Capítulo 3

Sorrio abertamente ao lembrar da dona do guarda chuva.

Uma menina loirinha, com o sorriso doce, o olhar terno e uma voz calma. Eu nunca entendi muito bem como ou porque, mas aquela pequena menina, me disse exatamente o que eu precisava ouvir naquele momento.

Depois daquele encontro, eu decidi sair do fundo do poço em que tinha mergulhado. Eu me levantei, me reergui, renasci...como uma Fênix!

É por isso que minha empresa tem esse nome. Pois foi depois desse dia, daquela conversa simples e das palavras daquela menina, que eu dei início ao meu próprio negócio. Fundei a Fênix, que começou em uma pequena sala comercial e, com muito trabalho, hoje se tornou a potência que é.

Se aquela moça soubesse o que suas palavras fizeram comigo. O efeito que tiveram sobre a minha vida...

Eu não sei nada sobre ela. Nome, telefone, nada!

Somente as iniciais, A.C que estão gravadas em uma pequena etiqueta, no cabo do guarda chuva, que ela gentilmente me cedeu, naquela tarde, há 6 anos atrás...

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6 anos atrás...

Sentado num banco do Central Park, eu olho a pequena caixa em minhas mãos.

Um turbilhão de pensamento, sentimentos e emoções passam por mim, como um tornado, arrancando minha sanidade e minha vontade de viver.

Cansado, cabelos grandes e desgrenhados, barba enorme, olheiras, e um cheiro de álcool que parece já fazer parte do mim.

Há 2 meses minha vida era perfeita, ou pelo menos eu achava que sim...

Eu me formei em Publicidade e marketing, consegui montar meu pequeno escritório, comprei um apartamento modesto, mas bem confortável e finalmente, vou pedir minha namorada em casamento, depois de 4 anos juntos.

Eu e Megan nos amamos muito. Nos conhecemos no meu primeiro ano na faculdade. Eu cursando publicidade e ela moda. Nosso relacionamento é puro, calmo e verdadeiro.

Temos uma química e conexão incríveis e eu não vejo a hora de estarmos juntos pra sempre, compartilhando nossas vidas e sendo o apoio um do outro, torcendo e crescendo juntos.

Eu estou tão animado, que saí do trabalho e fui direto à uma joalheria comprar o tão esperado anel de noivado. Vou fazer uma surpresa e preparar um jantar romântico no apartamento que ela divide com uma amiga.

Cheguei ao prédio e o porteiro não estava lá, mas não tive problemas, porque a amiga dela está viajando e deixou a chave comigo, pra eu preparar tudo.

Entro no apartamento e coloco as sacolas na cozinha. Quando estou colocando as flores em um vaso, ouço o barulho do chuveiro e logo me animo. Eu e Megan sempre nos amamos no chuveiro e, se pudéssemos fazer isso antes da minha surpresa, que mal teria? Pensei, já tirando minha camisa e indo em direção ao seu quarto.

Mas foi aí que aquela desgraçada partiu meu coração em pedaços.

Eu entrei no banheiro e vi o uniforme do porteiro no chão e quando ergui o olhar, vi a cena nojenta da minha namorada, a mulher com quem eu pensei em me casar e construir uma família, sendo comida pelo porteiro. Aos gemidos ela elogiava os serviços do porteiro e se oferecia feito uma cadela no cio.

Eu quebrei o espelho do banheiro com um soco, o que chamou a atenção dos dois, e mesmo com o vidro embaçado do box, vi a cada de desprezo da Megan.

Eu saí dali, com os olhos cheios, ardendo pelas lágrimas de decepção. Ainda pude ouvir ela e o tal porteiro gemerem feito animais. Aquilo foi tão humilhante.

Porque? Porque ela fez isso comigo? Eu sempre fui fiel, leal, companheiro,apaixonado, presente. Mas ela não me deu valor. Sequer se preocupou comigo ou como eu estaria depois de vê-la com outro.

Eu saí dali arrasado, destruído, me sentindo um lixo, usado e descartado. Passei a beber incontrolávelmente, dia após dia.

Eu era apaixonado por ela. Eu a queria como minha esposa, eu a amei com todas as minhas forças e só o que recebi foi traição, decepção e tristeza.

Descobri que não era a primeira traição dela nesses 4 anos. Ela conseguia alguns trabalhos por fazer o teste do sofá com alguns empresários. Era conhecida como boca de veludo. Argh!

Eu mergulhei numa tristeza sem fim. Não era só por ter sido traído, mas por ter entregado meu amor, ter me dedicado, ter feito planos e no fim...ter sido um babaca, otário, corno!

