Alice...
Meu nome é Alice. Tenho 15 anos.
Se alguém tivesse me perguntado, alguns meses atrás, como era minha vida, eu diria que era comum… até tranquila.
Eu morava na cidade grande. Um lugar onde o silêncio não existe — carros passando, pessoas conversando, música atravessando as paredes. Eu gostava disso.
Me fazia sentir viva.
Parte de algo.
Mas tudo mudou.
Meus pais se separaram.
Não teve grito. Não teve escândalo.
Só silêncio.
Um silêncio pesado… que parecia preencher todos os espaços da casa. E continuou ali, mesmo depois que tudo acabou.
Foi assim que eu vim parar no interior, morando com meu pai.
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A cidade era pequena.
Pequena demais.
As ruas ficavam vazias cedo. As casas tinham janelas sempre fechadas. E as pessoas…
Elas falavam pouco.
Evitavam olhar diretamente nos olhos.
Como se soubessem de algo que eu não sabia.
Eu senti isso no primeiro dia.
A sensação de que eu não pertencia àquele lugar.
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A escola não ajudou.
O prédio era antigo, com paredes manchadas e rachaduras finas que pareciam crescer a cada dia. As janelas eram altas demais, e a luz que entrava era fraca… quase doente.
Os corredores eram longos.
E o eco dos meus passos parecia alto demais.
Como se eu não devesse estar ali.
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Foi lá que conheci Laura e Camila.
— Você é nova, né? — Laura perguntou, sorrindo.
Foi um alívio.
Finalmente alguém normal.
Em poucos dias, já andávamos juntas.
Até que, numa tarde, o assunto surgiu.
— Você já ouviu falar do que aconteceu aqui? — Camila perguntou, baixando a voz.
— O quê?
Laura olhou ao redor antes de responder:
— Um massacre.
Eu ri.
— Sério? Vocês ainda acreditam nessas histórias?
— Não é história — ela disse, séria. — Muita gente morreu aqui dentro.
— E dizem que alguns nunca foram embora… — completou Camila.
Revirei os olhos.
— Isso não existe.
Naquele momento…
Eu realmente acreditava nisso.
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O ritual aconteceu numa tarde nublada.
O céu parecia pesado. O vento entrava pelas janelas abertas, arrastando o cheiro de poeira pelo chão.
— É só uma brincadeira — disse Laura. — Pra abrir o terceiro olho.
— Pra ver coisas que ninguém vê — completou Camila.
Eu ri.
— Tá bom. Vamos lá.
Mas, na hora…
Elas recuaram.
— Melhor não…
— Vai que dá errado…
No fim…
Só eu fiz.
Sozinha.
Ajoelhei no chão frio. O giz arranhava a superfície áspera enquanto eu desenhava o símbolo. O som era seco… incômodo.
Segui as instruções.
Falei as palavras.
Esperei.
Nada.
Levantei, soltando uma risada curta.
— Eu sabia.
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Mas naquela noite…
Tudo começou.
Primeiro, vultos.
Rápidos. Sempre no canto do olho.
Depois…
Sussurros.
Baixos.
Próximos demais.
Como alguém respirando no meu ouvido.
— Alice…
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No banheiro da escola, eu vi.
No espelho.
Uma mulher atrás de mim.
Parada.
Imóvel.
Me observando.
Meu corpo travou.
Eu virei na mesma hora.
Nada.
Quando olhei de volta…
Ela não estava mais lá.
Meu coração batia tão forte que doía.
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Quando contei para Laura e Camila…
Elas riram.
— Para de inventar, Alice.
— Você tá exagerando.
Naquele momento…
O medo mudou.
Porque não era mais só sobre o que eu via.
Era sobre estar sozinha.
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Naquela noite…
Ele apareceu.
Eu estava sentada na cama quando o ar ficou frio.
Pesado.
Olhei para a porta.
E ele estava lá.
Um garoto.
Pálido. Magro. Olhos fundos… mas diferentes dos outros vultos.
Ele parecia… consciente.
— Você não devia ter feito isso — ele disse.
Minha voz falhou:
— Quem… é você?
— Daniel.
Ele hesitou.
— Eu morri naquela escola.
Engoli seco.
— Como?
Ele desviou o olhar.
— Eu não sei.
Aquilo me gelou por dentro.
— Eu não sei quem me matou.
Silêncio.
Então ele me encarou.
— Mas você pode descobrir.
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A investigação virou uma obsessão.
A biblioteca da escola era abafada, escura… esquecida.
O cheiro de papel velho e mofo era forte.
Os livros quase se desfaziam ao toque.
Eu passava horas ali.
