Lucas sempre chegava cedo ao pequeno café da esquina. Gostava do silêncio da manhã, do cheiro de café fresco e da tranquilidade antes da cidade acordar. Sentava-se sempre na mesma mesa, perto da janela, com seu caderno de desenhos aberto, rabiscando rostos que nunca terminava.
Foi numa dessas manhãs que ele notou Daniel.
Daniel trabalhava ali havia pouco tempo. Alto, de sorriso contido e olhos atentos, parecia observar o mundo com cuidado. No primeiro dia, apenas serviu o café em silêncio. No segundo, arriscou um “bom dia” tímido. No terceiro, comentou sobre o desenho.
— Você desenha sentimentos — disse Daniel, pousando a xícara com delicadeza.
Lucas corou. — É… eu tento.
A partir daí, pequenas conversas se tornaram rotina. Daniel falava de música, de noites tocando violão sozinho em casa. Lucas contava sobre seus sonhos de publicar um livro ilustrado, mesmo achando que nunca seria bom o suficiente.
Com o passar das semanas, o café deixou de ser apenas um lugar. Tornou-se um refúgio. Um espaço onde olhares duravam mais que o necessário e sorrisos surgiam sem motivo aparente.
Certa tarde chuvosa, Lucas ficou até o fechamento. Daniel limpava o balcão quando o silêncio ficou pesado, diferente. Havia algo suspenso no ar.
— Você acredita que algumas pessoas entram na nossa vida no momento exato? — Daniel perguntou, sem encará-lo.
Lucas engoliu em seco. — Acredito.
Daniel finalmente levantou o olhar. Havia vulnerabilidade ali, nua e honesta.
— Eu tenho medo — confessou. — Mas também tenho vontade de tentar.
Lucas fechou o caderno e se levantou. Aproximou-se devagar, respeitando cada segundo.
— A gente pode ir com calma — disse, sorrindo. — Juntos.
Quando as mãos se tocaram, não foi o choque que importou, mas a paz. Como se ambos soubessem que aquele encontro não era acaso.
Do lado de fora, a chuva continuava. Lá dentro, entre o café e o silêncio, nascia algo simples, sincero e profundamente verdadeiro.
E, pela primeira vez, nenhum dos dois quis fugir.