— Escuta aqui fedelha, te criamos esses dez anos mesmo depois que
aqueles seus pais ladrões fugiram e morreram no processo, te demos de
tudo, então agora é hora de você retribuir! — engoli em seco, querendo
gritar que não acreditava em suas palavras sobre meus pais, mas fiquei
quieta. — Vai casar com Patrick Carter, dar todos os herdeiros que ele
quiser e vai fazer isso sorrindo!
Justo agora quando faltava apenas um ano para que eu conseguisse
minha independência, isso não podia acontecer, logo quando eu finalmente
me veria livre daquele inferno, daquelas pessoas sem coração, agora eu
seria jogada nos braços de um homem que eu nem conhecia.
— Sim, senhor. — respondi a contragosto.
— Se anima priminha. — Louis disse rindo do sofá enquanto virava
mais um copo de whisky. — Ouvi dizer que ele é um deformado, que vive
recluso em uma casa nas montanhas, tenho certeza que vai ser como nos
seus livros bobos.
Queria socar e xingar, ou arranhar a cara daquele desgraçado como
fiz anos atrás, mas só de recordar as marcas em minhas costas um arrepio
gelado subia por minha coluna, me lembrando que manter a boca fechada
ali era questão de sobrevivência.
— O casamento é amanhã, o tabelião virá até aqui e você vai assinar
os papéis, depois disso eu e o pai dele resolveremos o restante dos detalhes.
— Ele não vem? Não vamos casar na igreja? — questionei perplexa
que até mesmo isso estivessem tirando de mim.
Meu sonho de entrar na igreja de véu e usando o vestido da minha
mãe estava mesmo indo por água a baixo e eu nem podia fazer nada.
— Não seja tola garota! Isso não é um casamento cheio de bobagens e
frescura, isso aqui é uma transação comercial.
Meus olhos se encheram de lágrimas com a constatação que eu era
uma mercadoria de troca, eles levavam uma mulher para dar herdeiros ao
filho e meu tio levava muito dinheiro para a empresa.
— Odeio vocês! — juntei toda minha raiva e coloquei um fim na
ideia de ser uma boa menina, se ele estava me vendendo não tinha porque continuar com aquilo, tentando ser algo que eu nunca conseguiria, não com
ele.
Charles ergueu a mão pronto para me bater, mas Magie gritou o
parando.
— O casamento é amanhã, quer mesmo que ela tenha o rosto marcado
e eles desistam do acordo? — eu não sabia se a agradecia por isso ou não.
— Tem razão, linda, bem lembrado. — ele olhou para ela a comendo
com os olhos, antes de me dispensar com um aceno de mão. — Vá para o
seu quarto e não saia de lá até a hora de assinar os papéis, não quero ver
essa sua cara mais!
Sai de lá pisando duro, deixando que as lágrimas escorressem por
meu rosto e me tranquei no meu quarto.
Chorei por muito tempo, até pegar no sono, tinha me acostumado a
passar os dias trancada dentro do quarto lendo para fugir da minha realidade
e dormindo para esquecer a fome, eles sentiam prazer em me dar aquele
tipo de castigo.
Mas uma batida na porta me acordou e eu peguei a pequena faca que
deixava em baixo do meu travesseiro, com medo do pior. Tinha sido assim
desde o dia que acordei com meu primo em cima de mim me tocando.
— Quem é?
— Sou eu, menina. A Rosa, abre aqui. — suspirei aliviada quando
ouvi a voz familiar de uma das minhas pessoas preferidas naquele mundo.
— Rápido, fecha rápido para ninguém me ver.
A mulher baixinha e rechonchuda entrou carregando uma bandeja
com o que deveria ser meu jantar.
— Não deveria ter feito isso Rosa, não quero você se colocando em
problemas por minha causa. — lembrei a ela, mas já fui me sentando para
comer. — O que vai ser de mim se eles te colocarem para fora?
— Acho que agora não faz mais diferença, não é menina? Hugo me
contou tudo que ouviu os patrões conversando. — engoli rápido a comida
que ainda estava quente só para responder.
— Vai ser meu fim, Rosa, estou tentando nem pensar nisso.
Ela deu uns tapinhas na minha mão e sorriu de forma solidaria. Então
se levantou e abriu o guarda-roupa começando a tirar as poucas roupas que
eu tinha.
— Porque não tenta ver isso de outra forma, minha filha? — franzi a
testa em confusão. — Você finalmente está saindo dessa casa maldita, vai
poder ter sua vida, fazer o que quiser...
— Você não sabe como as coisas vão ser, não sei nem como é esse
homem. — mas boa coisa não deve ser, já que quer pagar para se casar
comigo e nem mesmo vai aparecer aqui para assinar os papéis.