Folheando jornais antigos.
Lendo registros esquecidos.
Anotando tudo.
Até que encontrei.
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Massacre — 1893.
Mais de vinte alunos mortos.
Sem culpado confirmado.
Mas havia suspeitos.
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Augusto Barros (zelador)
Uma foto antiga estava anexada ao registro. Todos os funcionários olhavam para a câmera.
Menos ele.
Os olhos estavam baixos.
Como se escondesse algo.
Outro trecho dizia:
“Zelador ouvido discutindo com alunos dias antes do ocorrido.”
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Helena Duarte (professora)
Havia uma carta.
Amarelada.
Escrita por um aluno:
“Ela nos punia por coisas pequenas. Tínhamos medo até de respirar perto dela.”
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Miguel Ferraz (aluno)
Relatórios mencionavam brigas constantes.
Um deles dizia:
“Se algo acontecer, foi ele. Ele sempre disse que alguém iria pagar.”
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Tudo apontava para alguém instável.
Alguém perigoso.
Eu já tinha escolhido.
Até ver outro nome.
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Eduardo Vasconcelos (diretor)
Tudo sobre ele era perfeito.
Cartas de agradecimento.
Relatos de carinho.
Respeito.
Uma frase me chamou atenção:
“Ele cuida de nós como se fôssemos dele.”
Aquilo… soou estranho.
Mas ignorei.
Claro que não era ele.
Nunca é o cara bom.
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Eu estava errada.
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Depois de dias investigando, cheguei à conclusão.
— Foi o Augusto — eu disse a Daniel. — Tudo aponta pra ele.
Daniel ficou em silêncio… e assentiu.
— Faz sentido.
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Naquela noite, fiz o ritual.
As velas iluminavam fracamente meu quarto.
A chama tremia sem vento algum.
Os papéis da investigação estavam espalhados ao redor do símbolo desenhado no chão.
Meu coração batia rápido.
Muito rápido.
Daniel estava parado no canto do quarto, observando em silêncio.
Peguei o fósforo com mãos trêmulas.
Acendi.
O fogo começou pequeno.
Lento.
Consumindo as bordas dos papéis antigos.
As letras escureciam.
Os nomes desapareciam.
A fumaça subia devagar.
Grossa.
Pesada.
Então comecei a repetir as palavras do ritual:
— “O que foi preso será libertado…”
A chama aumentou.
As sombras do quarto começaram a se mover pelas paredes.
— “O que sofreu encontrará descanso…”
O ar ficou gelado.
Meu corpo inteiro arrepiou.
Daniel fechou os olhos lentamente.
— “Que a alma injustiçada atravesse a porta…”
As velas apagaram ao mesmo tempo.
O quarto mergulhou na escuridão.
Por um segundo…
Achei ouvir dezenas de vozes sussurrando junto comigo.
Então Daniel abriu os olhos.
E sorriu pela primeira vez.
Um sorriso triste.
Aliviado.
— Obrigado… — ele sussurrou.
E desapareceu.
Eu achei que tinha acabado.
Mas eu só tinha piorado tudo.
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Naquela madrugada…
Eu acordei.
Sssscrrraatch…
O som vinha debaixo da cama.
Lento.
Como unhas sendo arrastadas na madeira.
Depois… na parede.
Depois… na porta.
Olhei para o braço.
Três cortes.
Abertos.
Ardendo.
Meu corpo travou.
Sombras começaram a surgir.
Uma.
Duas.
Várias.
Me cercando.
Eu tentei gritar.
Nada.
A porta não abria.
Eu estava presa.
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— Alice…
E tudo ficou escuro.
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Quando acordei…
Eu estava na escola.
No terraço.
O lugar do massacre.
O vento era forte.
Gelado.
As grades enferrujadas rangiam devagar, como se algo as empurrasse do outro lado.
O céu estava completamente coberto por nuvens escuras.
Nem a lua aparecia.
Os cortes no meu braço ainda queimavam.
Então não era sonho.
Era real.
Minha respiração saía falhada enquanto eu olhava ao redor.
As sombras estavam ali.
Paradas nos cantos.
Observando.
Dezenas delas.
Como alunos esperando alguma coisa.
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Minhas mãos tremiam tanto que mal consegui pegar o giz no chão.
Mas comecei mesmo assim.
O símbolo precisava ficar perfeito.
Cada linha.
Cada curva.
O giz arranhava o concreto molhado num som horrível:
Ssscrrratch…
Ssscrrratch…
O vento aumentou.
As luzes da escola começaram a piscar lá embaixo.
E então…
A voz surgiu atrás de mim.
— Você errou.
Meu corpo inteiro gelou.
