Capítulo 8

Allison abaixou a cabeça e examinou o papel branco em suas mãos, onde estava anotado o endereço de um cemitério.

Teria a irmã dele falecido?

Mas qual seria a ligação entre a morte da irmã dele e seu próprio pai?

Allison conhecia Northon o suficiente para saber que ele jamais faria mal a uma menininha.

Percebendo que não obteria muitas respostas dos dois, ela não insistiu mais, seguindo em silêncio até a Mansão dos Howard. Ao retornar a esse lugar familiar, um turbilhão de emoções invadiu Allison.

Educadamente, Gabriel indagou.

— A senhora vai descer?

— Não, não é necessário. Vou esperar por ele aqui.

Sua última interação com Justin resumiu-se ao divórcio. Ela não desejava criar mais complicações, especialmente porque cada centímetro daquele lugar carregava memórias dela com ele. Evocar essas lembranças poderia despertar sentimentos profundos que ela preferia evitar.

Se alguém merecesse culpa, era o homem que costumava fazê-la derreter com suas palavras e desvanecer em seus abraços.

Mesmo agora, distante e frio como estava, Allison ainda mantinha vivas as lembranças dos momentos bons.

Mesmo ele sendo extremamente odiável, ela ainda não conseguia se forçar a odiá-lo.

O carro continuava ligado, proporcionando um calor constante. Os dois saíram do carro. No interior vazio, era apenas Allison. Seu estômago doeu novamente, e ela se encolheu em uma posição fetal, abraçando seus joelhos como se fosse um camarãozinho encolhido no assento, aguardando a aurora do dia.

No inverno, a noite caía cedo e a manhã demorava a clarear. Apesar de passarem das sete horas, o céu permanecia envolto em neblina, ainda longe de estar completamente iluminado.

As folhas de nogueiras no jardim tinham caído havia muito tempo, e seus pensamentos flutuavam para o passado.

Na estação em que os frutos amadureciam, ela costumava desejar um bolo de nozes de nogueira. Justin subia na nogueira que se erguia a mais de dez metros no jardim e sacudia os galhos para que os frutos caíssem.

As folhas verdes e amarelas flutuavam delicadamente, como uma chuva dourada para ela.

Naquela época, Justin era acessível, um cozinheiro talentoso e a mimava sem limites. Ela saiu do carro.

Enquanto divagava, Allison percebeu que estava sozinha debaixo da árvore. A nogueira ainda estava ali, mas tudo havia mudado.

Uma folha solitária caiu, deixando apenas algumas folhas secas penduradas nos galhos, prestes a cair, assim como a relação instável entre ela e Justin.

Justin saiu da mansão e deparou-se com essa cena. Uma jovem com um vestido de malha fina olhava para cima, os cabelos sendo acariciados pelo vento frio. O rosto pálido mas perfeitamente belo.

O clima, que nos últimos dias estava ruim, havia se transformado em um dia bonito, e os primeiros raios de sol da manhã iluminavam seu rosto, realçando sua pele quase translúcida, como a de uma

boneca que estava prestes a desaparecer.

Uma bandagem ainda envolvia sua mão, e ela ainda vestia as roupas da noite anterior, com um ar de cansaço.

— Justin. - Ela não se virou, mas percebeu sua presença.

Justin apenas grunhiu em confirmação.

Allison se virou lentamente, seus olhos encontrando os dele. Apesar da proximidade física, algo os separava, como se uma distância intransponível os dividisse.

— Eu gostaria de comer aquele bolo de nozes que você costumava fazer.

Um lampejo de surpresa cruzou os olhos escuros de Justin por um momento, mas logo em seguida ele respondeu com indiferença.

— A temporada de nozes já passou, Allison.Não adianta se lamentar.

Os olhos dela ficaram úmidos, e ela murmurou.

— Pelo menos, antes do divórcio, você poderia realizar esse último desejo meu, não acha?

Três meses sem se verem, ela parecia diferente. Ele virou o rosto, observando a árvore desprovida de folhas, sua voz perdendo parte da frieza.

— Os frutos congelados do ano passado já não tem o mesmo sabor. Se quiser, espere pelos frutos do próximo ano.

O próximo ano...

Allison tocou a casca áspera da árvore, incerta se chegaria até lá.

— Justin, você me odeia tanto assim?

Um aceno leve da cabeça foi a resposta dele.

Ela olhou para ele com ternura.

— Então.. Você ficaria feliz se eu morresse?

As palavras de Allison caíram como um trovão em seu coração. Justin sentiu um estrondo de emoções em sua mente, momentaneamente perdendo a compostura.

