— Somos uma família, sim! Eu e vocês! Nunca pense o contrário! Eu amo vocês, e não fazem ideia do que eu faria para protegê-las. Não precisam do pai de vocês, sei que ele pode fazer falta, mas não foi necessário até hoje. Vocês tem o vovô Mauro, o tio Maurício, podem se espelhar neles.— falei e me dirigi até a porta, me virei e voltei a encará-las.— Ele não está morto, Pri. E um dia, quando forem maiores, prometo contar a nossa história. Até lá, não insistam nisso. Boa noite! Amanhã vamos para casa do vovô.
Saí do quarto e soltei o ar, fui até meu quarto e resolvi tomar um banho. Debaixo do chuveiro, aquela Bianca melancólica quis retornar, então eu chorei, mesmo sabendo que havia atingido um nível alto na minha profissão, mesmo sabendo que viveria muito bem em São Paulo, mesmo sabendo que minha carreira estava rumo ao topo, não me sentia totalmente feliz, existia um vazio enorme, que eu tentei preencher com trabalho, mas que sempre esteve aqui dentro, era o estrago que Gabriel havia feito, a ausência do meu filho. Essa marca nunca saiu, poderia estar realizada profissionalmente, ter criado minhas filhas relativamente bem, mas a dor de perder meu primeiro amor, nunca seria extinguida, a dor de perder uma parte minha. De quando em quando, era subitamente lembrada disso, e sempre acabava assim, chorando sozinha.
Depois do banho, vesti um pijama, e fui até a cozinha, estava com vontade de meter o pé na jaca, estava cansada de fazer dietas, manter boa aparência, exercícios regulares... Hoje ia me permitir esse mimo, mesmo que aumentasse as intensidades dos exercícios depois. Pedi pizza pelo aplicativo e enquanto esperava, abri uma garrafa de vinho e tomei uma taça. Quando a pizza chegou, as meninas nem lembravam da conversa difícil, e já estavam sorrindo e cantando com o desenho infantil. Como é bom ser criança, tudo é tão leve e inocente!
🌛🌞
No outro dia, estava na cidade que nunca sairia do meu coração, como sempre meus pais nos receberam com pompa, e quando contei que havia passado no concurso, foi motivo de churrasquinho. Meu irmão, que apesar de morar em Recife com a esposa, sempre acabavamos nos vendo na casa dos nossos pais, minha irmã estava de namorado novo, e se aventurando em abrir uma loja de roupas. Alguns tios e primos também apareceram (quem rejeita um chamado para comer carne de graça?). O final de semana foi muito gostoso, não nos permitimos pensar que estaria partindo para longe outra vez. Mas se fosse refletir, a Bianca de 16 anos atrás, com a Bianca de agora, com 34 anos, não poderia comparar, me sentia mais segura de mim, confiante, as doloridas lições haviam me moldado, e sinceramente, não ia me deixar levar por ninguém, não ia me permitir apaixonar por um canalha. Ia focar em fazer minhas filhas felizes num estado bem diferente, e também na minha carreira, finalmente ia poder realizar aquilo que mais desejava, apurar fatos e punição de crimes, ia defender causas sociais, ia combater a criminalidade, não importava a grandiosidade do problema, precisava ser destemida.
Nesse ritmo de obstinação foi que o mês passou. Havia aceitado a vaga, ia alugar meu apartamento em Recife, e alugar outro em São Paulo. Pesquisou boas escolas em São Paulo, para quando chegasse poder escolher uma. Sua mudança foi primeiro, e Brenda que estava sendo a sua "mão" em São Paulo. Um dia antes de pegar o vôo que mudaria a minha vida outra vez, fui me despedir da família.
Durante o dia, eu tentava esquecer tudo o que viria pela frente, aproveitei ao máximo minha família e até rolou um vôlei familiar, onde rimos a beça. Minhas filhas brincaram com o filho do meu irmão, o pequeno David, de apenas três anos. Olhar meu sobrinho, era sempre nostálgico, eu lembrava do meu Miguel e tentava pensar em como ele estaria agora. Não sei se fui correta, mas nunca nem pesquisei sobre o Gabriel e toda família de políticos, não queria arriscar ver o meu menino, e acabar pior do que já estava. Mas agora que estava voltando para São Paulo, não vou negar que minha curiosidade e vontade de poder abraçá-lo aumentava assustadoramente.
Sentei na mesa da cozinha, e bebi um copo d'água. Suspirei pensativa, como doía ficar longe daquele pedacinho que me pertencia, já tinha 10 anos e ainda era tão doloroso quanto no dia que me despedi.
— Pensei que estivesse feliz de voltar para São Paulo?— minha irmã falou se sentando na cadeira ao lado.
A encarei desanimada.
*Beatriz Diniz Garcia, 23 anos*
— Eu tô feliz.— respondi.
— Não sei o que é estar triste então! Que bicho te mordeu?— Beatriz revirou os olhos.
— Quando eu vejo o David, me faz lembrar do meu garoto... ainda dói demais...— falei cabisbaixa e num tom mais baixo.
— Aí Tata, como vai lidar com isso estando tão perto? Já se perguntou?— ela falou segurando minha mão.
Suspirei profundamente, realmente eu queria encontrar uma resposta para essa pergunta.
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Atualizado até capítulo 105
Comments
Maria Aparecida Santos
muito triste autora ver os filhos separados. espero que se encontrem se se perdoem .não vou olhar o fim da sua estória. mas eles merecem uma chance.
2025-03-30
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Marilza Motta
não sei como será até o final do livro, mas parece uma estória tão real
2025-02-16
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Taty
por mim a autora não deixava eles voltarem , foi muito covardia da parte dele além de trair ainda tirou o filho dela , poderia arrumar outro homem bem melhor pra ela
2024-12-17
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