Virei lentamente.
E vi Eduardo Vasconcelos.
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Mas aquilo… não era humano.
O rosto parecia quebrado.
Como porcelana rachando aos poucos.
Os olhos eram fundos demais.
Escuros demais.
E o sorriso…
Grande.
Aberto até onde não deveria.
Como se a pele estivesse rasgando.
Ele inclinou a cabeça devagar.
— Você libertou o espírito errado, Alice.
Meu coração disparou.
— Foi você…
Ele sorriu mais.
Os ossos do rosto estalaram.
— Eu cuidei deles…
A voz dele começou a falhar.
Fina.
Grossa.
Como várias pessoas falando ao mesmo tempo.
— Até perceber que ninguém deveria sair daqui.
O vento ficou mais forte.
As sombras começaram a se mover atrás dele.
Como se respondessem à presença dele.
— Por quê?! — gritei.
Ele abriu os braços lentamente.
— Porque eles me pertenciam.
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Ele avançou.
Corri para trás.
Tarde demais.
Eduardo me derrubou no chão com força.
Minha cabeça bateu no concreto.
A dor explodiu na minha visão.
As mãos dele apertaram meu pescoço.
Geladas.
Fortes demais.
O ar começou a faltar.
Eu arranhava os braços dele tentando escapar… mas era inútil.
Minha visão começou a escurecer.
Desespero.
Então minha mão tocou alguma coisa no chão.
Um pedaço quebrado de vidro.
Afiei os dedos nele imediatamente.
Sem pensar.
Sem escolha.
Passei o vidro pelo meu braço.
A dor queimou como fogo.
Quente.
Violenta.
O sangue começou a escorrer rápido pela pele.
Eduardo arregalou os olhos.
— NÃO!
Empurrei meu corpo para frente.
Deixando o sangue cair sobre o símbolo desenhado no chão.
Uma gota.
Duas.
Várias.
O desenho começou a brilhar num vermelho fraco.
As sombras ao redor começaram a gritar.
Não como pessoas.
Como algo quebrado.
Antigo.
Errado.
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E então comecei o ritual verdadeiro.
Minha voz tremia.
Mas continuei.
— “Pelo sangue derramado…”
O vento explodiu ao redor do terraço.
As grades vibraram violentamente.
— “Pelas almas esquecidas…”
As sombras começaram a surgir do chão.
Mãos escuras.
Braços distorcidos.
Rostos aparecendo por segundos… e sumindo logo depois.
Eduardo tentou se afastar.
Pela primeira vez…
Parecia assustado.
— Cala a boca! — ele gritou.
Continuei.
Mais alto.
— “Que a porta seja fechada…”
O símbolo brilhou mais forte.
O sangue começou a correr sozinho pelas linhas desenhadas no chão.
Como se estivesse vivo.
Eduardo começou a queimar.
Primeiro nas mãos.
Depois nos braços.
A pele rachava enquanto fumaça negra saía de dentro dele.
Ele gritava.
Um grito desumano.
Agudo.
Doloroso.
As sombras ao redor começaram a puxá-lo.
Centenas de mãos escuras agarrando seu corpo.
— NÃO! ELES SÃO MEUS!
Ignorei.
E falei as últimas palavras.
Quase sem voz.
— “Que aquilo que pertence à morte… retorne à morte.”
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O símbolo explodiu em luz.
As sombras desapareceram ao mesmo tempo.
E Eduardo começou a se desfazer.
Como cinzas sendo levadas pelo vento.
O sorriso sumiu primeiro.
Depois o rosto.
Depois… nada.
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Silêncio.
Completo.
O vento parou.
As luzes da escola se apagaram.
E eu caí de joelhos.
Meu corpo inteiro doía.
— Acabou…
Mas então…
Senti algo quente.
Minha barriga.
Sangue.
Muito sangue.
Minha visão começou a escurecer.
As forças indo embora devagar.
— Eu… não quero…
Tudo ficou preto.
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Quando acordei…
Hospital.
Luz branca.
Cheiro de remédio.
Meu pai chorando.
Minhas amigas ao lado.
Flores.
— Alice…
Eu sobrevivi.
Mas agora eu sei.
O mal…
não grita.
Não avisa.
Ele sorri.
Espera.
E quando você percebe…
já é tarde demais.
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Naquela noite, sozinha no quarto do hospital…
olhei para o espelho.
Por um segundo…
eu não estava sozinha.
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Criadora da história:Gente, essa é uma história pequena, porque foi um trabalho da escola em que eu precisava criar uma história do zero. Mesmo assim, espero que vocês tenham gostado 😊📖
Beijos da Lili 💕