Assim que foi deixado em casa, San correu para o quarto enfiando sua mão por baixo do colchão à procura de um pino, mas para a sua surpresa, não
encontrou nenhum.
— Merda, cadê os meus...
— SEUS O que San Inácio Dantas? — Uma voz feminina da qual San conhecia muito bem interrompe suas palavras.
Ele se vira sentindo o frio na espinha por ter sido pego no flagra por sua madrinha parada na porta do seu quarto com o pacote que continha suas drogas erguidas no alto.
— Suzy o que... E eu... — San não tinha o que dizer, estava sem palavras e sem justificativa para dar a Suzy.
— Estou tão decepcionada com você San. Por que não me ligou?
— Eu pensei em ligar, mas fiquei com vergonha.
San senta na cama e sente as lágrimas escorrendo por seu rosto. A culpa e o constrangimento o atingindo. Ele ainda sentia o tremor por seu corpo pela abstinência. A vergonha de ver Suzy ali com aquele pacote na mão nitidamente decepcionada com ele era terrível. Algo que ele jamais queria que acontecesse.
Suzy se aproxima e senta na cama ao lado de San, o puxando para um abraço.
— Poxa San. Por quê?
San não tinha uma resposta para essa pergunta. Ele havia se deixado levar, sabia desde o início que estava errado em suas atitudes. Ele a olha e percebe o olhar de ternura de Suzy sobre ele, lembrando a primeira vez que a viu em sua primeira reunião dos narcóticos anônimos há quatro anos atrás.
Suzy se apaixonou por San assim que o viu entrar naquela sala de reunião e o acolheu em um dos momentos mais difíceis da vida dele. Perdido e descontrolado, ficou desempregado e foi despejado da casa onde morava. Suzy o ajudou a se livrar das drogas e a se reerguer.
San e Suzy ficaram juntos uma vez, mas San não se permitiu ir adiante, ela era importante demais para ele para perdêla por conta de um relacionamento que poderia não dar certo. Era fácil amar Suzy. Ela é uma mulher linda, cabelo castanho liso, olhos marcantes, divertida e muito inteligente, mas San só a via como amiga. Para ela isso doía muito, mas o amor que tinha por ele era tão grande e puro que o mais importante para ela era ver San bem, o importante era estar ao seu lado, mesmo só como amiga.
— Eu não sei, quando vi já tinha acontecido.
— Ok, você tem ido as reuniões?
— Não, faz um mês que parei de ir. Estava envergonhado.
— San, não pode, sabe como isso é importante pra gente.
— É, eu sei, mas...
San olhava para seus pés e percebeu que estava usando o tênis de Juliano. Aquilo o fez sorrir, devia ter colocado sem querer quando se arrumou apressado para sair de lá e só agora havia se dado conta da grande merda que fez. Depois de toda a tarde que tiveram não deveria ter ido embora assim.
— O que está pensando? Parece distante. — Suzy alisava os cabelos de San, os notando ainda úmidos. Ela o olhava curiosa e ele a olhou com um sorriso murcho nos lábios.
— Eu acho que fiz besteira.
— Isso com certeza, San.
— Não, não sobre as drogas... — Deu um sorriso murcho e suspirou antes de continuar. — Eu estou saindo com um cara e acho que acabei de magoá-lo, se não fiz isso, com certeza causei uma má impressão.
— Então liga para ele ué.
— Não, depois eu ligo. Aliás, daqui a pouco vou vê-lo na pizzaria.
— Ah, então ele trabalha lá?
— Sim. É entregador, mas não vamos falar nele. Como você está? Não avisou que vinha.
— Estava com saudades e preocupada com seu sumiço. — Suzy se levantou e sorriu. — Imaginei que algo não estava certo. Vamos tomar um café da tarde na padaria antes de você ir trabalhar? Estou com fome.
San sentiu Suzy o puxar e sorriu a acompanhando para fora do quarto, mas antes ela parou no banheiro e fez questão de que ele a visse descartar as drogas pela privada.
Após tal ato Suzy foi para a sala onde San a esperava. Antes de sair Suzy fez carinho em Kaleu, que a seguia agitado.
— Mamãe já volta e vamos passear. Seu pai desleixado sai com você com essa guia horrorosa quase estourando? — Falou indignada ao ver a guia velha de Kaleu no chão próxima da porta.
San sorri e vê Suzy beijar a cabeça de Kaleu e em seguida eles vão para o carro e seguem para a padaria. Ele estava sentindo falta dela, do jeito animado e até das broncas que ela dava nele.
Os dois não se viam desde que San recusou ir para a cama com ela. Não que ele não estivesse com vontade, mas sim, pelo medo de estragar a grande amizade que tinham conquistado.
Após sentarem em uma mesinha, uma moça foi atendê-los e San pediu um misto quente e um café descafeinado pois o café tradicional lhe dava enxaqueca. Suzy pediu um misto frio e uma vitamina de morango.
— Faz tempo que viemos aqui, não é?
— Sim, gostava de vir aqui com você. Não devia ter ido embora.
