Nas terras isoladas de Serra Negra, onde a neblina nunca se desfaz por completo e o vento sopra como lamentos abafados, existe um lago que os nativos chamam de Poço da Morte. Suas águas não são azuis nem claras — são escuras, opacas, de um tom verde-acinzentado que parece absorver toda a luz que toca sua superfície. Não há peixes, não há plantas, não há vida ao seu redor, apenas terra seca e árvores retorcidas que parecem observar quem se aproxima. Qualquer ser que toque essa água nunca retorna vivo; o lago não apenas mata, ele consome, deixando para trás apenas o vazio.
A origem dessa maldição se perdeu no tempo, mas os mais velhos contam que, há séculos, um grupo de feiticeiros hereges foi executado ali, e seu sangue e sua magia negra se misturaram à água, transformando-a em um receptáculo de dor e ódio eternos. A água não apenas afoga: ela suga a alma, rasga a carne e aprisiona o espírito para sempre, em um sofrimento sem fim. Os corpos que por acaso surgem nas margens não parecem ter morrido de afogamento — têm os olhos vazios, a pele enrugada como se tivessem sido drenados de tudo o que os fazia humanos, e uma expressão de terror que nunca se apaga.
Ninguém de Serra Negra chega perto do Poço da Morte. Eles evitam até olhar em sua direção, pois dizem que, se você ficar olhando por muito tempo, a água começa a chamar o seu nome, com vozes de quem já foi levado. Mas a maldade do lago não espera: ele atrai os incautos, os teimosos, os que não acreditam no que não podem ver.
Em uma madrugada sob um céu sem estrelas e uma escuridão que parecia pesar sobre o mundo, um homem chamado Thiago chegou à beira do lago. Ele era um viajante, que ouvira falar da lenda e rira dela, achando que era apenas história para afastar intrusos. Ele queria provar que era forte, que a água não passava de água, e que o medo era apenas uma fraqueza dos fracos.
Ele não ouviu os avisos dos moradores, não viu as árvores que pareciam se inclinar para longe da margem, não sentiu o ar frio que cortava a pele como lâmina. Tirou suas roupas, sentindo o chão úmido e gosmento sob os pés, e deu o primeiro passo.
A água não estava fria — estava quente, como sangue recém-derramado. Ao tocar sua pele, ele sentiu uma ardência súbita, como se mil agulhas perfurassem seu corpo ao mesmo tempo. Ele tentou recuar, mas seus pés estavam grudados no fundo, como se a água tivesse se transformado em cimento vivo que o puxava para baixo. Ele abriu a boca para gritar, mas nenhum som saiu — apenas uma gosma escura entrou em sua garganta, enchendo seus pulmões com um gosto de podridão e ferro.
A superfície da água se moveu, não com ondas, mas como se algo vivo se abrisse para recebê-lo. De dentro das profundezas, subiram mãos: dezenas, centenas de mãos, pálidas, com dedos longos e unhas sujas, que agarraram seus braços, suas pernas, seu pescoço, seu rosto. Elas não apenas puxavam — elas apertavam, rasgavam, quebravam. Thiago sentiu seus ossos estalarem, sua carne ser arrancada em pedaços pequenos, enquanto as vozes dos mortos sussurravam em seus ouvidos, uma sinfonia de dor e desespero que ele nunca poderia escapar.
Ele olhou para cima, para a escuridão que ainda era o mundo exterior, e viu a superfície da água se fechar sobre ele, como uma boca que engole sua presa. A dor foi tão intensa que pareceu durar uma eternidade, e no momento em que sua visão escureceu, ele não encontrou descanso — apenas a consciência eterna de ser apenas mais uma peça no fundo do Poço da Morte, mais uma alma presa para sempre, esperando por uma nova vítima para arrastar consigo.
Na manhã seguinte, Serra Negra estava em silêncio absoluto. Não havia roupas na margem, não havia pegadas, não havia corpo. A água continuava escura, parada, sem uma única ondulação, como se nada tivesse acontecido. O Poço da Morte estava satisfeito, mas apenas por um tempo. Pois a fome da água não tem fim, e ela sempre espera o próximo que tiver a coragem tola de desafiá-la.