Já tenho mais de cinco anos de casada e muitas coisas durante esse tempo foram mudando na minha vida. Eu estudei, formei, comprei o meu carro, tenho a minha casa e não pareço em nada com àquela moça que saiu do interior de Minas.
Aprendi que às coisas não são tão fáceis como imaginamos e muito menos que a felicidade é completa.
Eu não consigo engravidar, o tempo está passando e todos os meses ficamos na expectativa e nada acontece. Júlio é muito paciente, carinhoso e um excelente esposo, mas eu sinto-me incapaz, uma mulher pela metade. Já fizemos todos os exames e acompanhamento médico para saber onde está o problema. Salete é minha médica e diz que é uma questão de tempo, mas o tempo não está sendo favorável. A minha menstruação falha e quando menos espero ela chega.
Arthur está com seis anos e Amélia cinco, eles são a alegria da casa, quando eles chegam para ficar conosco, é como se fossem nossos filhos. Júlio os mimam demais e faz questão de estar sempre com eles. As crianças da Magali passam sempre as férias conosco, Laís e Silas estão com doze anos e a pequena tem cinco. Eles também passam férias conosco, já que os seus pais trabalham muito e os avós assumiram o papel de cuidar das crianças.
Eu dedico o meu tempo ao trabalho na escola, ajudo Laila na administração como vice-diretora e tenho um cuidado especial com as crianças.
Júlio trabalha com Bruno na empresa que virou um monstro no setor da construção civil. Hoje poderíamos ter um monte de filho e não temos esse privilégio.
O grupo das amigas está sempre ligado, qualquer novidade, preocupação ou aperto, é o botão de alarme que nos deixam a par de tudo. Quando tem uma chamada, já corremos para atender.
Estou na minha sala e vejo uma chamada de vídeo. Abro o computador e dou de cara com uma carinha sapeca, que não veio a aula hoje, porque está gripada.
Todas as amigas entram no grupo, assustadas e dão de cara com uma tagarela que precisa contar uma novidade.
__ Sabrina, como conseguiu entrar no grupo das madrinhas?
Salete pergunta assustada com a audácia da sua filha.
__ Simples, mamãe! Eu peguei o computador do escritório, a senhora não o desligou quando saiu.
__ Sabrina, esse grupo é para as amigas conversarem assuntos de pessoas adultas.
__ Eu sei, por isso eu estou conversando com vocês. Madrinha Marina estou com saudades do Antônio. Ele é o meu melhor amigo, a senhora sabia que ele beijou o meu rosto ontem?
__ Não querida, ele não me contou nada.
__ Eu falei para Sandra que vou me casar com ele e ela disse que somos crianças e não podemos nos casar.
Ela muda de assunto e para de dar atenção para a sua mãe. Os casos se estendem por uma hora e ela não para de falar, apesar da dificuldade na fala, nada a impede de conversar por horas e as madrinhas tentam abafar o assunto de casamento. Ninguém está preparado para verem seus filhos casando.Se Sandro souber de uma história dessas ele morre.
Eu estou olhando alguns documentos e tentando prestar atenção no assunto interminável. Enquanto ri e gesticula, suas conversas são coerentes. Ela prende a atenção de todas as madrinhas com as suas ideias mirabolantes. Definitivamente é idêntica ao pai. Esse que aparece de surpresa no escritório e consegue convencê-la que temos que trabalhar.
Fecho o computador e fico imaginando como seria ter um filho ou filha igual à Sabrina, o meu coração aperta e as lágrimas correm no meu rosto. Porque eu iria amá-la profundamente, como eu amo todas essas crianças.
A noite no quarto eu fico assistindo a um filme com Júlio, estou distraída e ele pergunta-me porque estou pensativa:
__ Você não está gostando do filme?
__ Estou, é que eu estou lembrando de algo que aconteceu agora à tarde.
Ele para o filme e beija-me com um selinho terno e diz:
__ O que aconteceu?
Eu dou-lhe um sorriso e conto da proeza da Sabrina e as suas histórias de amor.
Ele ri comigo da cópia fiel do Sandro e da vovó Cida.
__ Eu não me importaria de ter uma criança especial, eu penso que seria uma mãe dedicada.
__ Porque diz isso?
Ele pergunta-me, puxando-me para o seu corpo. Aconchego-me em seus braços e solto um suspiro profundo.
__ Elas são iluminadas, vem a esse mundo com um propósito maior em meio a uma sociedade que não para, não se sensibiliza e muito menos ama o próximo. Elas são puras e trazem uma inteligência diferente, carregadas de afeto e carentes de atenção. Assim, precisamos parar e olhar para elas e ver que tudo é muito passageiro, o importante é o agora, o que estamos vivendo.
Ele escuta-me atentamente e aperta-me em seus braços e diz:
__ Você tem razão, mas a partir de hoje não vamos mais procurar meios para termos filhos, se não tivermos, cuidaremos um do outro e dessas crianças que surgirem no nosso caminho, para isso já temos essa meninada.
Como você mesma disse: O importante é agora, e estamos juntos e felizes.
Voltamos a ver o filme e dormimos abraçados.
Acordamos cedo e fomos trabalhar. Chego na escola e está um túmulo, uma discussão no pátio na hora da fila. De um lado Sabrina e a sua turma, do outro uma garota novata que já chegou causando.
__ Oi! O que está acontecendo aqui?
Pergunto e o clima está tenso entre as crianças do pré.
__ Madrinha, essa menina chamou a Sabrina de mongol.
Arthur fala revoltado com a garota. Eu fico horrorizada, pois, eles não têm nem sete anos e com esse tipo de atitude.
Sabrina está chorando e as meninas estão ao seu lado tentando acalmá-la.
A amizade dos pais passou para os filhos, eles são unidos e de um jeito carinhoso Antônio se aproxima da pequena e diz a abraçar:
__ Não fica assim, vamos contar para o padrinho Sandro, ele vai chegar aqui nessa escola e expulsar essa menina daqui.
A novata começa a chorar de medo, Laila e as professoras vem ajudar-me com a confusão e levam as duas garotas para a secretaria. Participo da conversa e Laila explica a respeito do ‘bullying’. A garota pede desculpas e Sabrina a perdoa com um abraço e sorriso inocente.
Eu faço um bilhete para os pais e os convido para uma reunião.
Os pais da garota não aparecem para falarmos a respeito, dizendo que não estão com tempo para assuntos bobos.
Em compensação, no outro dia, apareceu na escola a família inteira e os padrinhos da Sabrina.
Tivemos que fazer a reunião no salão de festas e Sabrina sentiu-se a mulher maravilha, o centro das atenções e Sandro fez questão de conhecer a garota da confusão e carinhosamente explicar que todos somos iguais e o que nos diferencia são as características.
As crianças adoraram o doutor palhaço que usou até um nariz de plástico vermelho para prender a atenção das crianças.
O grande problema das crianças são o que ouvem em casa e pensam que podem repetir na escola. Crianças não tem preconceitos, são inocentes e precisam de orientação. Respeito e educação se aprende em casa.
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Atualizado até capítulo 98
Comments
Sandra Maria de Oliveira Costa
cada capítulo uma emoção diferente parabéns autora mais uma história maravilhosa
2024-12-01
1
Sandra Busnello
Infelizmente vivenciamos isso no nosso dia a dia, pais e professores preconceituosos.
2024-12-16
1
Professora Graça de Língua Portuguesa e Filosofia
Garcia, você é maravilhosa! Que lição de vida!
2024-09-23
2