Risco Zero

Risco Zero

Autor(a):@Entre-Linhas

Capítulo 1: Mandado

A batida na porta não soa como batida.

Soa como coisa oficial tentando parecer calma.

Luca ainda está com a mão molhada de álcool quando o som vem de novo, mais firme, sem pressa, como quem sabe que não precisa repetir muitas vezes porque vai entrar de qualquer jeito se for preciso.

Ele não corre. Não corre porque correr implica culpa, e culpa deixa rastro, e rastro é exatamente o tipo de coisa que gente como ele aprende a evitar mesmo quando não fez nada.

A toalha fica largada no balcão. A pele ainda arde leve onde o álcool evaporou rápido demais, puxando o frio por baixo da superfície, e isso irrita mais do que deveria, porque o corpo já está reagindo antes da cabeça formar qualquer pensamento útil.

Outra batida. Mais seca.

Ele abre. Não devagar. Não rápido. Só abre.

Dois homens. Um de terno, que ele ignora primeiro, e outro que não deveria chamar mais atenção, mas chama.

Alto demais. Parado demais. O tipo de silêncio que não é ausência de som, é presença de coisa que não se mexe à toa.

Luca sente primeiro no estômago. Uma contração curta, involuntária, que ele disfarça ajeitando o peso de um pé pro outro, como se fosse só postura ruim.

Depois vem o cheiro. Fraco. Mas suficiente. Madeira queimada. Chuva. Algo mais pesado por baixo, que não devia estar ali, não naquele nível, não naquele contexto.

Ele trava por meio segundo. Só meio. O suficiente pra irritar.

“Luca Velloso?” o homem de terno pergunta.

“Depende de quem quer saber.” A resposta sai automática, rápida demais, afiada demais, porque sarcasmo é escudo e ele usa antes de perceber.

O outro não fala. Mas olha. E o olhar não é curioso. É avaliação. Como se estivesse conferindo se a embalagem bate com o conteúdo.

O terno estende um papel. “Mandado de busca e apreensão.”

O papel treme na mão de Luca quando ele pega. Ele percebe. Tenta firmar os dedos. Não funciona de primeira. Passa a mão na nuca. Aperta ali. Tique. Sempre volta quando tá sob pressão.

Respira pelo nariz. Erro. O cheiro entra mais forte. O corpo responde com um calor curto na nuca, uma pressão estranha na base do crânio que não combina com medo, não combina com raiva, não combina com nada que faça sentido agora.

Ele foca no papel. Lê. Relê. Não entende.

“Isso tá errado.” Simples. Direto. Errado.

O terno começa a falar, algo sobre investigação, algo sobre substâncias controladas, algo sobre Dantas Pharma, mas Luca não acompanha tudo porque o corpo está ocupado demais tentando estabilizar uma coisa que não devia estar acontecendo.

Ele dá um passo pra trás. Erro.

O outro homem entra. Sem pedir. Sem encostar. Mas perto o suficiente. Muito perto.

O cheiro muda. Não aumenta. Aprofunda. Como se tivesse camada que só aparece quando a distância some.

Luca engole seco. A garganta arranha.

“Você pode acompanhar a busca ou sair do caminho,” o terno diz.

Luca ri. Curto. Sem humor. “Ah, claro. Porque traficante anuncia no LinkedIn que é traficante, né?”

Silêncio. O terno não responde. O outro ainda não falou. Mas agora está dentro. E isso muda o ar. Literalmente.

Luca fecha a porta atrás deles com mais força do que precisava. O impacto sobe pelo braço. O músculo do antebraço tensiona. Veia marca na pele. Não bate com raiva. Bate pra fechar logo. Pra tirar o vão. Mas o som fecha tudo igual. Definitivo.

Ele sente. Registra. Ignora.

“Vocês não vão encontrar nada.” Ele diz isso enquanto caminha pra sala. Eles seguem.

O outro fica atrás. Muito atrás. Mas ainda dentro do espaço. Sempre dentro. Sempre presente.

Luca pega o celular. Mãos firmes agora. Melhor.

“Eu vou ligar pro meu advogado.”

“Você pode,” o terno diz.

O outro finalmente fala. “Depois.”

 

Essa cena tirou seu ar também? Me ajuda a manter o Luca vivo com uma flor 🌹

Favorita pra não perder quando o Keller parar de se segurar.