Prólogo
Não sei como de todas as pessoas
eu consegui achar uma que vendia flores, mas que não gostava delas.
- Bruno
As vezes penso que estou sonhando
e que irei acordar, voltando para o pesadelo... sem você
- Thomas
...
O garoto ainda se acostumava com sua nova condição debilitada. Cada movimento era uma lembrança cruel das dificuldades que agora faziam parte de sua vida. Sentia-se deslocado, abatido, como se algo vital lhe tivesse sido arrancado. Não via mais sentido em continuar, ao menos não plenamente. Uma parte essencial de sua existência havia sido tomada, extirpada, e ele sentia essa ausência como a dor de um membro amputado, um fantasma que o perseguia sem trégua.
Sentado em seu banco habitual, observava as nuvens pesadas no céu. O peso que sentia no peito parecia refletido naquelas formas nebulosas. Após alguns minutos, levantou-se com dificuldade e caminhou mancando até uma pequena barraca de flores. Lá, cumprimentou a dona, uma senhora negra e de sorriso gentil. Pegou as flores que ela já deixava separadas para ele, pagou, deixou uma gorjeta e desejou um bom dia. A mulher retribuiu o gesto, mas ele sabia que seu dia, como todos os outros desde a tragédia, seria péssimo. Na sua nova normalidade, bons dias pareciam impossÃveis. Inalcançáveis.
No caminho, parou junto à fonte do parque e jogou uma moeda. Não fez nenhum pedido. Em sua mente, nutria a vaga esperança de que, ao acumular moedas sem desejos, um grande pedido poderia ser realizado no futuro. Ele sabia que era irracional, mas havia algo reconfortante nessa pequena superstição. Era uma necessidade que ele não conseguia ignorar, como uma coceira persistente atrás da orelha.
Ao chegar ao cemitério, cumprimentou o porteiro e seguiu em direção à área mais afastada e reservada. Ajoelhou-se com dificuldade diante de três lápides recém-instaladas. Retirou as flores murchas que colocara na semana anterior e, com delicadeza, dispôs novos buquês. Então, começou a chorar. O choro era silencioso, profundo, e só cessou horas mais tarde, quando o sol já havia desaparecido, e a escuridão tomou conta de tudo. Era uma escuridão sem fim, como a realidade que ele agora enfrentava, sozinho. O silêncio do cemitério parecia refletir esse sentimento: sepulcral, inabalável, eterno.
Voltando para casa, ele tentou, mais uma vez, juntar os pedaços fragmentados de sua existência. Ao abrir a porta, encontrou a última parte de sua famÃlia, indefesa demais para entender o que acontecia. Ele se sentia grato por isso, porque naquele momento não conseguia esconder sua dor. Não naquele dia.