Saga Império de Sangue: Insurgência

Saga Império de Sangue: Insurgência

Autor(a):Azekel

Capítulo 1

"Tudo que nasce uma hora deve morrer"

...Vejo-me no espelho e percebo que já não reconheço todos os detalhes que um dia me eram familiares. Desde a infância, meu rosto mudou, meu corpo mudou e até mesmo a maneira como me enxergo parece diferente. Agora, no fim da adolescência, pareço mais velha do que deveria, embora talvez seja apenas o peso de todos esses anos fazendo aquilo que esperavam de mim. Meu cabelo, antes curto o suficiente para que ninguém precisasse pensar duas vezes sobre quem eu deveria parecer ser, cresceu até os ombros. Preciso mantê-lo dentro do padrão. Preciso vestir-me dentro do padrão. Preciso falar dentro do padrão. Preciso ser o padrão novamente. Talvez seja isso que mais me incomode: não basta que todos me vejam como algo que não sou; preciso participar da mentira para que ela continue existindo....

...Qual é o resultado de escolhas infelizes? Talvez eu saiba responder. Talvez tenha sido justamente uma escolha infeliz que me trouxe até aqui, embora eu não consiga lembrar quando foi que tive a oportunidade de escolher alguma coisa de verdade. Mais um dia se passa neste Império que cresce a cada ano, enquanto eu permaneço presa dentro dele como uma peça que alguém decidiu colocar no lugar errado. Sou a suposta sucessora de uma linhagem construída por homens temidos, respeitados e, algumas vezes, adorados. Desde que nasci, ficou decidido que eu seria mais um deles. O problema é que nasci mulher em uma família que considera isso uma fraqueza. Desde pequena, em vez das saias e vestidos bordados que outras garotas usavam, recebi calças apertadas, roupas pesadas e cortes de cabelo extremamente curtos. Não importava o que eu quisesse vestir ou como quisesse parecer. O que importava era aquilo que precisavam que eu fosse. Por mais que eu seja uma mulher, ainda existem dias em que me olho no espelho e encontro alguém que parece um estranho. Talvez tenham feito isso tão bem que a mentira acabou sendo pregada em mim. Talvez eu esteja condenada a carregá-la pelo resto da vida....

...Faltam algumas semanas para que eu tome posse do trono como imperador. Ainda acho estranho pensar nisso. Imperador. A palavra parece pertencer a outra pessoa quando sai da boca de alguém. Meus pais me chamam de Príncipe Voortham, assim como todos aqueles que vivem sob nossas terras. Alguns preferem Lorde Voortham, título que particularmente odeio. Não sei explicar exatamente por quê. Talvez porque um lorde pareça alguém que escolheu sua posição, enquanto eu nunca tive escolha alguma....

...Estou deitada em minha cama há tempo demais, observando o espelho colocado exatamente na direção em que acordo todas as manhãs. Nunca entendi por que ele está ali. Talvez tenha sido uma decisão de algum arquiteto, talvez de meus pais, talvez de alguém que simplesmente achou bonito. Para mim, tornou-se outra coisa. Quando abro os olhos, a primeira coisa que vejo é meu próprio rosto, como se aquele reflexo precisasse me lembrar diariamente que ainda estou viva. Que ainda sou eu. Que existe alguém por baixo das roupas, dos títulos, dos modos e de todas as mentiras que construíram ao meu redor....

...Não sou tão diferente da minha mãe. Minha pele é escura, ou marrom, dependendo de como a luz toca nela, e meus cabelos são cacheados e cheios, embora minha mão passe alguns minutos todas as manhãs reclamando enquanto desfaz os nós deixados pela noite. Existem também essas manchas espalhadas pela pele, cobrindo parte das minhas mãos, do pescoço e dos braços. Durante muito tempo achei que aquilo poderia significar alguma doença que acabaria me matando. Hoje já não me incomodo tanto. De alguma maneira, aprendi a enxergá-las como parte de mim. Talvez seja uma das poucas coisas que ninguém conseguiu escolher por mim. Minha altura também veio mais do meu pai do que da minha mãe. Devo ter quase um metro e setenta, enquanto ela dificilmente passa de um metro e sessenta e quatro. Espero não chegar à altura dele. Já é difícil o suficiente parecer comigo mesma sem precisar olhar para o teto toda vez que atravesso uma porta....

...Volto a olhar para o reflexo e penso em tudo aquilo que esperam de mim. Dizem que um príncipe deve ser preparado para mentir constantemente para manter o poder. Dizem que um príncipe sábio deve observar aquilo que é comum aos homens e evitar aquilo que é particular de si mesmo. São tantas regras que, às vezes, tenho a impressão de que não fui criada para governar um Império, mas para interpretar um personagem diante dele. Um príncipe deve saber quando sorrir, quando ameaçar, quando permanecer em silêncio, quando demonstrar força e quando fingir misericórdia. Deve ser a imagem daquilo que o povo espera de um governante. Mas onde isso deixa a pessoa que existe por trás da imagem? Devo agir como um príncipe ou sofrer como uma mulher?...

...A pergunta parece simples, mas não existe resposta que não doa. Se eu agir como um príncipe, continuo alimentando uma mentira que começou antes mesmo de eu compreender o que significava ser uma mulher. Se eu decidir viver como realmente sou, talvez deixe de ser aquilo que todos precisam que eu seja. Quando um príncipe mente, dizem que trai sua própria natureza, porque um líder deveria representar a verdade e a justiça. Mas que verdade existe em mim quando até minha identidade foi escolhida por outras pessoas? Há quanto tempo estou mentindo? E, depois de tantos anos, ainda consigo separar a mentira de quem realmente sou? Talvez ser eu mesma seja simplesmente tornar-me aquilo que esperam de mim. Se for esse o caso, então não sou ninguém....

