A chuva caía tão forte naquela noite que parecia querer arrancar o morro inteiro do lugar. As escadas escorregadias brilhavam sob os postes falhando, e o vento fazia os fios elétricos cantarem um som fino, quase humano.
No alto da comunidade existia uma casa abandonada.
Ninguém passava perto dela depois das onze.
Não porque era ponto de traficante.
Não porque tinha assalto.
Mas porque diziam que a casa respirava.
Foi isso que ouvi pela primeira vez da boca de dona Celeste, uma velha que vendia café perto da subida principal.
— Aquela casa tá viva… e quem entra lá não volta inteiro.
Eu ri.
Claro que ri.
Tinha dezessete anos, uma câmera velha no bolso e a mania idiota de achar que nada no mundo podia me assustar.
Meu nome é Gabriel. E essa foi a pior decisão da minha vida.
Tudo começou por causa de um vídeo.
Na internet tinha uma febre de explorar lugares abandonados. Quanto mais amaldiçoado o lugar parecia, mais visualização dava. E eu precisava daquilo. Precisava crescer, ganhar dinheiro, sair do morro.
Então pensei:
“Por que não gravar a tal casa?”
Todo mundo falava dela.
A Casa do Fim da Rua.
Diziam que uma família inteira morreu lá dentro nos anos noventa. Pai, mãe e duas crianças. Uns falavam que foi chacina. Outros diziam que o pai enlouqueceu e matou todo mundo antes de arrancar a própria garganta com uma faca de cozinha.
Mas tinha uma história pior.
A mais repetida.
A de que ninguém encontrou os corpos.
Só o sangue.
Sangue nas paredes.
No teto.
Na pia.
No berço.
Como se as pessoas tivessem simplesmente… desaparecido.
Na sexta-feira eu subi sozinho.
Levei lanterna, câmera e coragem falsa.
Quanto mais eu subia o morro, mais silencioso tudo ficava. Nenhum funk. Nenhuma moto. Nenhum cachorro latindo.
Só chuva.
E aquele vento estranho.
Quando cheguei na frente da casa senti o estômago gelar.
Ela era maior do que eu imaginava.
Velha. Podre. As paredes cobertas de mofo preto. As janelas pregadas com madeira apodrecida. E tinha uma coisa errada ali.
O cheiro.
Não era cheiro de casa abandonada.
Era cheiro de carne estragada.
Levantei a câmera.
— Fala, rapaziada… hoje eu tô aqui na famosa Casa do Fim da Rua…
Minha voz saiu tremendo.
A porta da frente já estava aberta.
E isso me incomodou.
Porque todos diziam que ninguém entrava ali.
Empurrei devagar.
A porta gemeu.
CRAAAAAAC.
O som ecoou pela casa inteira.
Foi aí que ouvi.
Passos no andar de cima.
Parei.
Meu coração começou a bater tão forte que parecia soco dentro do peito.
— Tem alguém aí?
Silêncio.
Depois…
TOC.
TOC.
TOC.
Passos lentos.
Como alguém andando descalço sobre madeira molhada.
A lanterna tremia na minha mão.
Eu devia ter ido embora.
Mas continuei.
O corredor estava cheio de retratos antigos. Fotos destruídas pela umidade. Só que em uma delas dava pra ver uma família.
Pai.
Mãe.
Dois filhos.
Todos sorrindo.
Menos a menina.
Ela olhava direto pra câmera.
E os olhos dela…
Meu Deus…
Os olhos estavam completamente pretos.
Um trovão explodiu lá fora.
A luz da lanterna piscou.
Quando iluminou a foto de novo…
A menina não estava mais nela.
Meu corpo inteiro gelou.
— Não… não, não…
Comecei a respirar rápido.
A câmera ainda gravava.
Então ouvi uma voz.
Baixinha.
Atrás de mim.
— Mamãe disse pra você ir embora…
Virei tão rápido que quase caí.
Não tinha ninguém.
Mas o cheiro ficou mais forte.
Podre.
Quente.
Como algo morto há muito tempo.
Subi as escadas mesmo assim.
Cada degrau fazia barulho.
CREC.
CREC.
CREC.
No topo tinha um corredor escuro.
Quatro portas.
Uma delas aberta.
Entrei.
Era um quarto infantil.
Bonecas velhas espalhadas pelo chão. Uma delas estava sem cabeça. Outra tinha a boca costurada com linha preta.
No canto do quarto havia um berço.
E dentro dele…
Algo se mexeu.
Apontei a lanterna.
Vazio.
Mas ouvi respiração.
Bem perto do meu ouvido.
— Você demorou…
Corri.
Saí do quarto tropeçando.
As luzes da câmera começaram a falhar.
A tela piscava.
Interferência.
E então apareceu uma imagem.
Uma mulher parada atrás de mim.
Alta.
Magra.
Com os braços compridos demais.
Ela sorria.
Um sorriso aberto até as bochechas.
Virei desesperado.
Nada.
Mas a câmera continuava mostrando ela.
Atrás de mim.
Sempre atrás.
Comecei a chorar.
Não de tristeza.
De puro terror.
Corri até as escadas, mas a casa tinha mudado.
O corredor parecia maior.
Mais comprido.
As portas agora eram dezenas.
E todas começaram a bater ao mesmo tempo.
BAM.
BAM.
BAM.
BAM.
As paredes vibravam.
As crianças começaram a rir.
Eu conseguia ouvir.
Risadas infantis vindo de todos os lados.
— Fica com a gente…
— Não vai embora…
— Mamãe tá com fome…
A temperatura caiu de repente.
Meu ar virou fumaça.
E então eu vi ela.
No fim do corredor.
A mulher.
Muito alta.
A cabeça torta pro lado.
Vestido branco sujo de sangue.
Os olhos completamente negros.
E a boca…
Meu Deus…
A boca dela abria devagar… devagar… até ficar grande demais pra um ser humano.
Ela começou a andar na minha direção.
Os braços arrastando no chão.
CRAAC.
CRAAC.
Os ossos estalavam enquanto ela vinha.
Tentei correr.
A escada desapareceu.
A casa respirava.
As paredes pulsavam como carne viva.
E aquela coisa vinha chegando.
Mais rápido.
Mais rápido.
Mais rápido.
Então senti mãos pequenas segurando minhas pernas.
Olhei pra baixo.
As duas crianças.
Pálidas.
Molhadas.
Sorrindo.
A menina abriu a boca.
Líquido preto começou a escorrer.
— Mamãe escolheu você…
A mulher apareceu na minha frente.
Tão perto que consegui sentir o cheiro dela.
Terra molhada.
Sangue.
Carne podre.
Ela segurou meu rosto com dedos gelados.
E sussurrou:
— Agora você mora aqui.
A câmera caiu no chão.
A gravação terminou ali.
Encontraram o vídeo três dias depois.
A polícia entrou na casa.
Não encontraram ninguém.
Nem meu corpo.
Só a câmera.
E marcas de unhas nas paredes.
Como se alguém tivesse tentado sair desesperadamente.
Hoje a casa continua lá.
Abandonada.
Respirando.
E às vezes, quando chove forte no morro… dizem que dá pra ouvir uma voz vindo das janelas:
— Não entra aqui… ela ainda tá com fome…