Após um instante, ele se recompôse respondeu com frieza.

— Bem, é apenas um bolo, entre.

Allison o observou se afastar, um leve sorriso brincando em seus lábios.

"Justin, será que ainda tem medo da minha morte?", ela pensou.

Um pensamento malicioso brotou em sua mente. Ela se pegou imaginando como seria a expressão dele se um dia descobrisse sobre sua morte.

Ficaria feliz ou triste?

Dentro da mansão, Justin retirou os ingredientes da geladeira, ágil em suas ações para descongelá-los. Enquanto o observava trabalhar, uma agonia incessante a consumia. Essa seria provavelmente a última vez que ele prepararia algo para ela.

E, bem, talvez fosse melhor assim. Pelo menos ficaria com uma lembrança.

Allison assou batata-doce diante da lareira, o aroma delicioso enchendo o ambiente.

Nos invernos passados, esse cheiro costumava atrair a Sra. Nara até ela. Nara costumava tratá-la como uma neta de verdade.

Mas, infelizmente, a Sra.Nara faleceu nos últimos dois anos, e o Sr. Jimy, para escapar da constante tristeza, se mudou para o exterior. A Mansão dos Howard, que costumava ser acolhedora, agora era fria e vazia. A batata-doce assada ainda era deliciosa, mas sem a Sra. Nara para disputá- la com ela, tudo parecia sem vida.

Após saborear a batata-doce e beber água morna, a dor em seu estômago diminuiu um pouco.

Quando o aroma da cozinha chegou até ela, Allison se levantou e viu Justin colocando metade do bolo em uma caixa térmica e a outra metade em um prato.

Em algum momento, aquele que costumava girar em torno dela não era mais exclusivamente seu. Ela havia usado as lembranças felizes para evitar encarar a realidade.

— O bolo está pronto. - Disse Justin.

A melancolia dela escapou à percepção dele.

— Obrigada. - Ela olhou para o prato com o bolo, deliciosamente perfumado, suas cores e aromas perfeitos como sempre, mas seu apetite era nulo.

—Não temos muito tempo, precisamos ir ao cartório.

A testa franzida de Justin sugeria alguma irritação.

— Não vai comer?

— Não estou com fome.

Ela costumava ser teimosa, e ele sabia ser paciente. Agora, ele apenas a olhou por um momento, jogou o bolo inteiro no lixo e passou por ela sem expressão.

— Vamos.

Ele entregou a caixa térmica a Gabriel, ordenando:

— Leve isso para a Vila Cristal.

— Sim, Sr. Justin.

Naquele instante, Allison compreendeu que não havia retorno entre eles. Um ano de resistência parecia uma piada. Ela caminhou rapidamente em direção ao carro, passando pela nogueira. Uma rajada de vento frio passou, fazendo as últimas folhas cederem.

Ela estendeu a mão, apanhou uma das folhas sem vida e murmurou.

— Por que continuar a lutar?

Deixando a folha cair casualmente e esmagando-a sob o pé, as frágeis partes se desfizeram.

A porta do carro se fechou. Apesar do aquecedor, os dois sentados separadamente irradiavam um frio que parecia anunciar o fim do mundo.

A viagem até o cartório foi silenciosa, sem congestionamentos, todos os semáforos se abrindo para eles. Era como se o próprio universo facilitasse o divórcio.

Ao virar a esquina, eles alcançaram o destino. Mas o telefone de Justin tocou, e a voz ansiosa de Brenda veio do outro lado.

— Justin, Theo está com febre alta. Eu não queria incomodar, mas a febre dele chegou a 39 graus. Estou com tanto medo. Venha logo...

— Estou indo imediatamente.

Justin desligou o telefone e se deparou com os olhos vermelhos de Allison carregados de ressentimento. Ela perguntou, cada palavra carregada de significado.

— Qual é o nome daquela criança?

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Comments

mandinha

mandinha

Eu entendo ela , e não acho ela burra ou algo assim ... ela está morrendo , e ainda ama ele como nunca jamais amou alguém, é difícil vc vê uma pessoa que estava na msm vibe que vc se transforma da noite pro dia ... dói e não é pouco e vem sim as humilhações, mais tudo é uma faze ... eu costumo dizer que tudo passa .

2025-01-03

2

Euridice Neta

Euridice Neta

Coitada de Alisson pagando por um crime que nem se sabe realmente aconteceu e esse idiota se deixando manipular por essa cobra....

2025-03-01

0

Juliana S Andrade

Juliana S Andrade

Esse divórcio sai ou não sai autora?

2025-02-14

0

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