...Queria recomeçar....

...Fecho os olhos, tentando afastar os pensamentos, mas eles continuam se acumulando até que o cansaço finalmente vence. Sinto-me abandonada junto de outras almas que talvez também estejam procurando algum lugar para existir. Não sei para onde ir. Não sei o que fazer. Só sei que não quero continuar aqui. E então durmo....

...O lugar onde acordo no sonho é escuro e vasto demais para que eu consiga enxergar seus limites. Não existe parede, teto ou chão que eu consiga distinguir, apenas uma escuridão estranha onde sinto frio e calor ao mesmo tempo. Por alguns instantes, não vejo nada e não sinto nada além dessas duas sensações contraditórias. Então escuto uma porta se abrindo lentamente. O ranger das dobradiças atravessa o vazio e, conforme o som se aproxima, percebo uma figura entrando. É minha mãe, Jane Voortham parece mais jovem do que costuma parecer nos corredores do palácio. Ainda não chegou aos quarenta anos e, em comparação com outras mulheres que conheço, conserva uma aparência quase intocada pelo tempo. Talvez essa seja uma das poucas vantagens de nascer na realeza. Sempre disseram que sou praticamente idêntica a ela, e olhando para seu rosto consigo entender o motivo. Os mesmos traços, os mesmos cabelos, a mesma pele. Apenas a altura nos separa. Eu herdei os centímetros a mais de meu pai....

...No sonho, minha mãe se aproxima sem dizer nada. Ela se senta delicadamente ao meu lado e passa a mão sobre meu corpo enquanto permaneço deitada. Seu toque é familiar, mas seus olhos carregam uma tristeza que não consigo ignorar. Ela sabe. Sempre soube. Sabe o que meu pai me obriga a fazer, sabe como me sinto e, mesmo assim, nunca conseguiu impedir nada....

— Como se sente, filha? - A voz dela continua doce. Se fosse poetisa, provavelmente faria sucesso em todo o continente.

— Eu soube que faltam poucos dias para você ser coroada. Estou feliz por isso, mas também estou preocupada. Seu pai tem estado ansioso demais ultimamente. Ele... está estranho.

...Abro os olhos e encaro minha mãe....

— E desde quando o papai não está estranho? - Minha voz sai mais seca do que pretendia. Não estou disposta a falar sobre a coroação, muito menos naquela noite.

— Para mim, ele sempre foi estranho. Então não sei o que dizer.

...Ela suspira e mantém a mão sobre mim....

— Deveria demonstrar o mínimo de respeito por ele, Saraphie. Ele faz muito por nós.

...Aquelas palavras me atingem de uma maneira que não consigo explicar. Talvez seja porque já ouvi isso tantas vezes. Talvez porque, naquele momento, eu esteja cansada demais para fingir que acredito....

— Por nós? - Sento-me bruscamente, afastando o carinho de minha mãe.

— Desde quando ele faz tudo isso por nós? Ele só se importa consigo mesmo e com esse maldito Império. E você fica agindo como um dos capachos dele, babando as bolas dele por todo canto...

...Não tenho tempo de terminar. Minha cabeça vira para o lado com o impacto. O som do tapa parece ecoar naquele espaço vazio, embora minha mãe esteja diante de mim, imóvel, com a mão ainda suspensa no ar. Meu rosto começa a arder....

...Ela me encara por alguns segundos, chocada com aquilo que acabou de fazer....

— Nunca mais fale assim do seu pai. - Sua voz já não é doce.

— Ele se sacrifica por nós duas. Se não fosse por você ter nascido assim, não estaríamos passando por essa situação.

...O silêncio que vem depois é pior do que o tapa. Vejo o arrependimento surgir no rosto dela quase imediatamente. Seus olhos perdem a firmeza, e a mão que me atingiu desce lentamente....

— Desculpa, filha... Eu não quis dizer isso. Eu digo... eu não...

...Não deixo que termine....

— Não. Está tudo bem.

...Não está, mas não quero ouvir mais....

— Eu entendo. Talvez fosse melhor se eu tivesse nascido homem para vocês. - Minha voz começa a falhar. Odeio perceber isso. Odeio ainda mais sentir meus olhos queimando.

— Mãe, pode sair? Quero preparar algumas coisas para a cerimônia sozinho.

...Ela hesita por um instante, como se quisesse dizer alguma coisa. No fim, apenas concorda....

— Claro.

...Jane se levanta e deixa o quarto. A porta se fecha devagar atrás dela....

...Então eu finalmente desabo. As lágrimas transbordam dos meus olhos e caem sobre o lençol. Não consigo decidir se é tristeza, medo ou alguma outra coisa que não sei nomear. Talvez seja tudo ao mesmo tempo. Mas, por baixo de tudo, existe algo mais forte. Algo quente, pesado e difícil de controlar. Ódio. Ódio deste quarto, deste palácio, deste título e deste lugar que me ensinou a odiar partes de mim antes mesmo que eu pudesse compreendê-las. Ódio do meu pai por transformar minha existência em uma ferramenta para manter o poder. E, naquele momento, até mesmo o amor que ainda restava pela minha mãe parece desaparecer, substituído pela lembrança de sua mão contra meu rosto e de suas palavras atravessando aquilo que já estava quebrado....

...Olho novamente para o espelho. Meu reflexo continua lá. Por um instante, não vejo uma princesa, nem um príncipe, nem uma futura imperatriz. Vejo apenas alguém cansada de pedir permissão para existir....

A cerimônia acontecerá em poucos dias. Eu não vou.

...Vou deixar este lugar para trás. Mesmo que, para isso, precise deixar tudo para trás....