Me enrolei no edredom sentindo pena de mim mesmo, eu era um pai 100% do meu tempo e quando Sabrina pegava meus filhos me sentia vazio, sem propósito. É estranho, mas ser pai era a única coisa que estava fazendo da minha vida, eu transava com mulheres que nunca serão nada além de amantes, queria as vezes ligar para Gil para ver como ele estava indo no Canadá, mas não tinha coragem e também pensei em sair a noite, sem planejamento para ver como me sairia diante a pessoas novas — porém, com minha falta de jeito temia cair em algum golpe da noite e ser execrado socialmente — não era uma opção. Resolvi colocar minha leitura em dia, dispensei Cláudia ontem assim que Sabrina confirmou que pegaria Estela e Ben. Coloquei uma música dos Paralamas do Sucesso baixinho, me fazendo lembrar da juventude, dos amigos de escolas, das farras dos anos noventa e dois mil que nunca voltarão.
- Oi, Paola? – resolvi atender por ser uma vizinha que mal me liga.
- Túlio, você está em casa?
-Sim.
- Que bom, seu vizinho de frente está estendido na piscina. Acho que caiu e até agora não levantou. Estou com Gael aqui e não posso ir lá , meu marido está no trabalho...
Dei um pulo da minha poltrona massageadora. Ela disse aquelas palavras e sem entender quem realmente era — vizinho de frente poderia ser Vick e Carlos olhando pela sacada dela.
- É seu Carlos?
- Não, é o Vinícius!
- Darei uma olhada. Só um momento.
Peguei uma blusa e coloquei assim como meu chinelo e sai escada a baixo abrindo a porta principal da minha casa e segui até a porta de Vinícius. Depois pensei que se ele está desacordado seria impossível ele atender. Resolvi ver o portão do lado de madeira quadriculada e estava destrancada, poupando meu tempo em pular ou voltar para trás para pegar uma escada. Após passar por um monte de tranqueira no corredor externo, o vi sentado com a cabeça baixa nem percebendo minha presença, mas depois:
- Jesus!
- Calma!
Ele realmente levou um susto comigo em seu quintal cheio de sabão, muito sabão. Estava tudo muito escorregadio e antes que pudesse chegar nele fui vítima daquele sabão todo, antes dele gritar “cuidado” eu já estava no chão.
- Me perdoe! Consegue levantar?
Levantei com a bermuda toda molhada e comecei a rir da minha situação e da dele.
- Mas por que desse sabão todo?
- Eu me empolguei, eu acho. Essa piscina estava tão suja que resolvi lavar ladrilho por ladrilho dela.
- Existem produtos mais eficazes para a limpeza de uma piscina, Vinícius. Você está bem? Paola disse que estava desacordado!
- Estou, eu bati minha cabeça com tudo e fiquei olhando o azul do céu para aproveitar o tombo. Desculpa por fazer você se preocupar, mas parece que esse e condomínio existem olhares para todos os lados.
- Isso é verdade! É um condomínio feito encima de um morro e as casas foram feitas uma perto da outra, no final se perde a privacidade, mas a vista é linda!
- Com certeza. Cuidado para não cair de novo!
- Pode deixar.
- Acho que luxei o meu pé.
- Posso? — disse sentando na beirada da piscina sem vontade nenhum de sair dali naquela área escorregadia.
Ele fez uma cara um tanto sofrida quando apertei seu pé.
- Dói tudo, até minha cabeça está doendo.
- Quer ir ao hospital, aproveita que estou sozinho em casa e de carro. Posso te levar lá.
- Eu passo um remédio que eu tenho no armário. Tenho que terminar isso aqui. Descobri que não sou um bom limpador de piscinas.
- Acho que não conhece o produto certo para isso! Eu posso te ajudar se quiser!
- Não precisa, já te fiz cair e se preocupar comigo.
- É a vizinha que me ligou falando de você desacordado, atenderei.
Falei com Paola e acenamos para ela que estava em sua sacada, sei que passei aquela manhã com Vick, tirando estrategicamente o sabão da área de azulejo crespo e ele preparou uma caipirinha para a gente e há um tempo não sei o que era beber tão cedo; ele era bom nisso, pegou salame, alguns queijos e ficamos ali jogando conversa fora e ele sempre se esquivando de seu passado e seus olhares profundo me diziam que ele esconde muita coisa e olhando bem para ele, dava para entender que o mundo de Fabi era a única coisa que os ligava, mas não era meu direito encurrala-lo.
- Você disse que estava pensando na sua mãe? Por que não liga para ela, fala para ela vim um dia para cá.
- Não é bem assim. Meu pai me odeia e meus irmãos perfeitos são seus únicos filhos vivos a ponto de ser o único sem um destino ainda.
- Como assim?
- Dos cinco irmão que tenho, sou o único gay, o único que não é casado e que não tem filhos e uma religião. Eu sou a ovelha negra da família e quis sair do Mato Grosso e fui para São Paulo estudar balé. Não é uma coisa que eles esperavam que eu fizesse tão cedo.
- Eu posso ir no seu banheiro?
- Sim. O daqui de fora está sem água, mas o do corredor está limpo. Pode ir lá.
- Já volto.
Me senti desconfortável com o charme de Vinícius, ele sem querer conseguia ser ótimo ouvinte e, às vezes, me encarava me olhando nos olhos e quando ele finalmente sentou, seu aspecto jovem e sorriso marcante era um gatilho para minha solidão tão enraizada após a morte de Solange.
- Você está bem Túlio?
- Sim. Vamos almoçar? Digo, eu tenho comida pronta feita pelo meu anjo chamado Cláudia, ela fez bife a parmegiana e deixou na geladeira. Vamos lá em casa almoçar.
- Tem certeza?
- Por quê? — Me senti um tanto confuso, mas logo ele mudou seu semblante para mais receptivo.
- Tá, eu vou. Eu vou trocar a bermuda e bato lá!
- Ok. Vou esquentar nossa comida. Não precisa levar nada e estarei te esperando.
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Atualizado até capítulo 93
Comments
NEIVA De souza
ita que o bicho vai pegar 🔥🔥🔥
2023-04-12
1
claudiapal Santos
🤗🤗🤗🤗
2022-10-25
1
Denise Sousa
Aiai kkkkk
2022-05-22
2