Eu estava há dois meses sem aparecer na casa dos meus pais, sem coragem pra encarar meus amigos, só bebendo e bebendo.

Naquela tarde, eu estava sentado num banco, debaixo de uma chuva fina e gelada, quando senti as gotas pararem de cair, e só então, notei uma jovem parada, de pé ao meu lado, me protegendo com um guarda chuva.

Ela parecia não ter mais que 15 ou 16 anos, usava um uniforme escolar e tinha um copo de café nas mãos e uma mochila nas costas.

- Dia ruim? - ela perguntou, despretensiosa.

- Todos são! - respondi, desanimado.

- Ah, que é isso? Não é possível que você não tenha tido um único dia bom na sua vida. - ela falou, me encarando.

Fiquei olhando a menina parada ao meu lado. Ela não tinha medo de se aproximar de um estranho, com cara de poucos amigos, debaixo daquela chuva, num parque com poucas pessoas? Me perguntei.

- Não deveria se aproximar de estranhos assim! - a repreendi, bufando. - E eu não estou a fim de conversa.

- Você não é estranho. - ela disse e eu franzi o cenho. - Olha, eu passo por aqui quase diariamente e, te vejo sentado nesse mesmo banco, com a mesma caixinha nas mãos. Já te vi brincando com um cachorro que passava por aqui e até já te usei como modelo pra um dos meus desenhos, da aula de artes. - ela falou, naturalmente.

Encarei a menina novamente. Loira, olhos claros, sorriso doce, parecia um anjo.

- Sabia que usar minha imagem sem minha autorização pode ser considerado crime, não sabe? - perguntei, sério.

- Sei sim. Mas eu achei interessante ver um homem sempre no mesmo lugar, com a mesma expressão triste nos olhos...dei ao trabalho o título de moço triste.

- Pelo menos tirou uma boa nota? - perguntei, desanimado.

- Um 10, acredita!? - ela sorriu, satisfeita.

- Fico feliz que minha tristeza tenha servido pra algo bom.

Ela pareceu pensar um pouco, mas logo me olhou e começou a falar.

- Bom, eu acredito que ninguém fica assim, com esse olhar perdido, essa expressão triste, por uma coisa à toa. Mas, sabe, minha mãe sempre diz que quando passamos por determinadas situações, devemos avaliar tudo, absolutamente tudo. As vezes tem coisas que acontecem pra nos tornar pessoas melhores, mais fortes, abrir novas oportunidades, nos impulsionar a querer algo melhor, diferente, ou nos tirar da zona de conforto. Pessoas são passíveis de erros, e isso é natural. Mas o que fazemos com o que nos atinge, é que torna as coisas diferentes.

- Como assim? - pergunto, curioso.

- Se algo deu errado, se perdeu algo ou alguém, se sofreu uma desilusão...tudo tem um propósito. Mas, o que você faz com isso, é o que define como vai ser sua vida depois do furacão. As vezes precisamos nos reinventar, nos livrar das amarras, deixar o passado no passado, seguir em frente e renascer...como a Fênix. - ela sorriu e se virou para um carro que buzinava à nossa frente. - Bom, moço triste do parque, minha mãe chegou. Espero que fique bem.

Ela me olhou mais uma vez e me estendeu o guarda chuva.

- Pegue! - exitei um pouco, mas segurei o objeto. - Acho que vai precisar disso também. - ela pôs o copo no banco, ao meu lado, antes de sair correndo em direção ao carro e entrar em seguida.

Fiquei parado olhando aquele carro se distanciando e algo dentro de mim mudou.

Aquela menina poderia ter razão? Eu devia encarar essa traição como um certo tipo de impulso? Uma oportunidade pra melhorar? Fiquei ali, e logo me lembrei do copo que ela colocou ao meu lado.

Aspirei o aroma e, pra minha surpresa, logo no primeiro gole percebi que era um expresso sem açúcar.

Essa menininha deve saber mesmo das coisas. Sorri com esse pensamento.

Desde aquele dia, aquela conversa meio sem pé nem cabeça, me fez acordar e entender que eu precisava me erguer novamente...e foi exatamente o que eu fiz.

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Comments

Maria do Carmo Cavalcanti

Maria do Carmo Cavalcanti

estou lendo esse livro pela segunda vez acho uma ótima recordar bons livros
1 /4/2025

2025-04-01

0

Francisca Nubia Da Silva De Castro

Francisca Nubia Da Silva De Castro

Tudo que acontece na nossa vida tem sempre um proposito um livramento!

2025-02-20

2

Heloisa Franciscani

Heloisa Franciscani

Já gostando muito da história!!

2025-02-15

1

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