InvertidoS

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Autor(a):meackerman

Cap 1. Okashi

Entre o mar sereno e o concreto da cidade, existia uma garota de dezesseis anos que carregava consigo um amor quase inexplicável — doces. Não era apenas gostar… era amar, paixão pura.

Ninguém sabia ao certo quando começou, nem o porquê. Talvez tivesse nascido com ela. Talvez fosse destino.

Seu nome era Okashi.

Nascida em Yokohama, no Japão, com sangue brasileiro correndo nas veias, ela era como uma mistura de dois mundos — intensa, teimosa e impossível de ignorar.

— Sweet, vem tomar café rápido se não você vai se atrasar pra escola! — ecoou a voz da tia pela casa.

Do quarto, um grito arrastado respondeu:

— Tô indoooooo!

Os passos apressados vieram logo depois. O cheiro de café recém-passado e pão quente preenchia o ambiente, mas Okashi chegou como um furacão — cabelo bagunçado, uniforme meio torto e energia demais pra uma manhã.

— Mais alguns minutos e você nem conseguiria tomar café — disse a tia, cruzando os braços.

— Ah… não exagera, tia… — respondeu Okashi, já puxando uma mordida grande demais pra boca.

— Rum. Come logo e para de enrolar.

— Tô cumendo — murmurou ela, de boca cheia, quase impossível de entender.

— TENHA MAIS EDUCAÇÃO, OKASHI!!

A bronca ecoou pela casa.

Sem perder tempo — ou melhor, já tendo perdido tempo demais — Okashi saiu correndo rua afora, mochila batendo nas costas, o vento bagunçando ainda mais seu cabelo.

Ela odiava se atrasar… mas, curiosamente, vivia quase atrasada.

Quando finalmente chegou à escola, ofegante, encontrou sua amiga de sempre: Manami (愛美).

Parada ali, com postura impecável e olhar julgador.

— Quase chegou atrasada, né, Okashi?

— Você falou certo: quaseee. Eu tô aqui no horário, não tô? — respondeu, com um sorriso convencido.

— Tá… por pouco.

— Chega, né, coisa linda. Vamos pra sala, meu amor — disse Okashi, puxando a amiga pelo braço.

— Já falei pra não falar assim comigo! — reclamou Manami, corando levemente. — Você sabe que eu gosto de alguém.

— Só você mesmo pra gostar de alguém. Esse negócio de “amar” é nojento.

Manami suspirou, balançando a cabeça.

— Quando você se apaixonar, você vai entender.

Okashi deu de ombros.

— Nunca vai acontecer. Minha única paixão são doces.

Já dentro da sala, a conversa continuava em sussurros.

— Brigadeiro brasileiro, mochi, anko, akuma.

— Tá bom, tá bom! — interrompeu Manami. — Você só pensa em doce!

— E com orgulho! — respondeu Okashi, com brilho nos olhos.

Mas então… Silêncio.

Um silêncio pesado.

As duas perceberam tarde demais.

O professor já estava na sala.

— Senhorita Okashi. Senhorita Manami. — A voz era lenta, carregada de desaprovação. — Não se cansam de chegar atrasadas?

Okashi cruzou os braços, sem o menor receio.

— Eu não. E você, professor? Não cansa de fazer a mesma pergunta sempre?

O clima congelou.

Manami entrou em pânico.

— Professor, desculpa! Desculpa pelo atraso… e pela Okashi também!

— Eu não pedi desculpas nenhum — resmungou Okashi.

— O que disse? — o professor estreitou os olhos.

— Ela não disse nada, professor Matsuge! — disse Manami rapidamente, quase implorando.

— SENTE-SE LOGO!

E assim começou mais uma aula… longa, cansativa e, na opinião de Okashi, completamente inútil.

Finalmente, o intervalo chegou.

O alívio era visível no rosto de Okashi.

— Ôh, professorzinho do cão… — murmurou.

— Okashi! — repreendeu Manami. — Não estamos no seu Brazil pra você falar assim!

— Se tivesse, eu falava pior.

Enquanto comiam, algo chamou atenção.

Um garoto passou voando de skate pelo pátio, com um supervisor correndo atrás dele.

