Fiquei umas dez minutos numa fila do McDonald’s para pegar uma bendito brinquedo que Estela queria – tive que esperar eles pegarem no depósito as peças de um joguinho que ela juntava havia um mês. Eu gostava da maneira que Vinícius se comportava na frente de meus filhos; ele conversava normalmente com Estela e isso valia muito para um pai. Pedi o meu lanche e depois que voltei Vick – ele pediu muito para chamá-lo assim – foi atrás do dele e ele veio com um hambúrguer gigante que meus filhos roubaram as batatas extras todas dele.
- Perdeu a batata! E eu aqui, pegando maçã que eles nem comem. Difícil.
- É criança, você não comia comida saudável na infância, comia?
- Bem, eu..., não. Eu era gordinho e vivia sobrevivendo ao Bullying. Eu cresci numa família branca, e estudei em bons colégios mais eu sempre fui moreno e minha mãe Argentina, imagina...Eu pensei que você tivesse mais condições. Foi difícil chegar onde você chegou não é?
- Eu vim de uma família humilde, eu não tive tanto privilégios na vida. Eu sempre fui apaixonado por dança e consegui uma bolsa de estudos quando sai do ensino médio.
- E como foi o balé?
- Eu sempre quis algo nesse estilo, sabe, queria dançar, adorava imitar passos na televisão e minha tia...
- A Leila Conrado?
- É. Ela me deu uma chance de estudar. Mas nunca tive muito contato com ela.
- Beth conhece as pessoas daquele condomínio, só Fabiane que se perdeu. É muito triste, podia ter tudo, estudar fora, casar, ter uma vida... Desculpa, quem sou eu, talvez não precisasse casar e nem eu julgar os outros. Estupidez minha, perdão!
- Ela sempre foi louca! Acho que existe algo que não bate na história dela. Como você disse, quem somos nós!
- Vinícius, desculpa, Vick, vou pegar uma colherzinha nova e já volta, só passa o olho neles por favor e logo ali.
Fui rapidamente e a atende me deu com copo para meu cascão.
Foi bom ter outra campainha para conversar como adulto. Solange gostava de ir no Rio-Sul às sextas e dormíamos na casa da mãe dela. Vick era jovem demais e isso poderia me colocar em apuros, não queria deixar transparecer mais do que já fazia com o meu interesse. Fiquei realmente admirado com a maneira que Estela conversava com ele e o olhava nos olhos e ele também, mas isso deveria apenas ser a minha observação.
- Voltei. Vai para casa depois daqui. Eu posso te levar.
- Se não for incomodo.
- Não, não é.
- Quero sim.
Sai daquele shopping parecendo pai de três crianças, Vick com uma roupa tirada de um São Paulo Fashion Week, e blusa xadrez amarada na cintura, calça bah preta e regata – seus cabelos mais claros do que antes e um porte de modelo correndo segurando meus filhos e brincando com eles a ponto de ter que olhar para ele parar de atiçar meus filhos agitados.
- Desculpa Túlio, há um bom tempo não sei o que é uma criança. Eu descobri que a gente vira uma perto delas.
- Sem problemas! Não tem família?
Ele pensou um pouco. O que responder, de algum modo achei ele vago em relação aos Guimarães e acredito que exista uma versão que ele precisa usar para ficar naquela casa. Enfim, rolo de Fabi.
- Eu sou homossexual, Túlio.
- Isso eu já sei.
- A minha família não me aceita muito. Minha mãe chegou a ligar para mim e eu para ela, mas ter uma relação de mãe para filho é difícil quando meu pai é membro da Assembleia de Deus.
- Entendo. Eu sinto falta de uma família, sabia. De casa cheia, de parentes e meus irmãos segue o mesmo pensamento do meu pai, tem suas famílias e é isso.
- Vamos! Pode sentar no carona, tenho que arrumar eles nas cadeirinhas.
- Certo.
- Preciso tirar carteira de motorista. É uma vergonha um homem como eu não saber dirigir. Meu pai ensinou para todos os meus irmãos, mas como eu era diferente na cabeça dele, ele sempre me deixava para escanteio.
Olhando ele com vento batendo em seu rosto me deu saudade dos tempos onde curtia praia e tinha um comportamento leve e sereno. Desisti de pedir para fecha-las para ligar o ar condicionado. Ele estava longe as vezes, transparência uma seriedade de quem era o único responsável por si mesmo desde cedo.
- Pode ligar o rádio. Quer que eu feche a janela?
- Não. Você está pensativo e eu não queria atrapalhar.
- Que nada! Fecharei pelas crianças e sem falar que está tarde e vamos passar um uma favela.
Ele fechou a janela e eu coloquei uma playlist lounge, sertaneja e reggae, era o que eu escutava e logo ele se empolgou com uma música e as crianças também, sabe aquelas sofrências chicletes, era exatamente elas que estavam tocando e quando começou a 10% de Maiara e Maraísa, os dois se empolgaram.
“ Aí 'cê me arrebenta!
E o coração não 'guenta
E os dez por cento aumenta”
E Estela seguia seu mais novo mestre de bagunça e cantoria. Quando chegamos no meu portão ele estava visivelmente envergonhado com suas performances e desenvoltura.
- Desculpa, mas há um bom tempo que não escuto essa música, valeu mocinha, somos uma ótima dupla sertaneja. Boa noite para vocês, deixa eu pegar minhas sacolas aqui.
Eu não queria deixá-lo partir, mas os olhares maldosos logo contaria a ele que já tive uma caso comum homem quando minha esposa estava doente. Não queria ser julgado por ele e muito menos demostrar uma animação de minha parte em conhecer aquele garoto, sim ele era uma garoto ainda e tinha seus traumas e vida para resolver – não era meu direito tirá-lo do seu mundo e fazer conhecer o meu que para mim se mostrava bem estranho ainda mais no quesito relacionamentos.
- Tchau vizinho!
- Tchau vizinho!
- Vocês devem ter aprontado muito em São Paulo! – disse sem pensar e ele sorriu virando para sua frente e seguiu entrando para dentro de casa.
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Atualizado até capítulo 93
Comments
Roseane Pereira
/Proud//Proud//Proud//Proud//Proud/
2024-02-05
0
claudiapal Santos
🤩🤩🤩
2022-10-25
2
Ana Paula
adorando
continua
2022-04-27
1