— Sabe que foi preciso San. — Susy disse o encarando, seu olhar ainda demonstrava que estava chateada com aquela situação.
— Sim, vai voltar?
— Para morar aqui? Não, mas vou passar o fim de semana, posso né?
— Mas é claro né, que pergunta, essa casa ainda é e sempre será sua.
Os lanches chegam juntamente com as bebidas, quebrando o clima estranho que surgiu entre eles. Agora eles comiam e conversavam, relembrando histórias divertidas de quando moravam juntos.
San olha as horas em seu celular e suspira. Ao tempo mesmo que olha para fora e vê uma chuva forte começando a cair.
— Ah que ótimo, chuva no dia mais movimentado da pizzaria. Vamos? Já está na minha hora de ir trabalhar.
— Vamos, eu vou te levar lá e depois vou sair com Kaleu, vou comprar umas coisas pra ele naquele pet grandão perto do shopping ok? Ai quando você estiver saindo me liga que eu te busco.
— Tá bom. — Concordou feliz. Adorava ver como Suzy cuidava e mimava seu cãozinho, desde quando o compraram juntos.
San pagou a conta e ambos foram correndo para o carro por conta da chuva. Suzy sai dirigindo o carro e quando San vai ligar o som lembra que ela não gosta de dirigir com o som e abaixa a mão.
— Suzy, você tá namorando?
Suzy olha San, dando um sorriso murcho com o canto da boca.
— Não San. Ainda sinto o mesmo de um ano atrás. — Suspira chateada. — Na hora certa alguém vai aparecer. Não se preocupe comigo.
— Claro que me preocupo com você. Sempre vou me preocupar. Me sinto mal por tudo isso, não queria que se afastasse, nunca quis que as coisas chegassem aonde chegaram.
Suzy encosta o carro em frente à pizzaria e encara San.
— Não vamos falar sobre isso agora. — Diz observando cada detalhe do rosto de San. — Vá, não quero que se atrase por minha culpa.
— Não gasta muito com ele hein. Sei como você se empolga quando se trata do Kaleu.
Suzy ri gostosamente e bagunça o cabelo de San que odiava quando ela fazia isso.
— Para Suzy, sabe que não gosto disso. — San ajeita o cabelo com as mãos olhando pelo espelho retrovisor.
— Ah, qual é? Deixa de ser ranzinza. Você sempre tem um pente no porta luvas. — Ela direciona sua mão no porta luvas, mas San tenta a impedir. Com tudo, ela foi mais rápida e abriu a porta luvas vendo que ali havia um pino, dois cigarros de maconha e dois maços de cigarro.
San a olhou, ela estava séria e fechou a porta luvas rapidamente. Ganhando o olhar de repreensão de Suzy.
— Vai San. Vai trabalhar. — Ela desviou o olhar para a rua a frente e San a olhou com cara de culpado.
— Susy, eu vou jogar isso fora. Prometo. Eu só não faço agora porque aqui não dá.
— Depois a gente conversa San. — Disse em tom bravo.
San soltou seu cinto e aproximou-se de Suzy dando um beijo em sua bochecha, mas ela virou o rosto e ligou o carro, demonstrando estar brava mesmo.
San suspirou chateado e saiu do carro correndo da chuva e entrando no estacionamento da pizzaria, só então ele reparou que Juliano estava ali o olhando com uma cara não muito amigável ao lado de mais dois entregadores que já haviam chegado.
Eles não tinham nada sério, mas Juliano ficou intrigado por ver que havia uma mulher no carro com San, e o mais estranho, é que ela estava dirigindo e pelo que dava para ver de longe, eles estavam em uma discussão.
— Boa noite. — San passou cumprimentando os entregadores, que responderam, sem entender a cara nada boa de San.
No decorrer da noite, San notou que Juliano mal o olhava e isso o incomodou muito. San sabia que havia o chateado mais cedo e como não era nada bobo, sabia que ele poderia ter interpretado as coisas de forma errada referente a Suzy.
Quase no final do expediente, San foi ao banheiro e ao sair deu de cara com Juliano sentado jantando, ele mexia no celular e olhou para San, em seguida voltou a olhar o celular, deixando nítido que estava o ignorando.
San puxou uma cadeira e se sentou em frente a Juliano, o encarando e pensando nas palavras que deveria usar.
— Ju, Juliano me desculpa por mais cedo.
— Ok
— Só ok?
Juliano bate o celular na mesa mostrando irritação e encara San.
— O que quer que eu fale San?
— Eu... Na verdade não sei. Vamos conversar quando sair daqui?
— Pode ser. — Ele falou dando de ombros. — Mas não posso demorar. Tenho um compromisso.
— Ok. Prometo não demorar.
— Pode ser na sua casa que é mais perto.
— NÃO, na minha casa não. — San apressou-se em dizer e Juliano o encarou se levantando e guardando o celular no bolso da calça, que estava embaixo por baixo da capa de chuva.
— O problema é sua namorada?
San o olhou surpreso e confirmou que o motivo da irritação de Juliano não era apenas pela forma que saiu mais cedo e sim pelo fato de ter visto ele com Suzy quando chegou.
