— Como pode? Ela continua dormindo tranquilamente como se não estivesse aqui à força... — Ruel observou Lecina dormir, ela parecia bem tranquila.
O quarto dele era escuro e sombrio, ele se perguntou se isso não a incomodava, mas a tranquilidade que ela passava, fazia ele entender que talvez os gostos dela fossem um pouco parecidos.
— Por que você é esquisita? Seria bem mais bonita se não agisse tão brutalmente! — Ele estendeu a mão para tirar o cabelo do rosto dela.
Lecina reagiu na mesma hora.
— Se acalma, estava tentando tirar seu cabelo do rosto! — Ele estendeu os braços, mostrando que estava falando a verdade.
— Tanto faz, que dia é a merda do casamento? — Ruel se assustou quando ouviu Lecina dizer isso.
— Espera, você vai se casar sem resistência? — Ele não estava acreditando no que ouviu.
— Cara, eu já vi que não consigo sair daqui. Sinceramente, tu acha que eu sou burra? — Ela sempre olhava para Ruel como se ele fosse lesado, afinal para Lecina, aquilo era óbvio.
— Você nem tentou pedir ajuda... — Ainda assim, ele tinha dúvidas sobre ela.
— A quem eu pediria ajuda? Em um castelo cheio de vampiros, onde você mesmo disse que era perigoso já que não somos casados. E também, sei que provavelmente para quebrar essa magia que me impede de sair, levaria tempo. Resumindo, eu só estaria perdendo tempo.
— Mesmo assim, tentar fugir é uma reação normal dos humanos... — Na verdade, é uma reação normal para todos, mas os humanos principalmente.
— Eu estou cansada de fugir, em primeiro lugar, eu não tenho nada... por que eu fugiria se não tenho para onde ir? — Ela se jogou para trás na cama, e ficou olhando para o teto.
— Você não tem família? — A minha pergunta a fez refletir. Senti como se tivesse tocado em um tópico complicado, mas seria bom saber sobre a vida da minha futura esposa.
— Às vezes o destino nos engana a tal ponto, que nos perdemos da realidade, sonhando com um futuro feliz e próspero em uma vida fadada ao sofrimento... — Ela disse de repente, sem responder a minha pergunta.
— Então você foi enganada pelo destino? — Eu fiz o mesmo que ela, e deitei na cama, olhando para o teto.
— Sim. Se eu tive sonhos, já não me lembro deles. Acho que não posso ter o privilégio de ansiar por algo na vida, pois tudo que eu já quis ter, foi destroçado... — As palavras dela foram intensas para mim, eu não conseguia sequer imaginar o que ela tinha passado.
Apesar disso, eu cheguei a pensar em como ela estava vivendo. Provavelmente era sozinha? Eu já não sabia, mas se ela não queria falar sobre sua vida, eu respeitaria isso.
— Eu... passei muitos anos esperando minha marca aparecer. Nesse tempo, muitas pessoas duvidaram da minha autenticidade, duvidaram da minha mãe morta, até mesmo eu duvidei. Pensei: "não sou filho do meu pai?". Culpei minha mãe e me arrependi. — Não sei a razão, mas acabei desabafando para ela. A única pessoa para quem eu contava tudo, era minha madrasta, Úrsula.
— Pelo menos você teve uma mãe, e também um pai, suponho? Você o conheceu? — Ela se virou para a minha direção.
— Minha mãe morreu no parto, e meu pai me criou com a minha madrasta... — Eu não me virei, continuei olhando para cima.
— Pessoas são substituíveis... — Ela sussurrou. Foi então que eu me virei, e olhei para ela.
— Por que pensa assim? — Claramente aquilo me deixou intrigado, afinal eu não achava que minha mãe foi substituída.
— Não é o caso para todos, algumas pessoas guardam o lugar daqueles que partiram. Eu não estou criticando o seu pai, mas sua mãe morreu, e ele a substituiu. É assim com a maioria das pessoas, o choro é momentâneo. A dor continua? Às vezes... algumas pessoas seguem sua vida normalmente, como se aqueles do passado nunca tivessem existido. Quantas vezes seu pai te falou sobre sua mãe? Alguma vez ele te mostrou uma foto dela? Ou sequer viu ele lamentando a morte de sua esposa?
Foi uma questão e tanto. Meu pai... ele nunca falava da minha mãe, por mais que eu perguntasse. Ele dizia que Úrsula era tudo que eu precisava, eu sempre o ouvia, apesar de sentir culpa pela morte da minha mãe.
— Isso vai de pessoa para pessoa, eu nunca substituí alguém que já esteve no meu coração... — Ela ficou com uma expressão triste. O passado dela parecia atormentar.
— Meu pai não falava da minha mãe, talvez ele realmente a tenha substituido. Mas enfim, por que entrou nesse assunto?
— Porque eu imaginei que você também vai fazer isso. Eu sou humana, vou morrer um dia. Tudo que precisa é de um filho, certo? Provavelmente é por isso que quer uma humana. Bom, até cogitei em ter um bebê e vazar, mas eu não tenho nada para fazer lá fora... sem contar que não quero abandonar uma criança, pelo menos não quero que seja igual foi comigo... — Então ela é órfã... bom, muitas coisas fazem sentido agora.
— Lecina, eu sou filho de Hayden, mas não sou igual a ele. Não que eu ache errado meu pai ter tentado uma nova chance para o amor, mas eu também vejo as coisas como você vê! Para mim, pessoas são insubstituíveis, não manterei ninguém ao meu lado, mesmo depois da sua morte! Aliás, você também tem a opção de se tornar vampira...
— Ei, por que eu iria querer viver mais? Eu já estou cansada da minha vida, não quero mais que isso, ok?
— Sim, sim, eu entendi...
Pessoas são "insubstituíveis", eu pensava igual ela. Assim como ela sempre seria a única que poderia estar ao meu lado, a mulher que para o resto da vida, seria marcada como a minha esposa, eu também só teria uma pessoa no meu coração, que era Ivone. Bom, eu tive isso por certo, porque eu sempre gostei dela. Talvez o meu conceito de substituível seja diferente do que imaginei, afinal, ninguém manda no coração. Se eu voltar para o tempo que pude olhar Lecina claramente nos olhos, eu poderia dizer com convicção que muita coisa mudaria no futuro... se eu me arrependo? Não tenho certeza, mas algo é certo, Lecina foi o meu caos, e minha salvação...
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Atualizado até capítulo 103
Comments
Neide Kiyoko Tanaka Akiyama
Ainda assim...
2024-04-28
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