bebê nascer, irei para outro estado, com as minhas irmãs.
_ Desejo boa sorte a todos. A sessão está encerrada.
Saímos dali como coração acelerado. Humberto nos alertou a não ter mais contato com Bianca e também disse a ela. Ela me abraçou e agradeceu. Pagamos um táxi, depois que Foi alertada a notificar qualquer alteração. Humberto que seria responsável pela documentação e por ir a maternidade buscar o bebê. Dali a três meses o nosso bebê estaria nos nossos braços. Fizemos um almoço para dar a notícia e todos se alegraram. Organizaram um chá de bebê para mim.
O advogado instruiu-me a pedir transferência para outra escola. Eu fiquei um pouco triste, mas obedeci. E no fim adorei pois me colocaram numa turma infantil.
Paulo me fez outra surpresa. Pediu que fechasse os olhos. Quando abri, vi a nossa casa pronta. Linda.
_ Quer entrar, mozão?
_ Claro_ e ele me pegou no colo_ Estava perfeita. Paulo mobiliou a casa inteira com móveis novos.
Ao me levar a um quarto pediu que fechasse os olhos. Era o quarto de nossa filha. Eu chorei de ver o empenho dele em providenciar tudo nos mínimos detalhes
Ele me abraçou e disse que a minha irmã Aurora ajudou muito.
No fim de junho o meu sobrinho nasceu. Lindo e saudável. Thomas. E no começo de julho, no dia 10, recebemos a tão sonhada ligação. Era uma menina. O advogado deu o endereço da maternidade e nos encaminhamos eufóricos.
Eu a recebi nos braços e desabei a chorar. Posso descrever cada detalhe do seu rostinho perfeito. Contei os dedinhos. Uma coisa eu sabia, a minha filha tinha pulmões perfeitos. Chorava freneticamente. Eu beijei a sua cabecinha e a ninei cantando música baixinho. Ela se acalmou um pouco.
Passamos no cartório, registramos a nossa Luiza e o advogado se despediu feliz. Em casa, depois de dar a fórmula, eu estava com ela no colo. Ela com os olhinhos abertos. Eu sabia que não me enxergava. Encostei o rostinho dela na minha bochecha.
_ Será que eu posso pegar a nossa filha?
_ Claro papai. Desculpe. É difícil desgrudar.
Ele a pegou e cheirou a cabecinha dela, depositando um beijo. Colocou-a no berço.
Ficamos adorando aquele pedacinho de gente. Tão pequena e tão poderosa. Tomou conta dos nossos corações. Avisamos a família. A minha mãe e as minhas irmãs foram as primeiras. Todos choramos juntos. Aurora estava emocionada com a sua primeira afilhada. Mais tarde o meu irmão Marco veio conhecer a afilhadinha.
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Atualizado até capítulo 71
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