Bianca interepretou o meu silêncio de forma errada. Ficou vermelha de vergonha.
_ Por favor, me desculpe. Eu não seu de onde tirei a ideia que a senhora, uma mulher tão inteligente, formada iria querer um bebê de uma mulher como eu.
_ Eu...eu...espere Bianca. Não é isso. Você me pegou de surpresa. Não é comum um pedido desse.
_ Eu sei disso. Mas a senhora quer um filho. Eu não tenho condições de ficar com esse bebê.
_ Você cuida de suas irmãs muito bem. Com certeza está preparada.
_ Não estou. Mesmo com a pensão do meu pai, que é razoável, eu não dou conta de trabalhar como trabalhava. Psicologicamente eu não consigo.
_ Bianca, eu sei que não deve ser fácil cuidar de duas crianças pequenas e mais um bebê. E ter que lidar com a dor das suas perdas. Mas é o seu filho. Não é objeto para ser dado.
_ Eu sei. E é porque amo o bebê que estou fazendo isso. Eu recebi uma proposta muito boa de trabalho com casa para morar e um salário bom. Aceitam as minhas irmãs, mas não o bebê.
_ Por que não aceitam o bebê?
_ Porque eu terei que cuidar de uma idosa e ainda uma criança deficiente.
_ Tem certeza que é um bom emprego? E se do nada eles te despedirem? Você ficará sem o filho.
_ Eles são parentes distantes. Teremos um contrato que assegura o bem estar meu e de minhas irmãs.
_ Se eles são parentes, talvez você os convença a aceitar o bebê.
_ Não tem como. A nossa casa é pequena demais. Está precisando de reforma. A defesa Civil está querendo interditar.
_ Bianca, você tem quantos anos?
_ Dezenove. Logo farei vinte. Eu não estou jogando o meu bebê fora. Estou querendo dar a ele o que eu tive. O amor de uma família.
_ Mas o seu bebê tem você e as suas irmãs. Tem família.
_ Ele precisa de mãe e pai. A senhora tem medo que eu me arrependa e venha pegar o bebê depois?
_ Para ser sincera sim. É para evitar isso que meu marido e eu entramos na fila. A adoção legal é irreversível.
_ Eu andei pesquisando, pois quero que saiba de uma coisa. Eu decidi entregar o bebê para a adoção assim que o pai dele morreu. E sei que se eu desistir do poder pátrio, em favor de alguém que eu escolhi, perante o juiz é legal.
_ Eu sei. Eu só não sei se você realmente está pronta para entregar o bebê.
_ Estou. Eu não faço o pré natal porque sei da importância de fazer. Mas não quis saber o sexo. A assistente social me disse tudo o que preciso saber. Não vou criar vínculo nenhum com o bebê.
_ Bianca, eu tenho medo, mas muito medo de você se arrepender e voltar. Como eu ficarei?
_ Então a senhora está pensando em aceitar?
_ É como oferecer alimento a um faminto. Mas é muito mais complexo do que essa comparação.
_ Professora, eu não sou irresponsável e não tenho pretensão de magoar ninguém. Eu estou disposta a dar a declaração perante o juiz.
_ Você está de quantos meses?
_ Estou de quatro. Como sou muito magra, a barriga aparece muito.
_ Eu não posso tomar essa decisão assim. Preciso conversar com o meu marido.
_ É claro. Eu quero que confie em mim. Tenho uma amiga que pode confirmar o meu caráter.
_ Eu não duvido do seu caráter. É mãe. E abdicar de um filho é um ato extremamente difícil.
_ Eu sei. Mas eu não quero que esse bebê seja criado de forma negligente. Porque eu estou no meu limite. Quando a minha mãe ficou grávida de Ana, ela ficou doente. Pressão alta. Eu tinha que cuidar de Júlia, da minha mãe e das tarefas de casa. O meu pai ficou se martirizando por ver a minha mãe daquele jeito. Quando ela morreu, piorou. Até fome eu passei para deixar alimentos para as menores. O meu pai gastava o salário com bebidas. Eu ainda tenho que pagar muitas dívidas dele. Não tenho como ser a mãe que esse bebê merece.
_ Vejo que você é decidida. Eu prometo-lhe que conversarei com o meu marido. E te darei a resposta.
_ Eu já vejo nos seus olhos um brilho diferente. Estou feliz. Júlia mostrou a nós o caminho certo.
Ela se despediu. Eu fiquei atônito na sala e nem ouvi a diretora me chamar.
_ Iza, algum problema?
_Não senhora.
_ O seu marido está esperando você. Até segunda-feira.
Paulo estava encostado na porta do carro, chupando um picolé. Ele olhou maliciosamente para mim e provocativo, lambeu o picolé.
_ Oi professorinha. Quer um picolé?
_ Prefiro um sorvete.
Fomos para a sorveteria em frente a escola. Paulo viu a minha seriedade.
_ Dia ruim, Bella?
_ Não, amor. Eu diria um dia atípico. Aconteceu uma coisa. Mas vamos falar disso depois?
_ Se você prefere_ ele dá aquele sorriso iluminado _ Que tal irmos à uma pizzaria hoje? Depois a gente podia comer a sobremesa num lugar pecaminoso.
_ Adorei a oferta senhor Matos.
_ Então tome logo esse sorvete, senhora Matos.
Eu olhei para ele e percebi a alegria dele. Entendi que ele estava se sentindo um pouco "esquecido ". Senti remorso e jurei que essa noite iria compensá-lo.
Preparei uma surpresa para ele. Será que ele vai gostar?
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 71
Comments
Cláudia Ferreira da Silva
acho que eles vão aceitar.... essa vai ser a precipitação? que curiosidade rsrs
2024-02-24
2