— Tem que tentar ser feliz pela primeira vez na vida, apenas isso. —
Rosa fechou a mala e a colocou ao lado da cama, então se sentou
novamente e segurou minha mão. — Eu posso não conhecer esse homem,
mas conheço você, sei que é doce e capaz de tocar corações, tenho a certeza
que não vai se dar por vencida e deixar que ele te trate de qualquer jeito .
Quero que me prometa que vai lá e vai conquistar o coração daquele
homem!
Meus olhos se encheram lágrimas com as palavras dela, mesmo
sabendo que tudo poderia piorar ela estava me animando. Ela era minha
única figura materna que eu tinha desde os meus dez anos, quando meu tio
mandou Jenny embora.
— Rosa, eu te amo. — me agarrei a ela, sentindo que podia ser a
última vez.
Acordei no outro dia decidida a fazer o que ela me disse, eu
conquistaria meu marido, mesmo que esse casamento estivesse começando
da forma errada eu faria dar certo.
Coloquei o vestido que tinham escolhido para mim, era horrível e não
me valorizava em nada, eu parecia uma velha com um vestido dois números
maior, nem mesmo em um tom branco aquele desgraçado me deixou usar.
Para completar só me deixaram descer quando o tabelião chegou,
então eu tinha certeza que os pais do meu futuro marido também já estavam
ali. Entrei na sala de jantar e meu tio, o tabelião e um homem alto de
cabelos brancos me esperavam na ponta da mesa.
— Você é linda! — uma mulher exclamou surgindo a minha frente.
— Ai me desculpe querida, sou Audrey Carter, sua sogra.
— É um prazer conhecer a senhora. — murmurei ainda sem jeito, não
esperava uma pessoa tão animada e calorosa já que o acordo com meu tio
com certeza envolvia uma grande quantia em dinheiro.
— Oh linda, me chame de Audrey, logo seremos uma família.
Abri um sorriso maior tentando ser educada e entender toda aquela
situação.
— Viu só o que lhe falei, ela é uma menina calma, saudável e nova.
— Magie falou se aproximando, eu quis lhe dar um tapa e mostrar que não
tinha nada de calma como ela falava, mas não ia estragar minha chance de
ficar livre de todos daquela casa. — Sophie vai te dar muitos herdeiros.
— Tenho certeza de que vamos nos dar muito bem. — Audrey
envolveu meu ombro com o braço e me levou para longe da loira. — Esse
aqui é meu marido, James Carter.
O homem alto e de cabelos brancos, com mais rugas do que eu
poderia contar, abriu um sorriso largo, os olhos castanhos me encararam e
ele se curvou abraçando meu corpo me surpreendendo ainda mais.
— Olha, não me disseram que era tão bela essa menina. Estou muito
feliz em conhecê-la e mais ainda com essa união, tenho certeza que você e
meu filho serão muito felizes juntos.
Eu não queria nem pensar em como era esse filho de verdade, porque
eles estavam parecendo empenhados de mais em serem legais comigo, na
situação mais inusitada possível.
— Estou ansiosa para conhecê-lo. Por que mesmo Patrick não veio?
— Não liguem para a curiosidade da minha sobrinha, ela vai ter
tempo de conversar tudo isso com o marido quando se encontrarem!
É claro que meu tio iria intervir e tentar adiantar a cerimônia só para
poder assinar esse acordo. Assinei o papel, notando que a parte de Patrick já
tinha sido assinada, pelo visto ele não saía de casa mesmo.
Depois disso eles conversaram e almoçamos juntos, mas antes que eu
pudesse voltar a me esconder em meu quarto meu tio me mandou pegar minha mala, pois o carro que Patrick mandou para me buscar tinha
chegado.
Segui sem reclamar, como uma ovelha indo para o matadouro. Foi
uma viagem de três horas até que eu alcançasse a cidadezinha e mais meia
hora até o topo da montanha onde ficava a mansão dele, a única construção
nas redondezas.
Parei na frente da casa sentindo o vento gelado me arrepiar inteira. O
lugar era lindo, cercado de flores e árvores, mas tinha algo de triste e
solitário ali, eu podia ver.
Olhei para cima e avistei alguém na janela, mas antes que pudesse ter
um vislumbre melhor a pessoa se afastou, sumindo nas sombras dentro da
casa.
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Atualizado até capítulo 54
Comments
HENEMANN- MEDEIROS. Henemann
Toda história tem um começo assim minha querida. Só vamos esperar a nossa autora escrever essa obra.
2024-03-13
6
Maria Helena Macedo e Silva
a dama e o vagabundo
a bela e a fera... todos romance improvável para a sociedade , mas pra que valorizar o que pensam se somos muitos melhores juntos e fazemos possivel e provável o quê eles não aprovam.
juntos vencemos e fortes ficamos cada vez mais.😉
2024-03-12
0
Cristina Ferreira
esse tio dela tem que pagar o que fez ,junto com a família.
2024-01-24
2