Frequência Fantasma

Frequência Fantasma

Autor(a):@Entre-Linhas

Capítulo 1 – Estática (Parte 1)

A sirene das 18h pegou Rael com a mala ainda na mão e uma dívida no cartão que não lembrava mais o dia que fez.

Porto Nevoeiro não muda o relógio nem fodendo. O som rasgou o nevoeiro que descia do Morro da Antena e entrou pela fresta da janela do ônibus como se conhecesse o caminho, um uivo de metal velho que fazia os dentes latejarem e o estômago virar. Ele desceu tossindo, o corpo reagindo antes de qualquer pensamento. A umidade grudou na garganta antes do pé bater no asfalto. Primeiro a tosse, depois o resto, sempre assim.

O nó no estômago apertou antes do cheiro subir. O tempo desde que saiu dali já não encaixava direito na memória, mas o cheiro de peixe podre com diesel continuava o mesmo. Droga, a mesma sujeira úmida que grudava na roupa e não saía nem com três lavagens. A placa de “Bem-vindo” na entrada da cidade tava ainda mais descascada, com um ninho de marimbondo no canto.

A pousada da Dona Eulália ficava dois quarteirões do terminal, se você cortava pelo beco do açougue fechado. O açougue que fechou quando o dono sumiu em 98. Rael não cortou. Arrastou a mala pela rua principal, as rodinhas batendo em cada pedra irregular da calçada. Passou na frente da delegacia com a luz acesa. Viu um vulto na janela, mulher, cabelo preso. Delegada Márcia, provavelmente ainda presa naquele mesmo turno eterno — e ele lembrava da sensação de ser observado naquele prédio mesmo quando não tinha ninguém olhando. Fingiu que não viu. A mão direita tremia. Sempre treme quando ele mente pra si mesmo que tá tudo bem, que voltar foi escolha e não falta de opção.

Eulália entregou a chave sem olhar no olho dele. “Quarto 7. O mesmo.” O mesmo inferno ficou implícito no silêncio. O corredor cheirava a desinfetante barato tentando matar o mofo. Não matou.

O quarto 7. Cama de solteiro, lençol encardido com florzinha amarela, crucifixo torto na parede que ele mesmo entortou anos atrás, aos quinze. Em cima da cômoda, empoeirado, o rádio. AM-1987. Do avô.

Filho da puta.

O olhar ficou preso no objeto um segundo a mais do que devia antes do pensamento encaixar. Ele não lembrava de ter pedido pra Eulália guardar aquela porcaria. Talvez ela achou que era herança. Talvez ela só nunca mexeu. A gastrite beliscou, um prego quente enfiando entre as costelas. Rael engoliu seco, largou a mala sem abrir e foi direto pro banheiro. A porta rangia. Sempre rangeu.

Vomitava água. Só água e o gosto de cigarro molhado que não fumava desde que o ex ligou às 3h da manhã e ele não atendeu. A privada tava manchada de ferrugem. Ele ficou de joelho no chão frio até o corpo parar de se sacudir sozinho. Lavou a boca na torneira. A água tinha gosto de cano.

Voltou pro quarto com a boca amarga e a camiseta colada nas costas.

O rádio tava ligado. Uma luzinha vermelha, fraca, no dial.

(continua...)