Gabriel
Quando a porta do quarto se fechou atrás da sua “esposa”, ele grunhiu. Como uma fera enjaulada.
A fera que ele acreditava ser.
Pensou em não ir até a sala de jantar para tomar o café da manhã, apesar de partilhar esses momentos com o filho apenas em fins de semana, mas saber que sua aparência causava tanto pavor naquela jovem era terrível.
Não sabia a razão da opinião dela importar, afinal tinham apenas um contrato que duraria um ano, ela logo iria embora e ele nem lembraria mais dela.
Voltou para o banheiro e olhou o rosto refletido no espelho. Aquela cicatriz que dividia seu rosto mudou sua vida. Tudo mudara depois do maldito acidente. Era seu lembrete de que era uma pessoa ruim e que nunca seria feliz.
Saiu do banheiro e voltou para o quarto, seu olhar foi atraído para a mesinha de cabeceira onde havia uma foto da falecida esposa e de José, ainda bebê. Letícia sorria com o filho no colo e, naquele tempo, Gabriel acreditava que o amor dos dois era para sempre, ele era muito apaixonado pela esposa e acreditava que o sentimento fosse recíproco.
Com raiva, abaixou o porta-retratos e saiu do quarto. Desceu as escadas e foi até a sala de jantar, onde encontrou o irmão, a cunhada, o filho e a “esposa” já sentados, comendo.
José falava alegremente sobre um jogo que a moça tinha ensinado a ele, Rafael ouvia atentamente.
- Bom dia. - falou.
- Bom dia, Gabriel, querido. - Irene respondeu, sorridente – Tenho boas notícias.
- Quais, cunhada? - geralmente as notícias da mulher não interessavam a ele, mas fingiu se importar.
- Estela está chegando hoje. - Irene disse, feliz – Ela decidiu voltar.
Gabriel não falou nada, percebia que Irene gostaria que ele e Estela formassem um casal, mas não seria possível. Ele até havia tentado, uma vez, antes de conhecer Letícia, mas a garota era bem diferente do tipo de mulher que ele gostava, era moderna demais para ele. Para não parecer mais rude que o normal, o homem apenas assentiu brevemente e continuou a comer, enquanto os outros comiam em silêncio.
Após o café, Irene subiu para arrumar o quarto da irmã, Rafael foi cuidar do seu jardim e José saiu com a moça para brincar no jardim. Gabriel precisava ver alguns papéis da empresa no escritório da casa, por isso subiu as escadas e se trancou no lugar.
Gabriel tentou se concentrar na papelada que estava a sua frente, mas não conseguiu. A cena de mais cedo se repetia em sua mente, os olhos grandes e cheios de medo da moça causavam uma estranha sensação em seu peito. Empurrou os papéis na mesa, levantou-se e foi até a janela e quase teve uma síncope ao ver a cena: José e a moça estavam numa escada tentando alcançar os galhos mais altos de uma árvore no jardim.
Sentiu o sangue subir à cabeça, um pouco mais e sairia fumaça das suas orelhas.
Aquela mulher era louca?
Ela, por acaso, queria matar seu filho?
Gabriel abriu a porta do escritório e saiu como se estivesse perseguindo alguém, o mordomo tentou perguntar o que estava acontecendo, mas ele não respondeu, seguiu o caminho com o único objetivo de tirar o filho das mãos daquela louca.
Quando chegou lá, José estava no chão olhando para cima e a moça parecia não estar em lugar nenhum.
- Papai, tia Isadora está tentando tirar um gatinho dos galhos, mas ele não quer sair. - o menino parecia muito preocupado.
O homem olhou para os galhos das árvores e viu as pernas da garota. Ela estava nos galhos mais altos, se equilibrando de forma bastante precária.
- Desça. - ele mandou, com a voz mais autoritária que podia.
-Venha, meu querido. - ouviu a moça falando para algo acima dela – Venha comigo, meu amor. José, consegui! – nesse momento ela virou o rosto e encontrou o olhar crítico de Gabriel.
Ele sabia fazer olhares perfurantes e, naquele momento, fez o melhor para assustá-la.
Os olhos dela se arregalaram do susto e, de repente, ela estava caindo. Antes que algo mais grave acontecesse, Gabriel aparou a queda dela (e do gato que ela segurava firmemente nos braços). Apesar do impacto, o homem conseguiu segurá-la, sem que caíssem no chão. Vendo o rosto dela tão de perto, o homem percebeu que os olhos dela eram incríveis, o tom de castanho parecia chocolate derretido, cremoso, era o mesmo tom do whisky que ele bebia. O olhar dela era inocente, indefeso, como um animal em perigo.
Não sabia por quanto tempo se encararam, se por um segundo, um minuto ou uma hora. Tudo que sabia era que aqueles olhos inocentes eram perigosos, porque o hipnotizavam facilmente e ele não poderia se perder neles.
Nunca.
O contato visual acabou quando ela gritou.
O gato mordera sua mão.
- Você pensou em quê quando subiu nessa árvore? - ele perguntou, seco, enquanto a soltava e cruzava os braços em frente ao peito.
- O gato… - ela começou.
- Se você tivesse caído? E se José tivesse caído? - o homem gritou, descontrolado.
- Papai, não grite. - o menino disse abraçando Isadora pela cintura. O garotinho estava assustado e escondia o rosto no corpo da mulher, que parecia calma.
- Não se preocupe, querido. - Isadora abraçou o garotinho – Seu pai tem razão, não deveria ter feito isso. - disse encarando o homem – Desculpe, sr. Gabriel. Não tive intenção de colocar José em perigo, nós vimos esse gatinho aqui no jardim e queríamos cuidar dele.
O homem a observou durante alguns segundos e saiu em direção ao carro, sem falar mais nada. Ele estava nervoso demais e não queria assustar mais o filho. Deu partida no veículo e saiu, sem saber muito bem para onde ia, mas só pensava em ir para longe dela.
Acabou indo para o escritório, imaginou que ali teria um pouco de paz e poderia examinar os papéis que precisavam da sua atenção, mas se enganou, porque a todo instante ele lembrava do momento em que ela caíra em seus braços. O rosto surpreso, os olhos grandes e assustados…
Ela parecia tão frágil em seus braços, nem queria pensar no quê aconteceria se ele não estivesse ali.
- Droga! - Gabriel falou e jogou uma parte dos papéis que estava olhando na mesa.
Era necessário que tivesse muito cuidado, há muito tempo estava sozinho, mesmo quando Letícia ainda estava viva, Gabriel se sentia só, a mulher sempre deixava claro que o queria longe dela.
E ele não iria se encantar novamente por um rosto angelical e olhos inocentes, esse era o pior tipo de armadilha que poderia cair.
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Atualizado até capítulo 53
Comments
Eliene Lopes
Isadora foi muito amadora e tola antes de assinar o contrato tinha que exigir ver o pai e resolver a situação na escola ou até mesmo exigir não parar de lecionar afinal falou para o pai que aos finais de semana ia vê-lo e nem isso ela exigiu simplesmente parou a vida em todos os sentidos QUE MULHERZINHA BURRA GENTE
2025-02-16
0
Maria Jose Soares
Acredito que Isadora vai passar por situações difíceis, essa cobrança mais a irmã vai fazer de tudo pra acabar com ela, assim como fez com a primeira esposa, jogando sujo
2024-12-17
0
Patricia M
muito boa a história kkkk
2024-09-24
1