San não respondeu e Juliano saiu mais irritado. Quando San pensou em ir atrás lembrou que estavam na pizzaria, então respirou fundo voltando o atendimento.
Ao final da noite San fechou a porta e acionou o alarme. Quando se virou viu Juliano com os dois capacetes na mão conversando com Hélio, o segurança.
— Sobe aí? — Juliano se virou para San, lhe entregando o capacete e San se despediu de Hélio, subindo na moto e segurando em Juliano.
Juliano sai com a moto e desce a rua, com sorte a chuva já tinha parado. San não sabia exatamente para onde estavam indo, mas ficou quieto até pararem na frente de sua casa.
San desceu da moto e tirou o capacete, pensando se o chamava ou não para entrar. Sabia que Suzy faria mil perguntas e corria o risco de contar sobre as drogas.
— O que quer falar?
— Primeiro a Suzy não é a minha namorada, e sim minha madrinha. — San estava decido a contar tudo para Juliano e esperava que isso não o afastasse.
Juliano ri de forma irônica olhando San e cruza os braços encostado na moto em uma pose tão sexy.
— Para San, ela deve ter a sua idade, não pode ser sua madrinha. Não sei qual é a sua, mas eu não tenho cara de idiota. Por isso quis vir embora, não é? Era por causa dela.
— Para Juliano, vai me escutar ou não? — San alterou um pouco a voz, estava sentindo aquela vontade enorme das drogas e isso sempre o deixava irritado e com Juliano falando aquelas coisas não estava ajudando. Juliano subiu na moto, demonstrando sua intenção em ir embora e San segurou seu braço, o impedindo. — Desculpa. Mas me escuta, por favor. — Pede com a voz baixa e um olhar pidão.
Juliano ainda sentado na moto cruza os braços novamente o olhando.
— Eu sou um ex viciado em drogas e Suzy é minha a madrinha. Ela me ajudou a sair da merda e do vício, nós somos amigos nada mais que isso. Eu saí da sua casa apressado mais cedo porque tive uma pressão por falta da droga e por pânico, não pra encontrar com ela. Quando eu cheguei em casa, ela já estava aqui. Ela tem a chave.
Juliano o olhava quieto e pensativo, analisando tudo o que San dizia. Estava se sentindo um idiota por ter pensado as coisas que pensou, mas quem não pensaria? Se tinha algo que Juliano não curtia era mentira. Se San tinha uma namorada deveria contar, e outra coisa ele não é gay? Eram os pensamentos dele até aquele momento.
— Desculpa, San. Mas porque não me contou isso? Eu poderia ter ajudado de alguma forma.
Medo uai, já perdi muita gente especial na minha vida por causa disso.
Juliano ainda em cima da moto, notou que a chuva voltara a cair, mas eles não se importaram com isso. Juliano o abraçou, fazendo San se sentir confortável em seus braços. Eles se olharam brevemente e San beijou Juliano que retribuiu o beijo. A chuva caia forte agora e San o olhou rindo pela situação, que para ele parecia cena de filmes.
— É melhor você entrar, vai acabar ficando doente.
Assim que disse isso o portão social abriu e eles viram Suzy parada olhando os dois. Juliano a olhou dos pés à cabeça, conseguindo ver que linda mulher ela é. O corpo magro, mas com belas curvas, os cabelos longos e lisos caídos por seus ombros. Ela usava um short curto de pijama, que permitiu que ele admirasse as coxas grossas de Susy, que estava com os braços cruzados na frente do corpo.
— Puta que pariu San. Por que não me atende? — Ela resmungou os olhando.
San tateou o bolso à procura do seu celular e não o encontrou.
— Droga, eu o deixei na pizzaria. Desculpa Ma.
— Tudo bem, fiquei pensando que... Nada não. — Ela parou o que ia dizer e olhou na direção do motoqueiro nas costas de San. — Você deve ser o Juliano. Por que estão aí fora na chuva? Entrem.
Eu só vim deixar ele e já estou indo. Obrigado!
— Toma cuidado ok? — San pediu a Juliano que lhe deu uma piscadela.
— Sempre tomo.
Juliano selou os lábios de San, colocou o capacete e saiu rua afora. Assim que viu Juliano virar a rua, San entrou e Suzy fechou o portão.
— Pelo visto ele não estava tão chateado.
— Estava sim, mas contei para ele o porquê vim embora e quem é você e tudo se resolveu.
— Ok, agora vai San, direto tomar um banho quente antes que adoeça. — Disse em seu tom mandão, tirando um sorriso de San, que sentia falta de sua amiga naquela casa.
San foi direto ao banheiro tirando as roupas molhadas pela sala. Ouvindo Suzy resmungar e riu fechando a porta do banheiro, tirou por último a cueca e largou no chão e entrou no banho quente, deixando a água cair por seu corpo e pensando no dia cheio e maravilhoso que teve, mas agora se sentia inseguro em relação a Juliano, com medo de que o loiro o rejeitasse por saber seu problema com as drogas e nem sabia de...
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Atualizado até capítulo 29
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