— VOCÊ NUNCA VAI PEGAR MEU SKATE! — gritou o garoto.

— ISSO É CONTRA AS NORMAS ESCOLARES! — respondeu o adulto, desesperado.

Eles passaram como um furacão.

Okashi observou, curiosa.

— Tá vendo? — disse Manami.

— O quê, amor?

— O novato já arrumando encrenca! E NÃO ME CHAMA DE AMOR!

Okashi riu.

— Qual o problema? É só um skate.

— É proibido, Okashi.

— Ele não tá machucando ninguém.

Manami cruzou os braços.

— Esse tipo de menino vira delinquente. Nenhuma garota vai querer alguém assim.

— E daí? Não é problema meu.

— Só tô avisando: fica longe dele.

— E por que eu ficaria perto?

— Ah… sei lá. Você é toda doida.

Okashi sorriu. Talvez fosse mesmo.

Depois de mais aulas — e mais broncas — o dia finalmente terminou.

— Ahh, acabou! — comemorou Okashi.

— Não são chatas, são interessantes — disse Manami.

— Pra você, tudo é interessante.

— Okashi! Olha lá! — apontou, animada.

— O quê? Brigadeiro de graça?!

— O quê? Não! Tô falando do Aoi!

— Aoi? Não é o garoto que você gosta?

— Eu nã—

— E ele tem nome de mulher.

— Okashi, me ouve—

— E ele parece meio afeminado, né? E aquele amigo dele—

— OKASHI, ME OUVE!!

O grito ecoou pelo corredor.

Todos olharam. Inclusive… Aoi. Manami congelou.

— Ah… tô morta — sussurrou.

— Por quê?

— Gritei alto demais…

Okashi começou a rir.

— Vamos sair daqui, rápido!

Do lado de fora, ainda tentando se recuperar do constrangimento:

— Você viu? — perguntou Manami.

— O quê?

— O novato… tava com o Aoi.

— Ué… não era um delinquente?

— Era… mas…

Okashi levou a mão ao queixo, pensativa.

— Será que eles têm um caso? Tipo o Aoi e o Fukuchi?

— O quê?!

— O FUKUCHI FOI TROCADO?!

— COMO ASSIM?!

— Coitado… perdeu o homem pro novato…

— OKASHI!!

Mas já era tarde.

Okashi estava caminhando direto até Aoi.

— Aoiiii! — gritou.

— Hm? Olá, menina algodão doce.

— Algodão doce? Que tipo de bullying é esse? Enfim… tenho uma pergunta.

— Pode falar.

— Qual sua relação com o Fukuchi?

— Ele é meu amigo.

— Certeza? Não são um casal?

— OI?! Claro que não!

— Então você é solteiro?

— Sou… mas…

Aoi a observou por um momento.

Ela é até bonitinha… mas as notas dela…

— Se você melhorar suas notas, talvez eu te dê uma chance.

Silêncio.

Então…

Okashi riu, gargalhou.

— Você acha mesmo que eu gostaria de um afeminado com nome de mulher?

— O QUÊ?!

Sem esperar resposta, ela simplesmente virou as costas, rindo.

Mas quando voltou…

Manami não estava mais lá.

Uma mensagem explicou:

"Amiga, você demorou. Meus pais chegaram, tive que ir."

E assim, Okashi seguiu sozinha.

O caminho para casa passava pela ponte da baía.

O vento era suave, o mar refletia o céu… e, pela primeira vez no dia, Okashi ficou em silêncio.

— Será que algum dia eu vou ser normal…? — murmurou.

— Será que vou conseguir realizar meu sonho…?

Seus olhos se desviaram para um ponto específico.

A pequena loja abandonada.

Velha. Esquecida.

Mas, para ela… cheia de possibilidades.

— Um dia… você vai ser minha…

Antes que pudesse terminar—

BUMP!

Um impacto repentino a interrompeu.

— VOCÊ NÃO OLHA POR ONDE ANDA NÃO SEU ENERGÚMENO?! — gritou, irritada.

Seu coração ainda acelerado de ódio… sem saber que aquele encontro podia mudar muito mais do que apenas o seu caminho de volta pra casa, mas para a visão dela para pior.