Corações em Chamas

Corações em Chamas

Autor(a):Chris Oliveira

Capítulo 1

Capítulo 1

- Tânia, pega logo essa bolsa, precisamos ir, amor! Raul gritou com a mulher pela janela do carro.

- Calma, Raul! Disse descendo as escadas da frente da casa rápido e sentando no banco do carona. - Não entendo por que tanta pressa! Temos quase o dia todo pela frente dentro desse carro!

- Tínhamos um horário para sair, Tania! Horário! Arrancou com o carro saindo do lugar rápido olhando o tempo todo pelos retrovisores.

- Estamos indo passear, Raul, não temos hora marcada com meus pais. No fim das contas, esses dias vão ser ótimos para você relaxar, anda muito nervoso.

Raul não respondeu, estava focado no trânsito.

Tania puxou um pouco o cinto de segurança para ajeitar o corpo e virar para o banco de trás.

- Está feliz, filha? Sua avó está que não se aguenta de felicidade, disse que está fazendo aqueles biscoitos que você tanto ama!

Tania era sem dúvidas a mais animada do carro, seu humor contrastava com o do marido Raul e da filha, Liliane. Ela era assim por natureza, sempre escolhia a alegria mesmo que isso significasse empurrar a sujeira para baixo do tapete.

- Sim, estou feliz. Respondeu esboçando um sorriso fraco.

Ela não tinha mais vontade de sorrir há muito tempo, desde o que aconteceu, mas se esforçava pelos pais que faziam de tudo para vê-la feliz. O pai estava deixando o trabalho para trás só para ficar com ela e a mãe na casa dos avós nessas “mini férias” que a mãe inventou. Os avós não se davam bem com ele, nunca soube o motivo.

- Estou com saudades da tia Lorena, será que vai estar lá?

- Não sei filha, sua avó disse que ela ia precisar ficar fora essa semana. Tania mexia no celular.

- Que pena! Adorava conversar com ela e faz tanto tempo que não nos vemos. Suspirou, o pai a olhou pelo retrovisor.

- Vai se distrair de qualquer jeito lá, Lili! Não precisa dela para isso.

Tania o olhou séria, e logo virou para frente. Não gostou do que ele disse, mas não estranhou já que Raul e sua irmã nunca se deram bem.

- Vou cochilar um pouco. Tania baixou um pouco o banco.

- O senhor está bem para dirigir, pai? Não está com sono?

- Não, filha. Se quiser cochilar fique à vontade. Piscou para ela pelo retrovisor.

Liliane ajeitou o travesseiro atrás da cabeça e dormiu.

 

- Raul, porque está tão rápido? Tania acordou quando o corpo tombou para o lado numa curva.

- Acho que estão seguindo a gente.

- O que? Como assim? E agora, Raul?

- Pare de perguntar, preciso me concentrar! Apertou o volante com as mãos entrando em uma curva fechada em que derrapou.

- Droga, Raul! Você está muito rápido! Falou alto.

- A Lili vai acordar, fica quieta! Continuou olhando pelos retrovisores com uma ruga de preocupação na testa. Acabou se distraindo e derrapou.

- Pára, Raul! Vai bater! Ela gritou desesperada.

- Cale a boca! Me deixe dirigir! Ele fazia as curvas cada vez mais rápido segurando o volante com força. Ultrapassava os carros olhando pelos retrovisores, o tempo todo.

- Cuidado, Raul! Tania gritou chorando.

Liliane acordou com os gritos da mãe que se segurava no banco. Raul fez uma curva tão fechada que ela caiu para o lado batendo a cabeça com força na janela do seu lado. Não conseguia falar nada, era jogada de um lado para o outro, se estivesse sem cinto já teria voado pelo carro.

De repente um caminhão vermelho que estava bem à frente saiu para ultrapassar dois carros, Liliane sentiu o coração congelar. Raul começou a frear arrastando os pneus do carro deixando um cheiro de borracha insuportável, mas não foi o bastante. Ela fechou os olhos e esperou o baque.

A pancada foi violenta, o carro bateu na traseira do caminhão com muita força e em questão de segundos os gritos de Tania cessaram. Os ferros retorcidos chegaram até o rosto de Liliane e ela sentiu seu corpo prensado contra o banco e uma dor dilacerante nas pernas. Não conseguia mexer os braços e chamou o pai que não respondeu.

Sentiu cheiro de sangue e se desesperou.

- Pai! Mãe! Gritou se dando conta do que aconteceu.

Tentava se mexer mas não conseguia, a dor aumentou conforme forçava o corpo. Chorava e gritava por socorro.

Sentiu o gosto metálico de sangue na boca e de repente seus olhos ficaram pesados. Não conseguiu segurar e se entregou.

 

- Aqui atrás! Um homem gritou chamando a atenção dos outros. - Tem uma vítima viva! Outros bombeiros chegaram rápido. - Não tem como mover essa porta, vai ter que cortar! Traz o alicate, Campos!

- Aqui! Entregou nas mãos dele. – Eu afasto com o pé de cabra e você corta, tá pronto?

- Vai!

O cabo Campos forçou assim que o outro deu sinal facilitando o corte do pedaço de ferro retorcido que impedia o salvamento da vítima.

- Mais uma vez! O cabo Guimarães gritou e o outro puxou ficando fácil para cortar o resto da porta amassada. – Pronto! Me ajuda a afastar um pouco o banco para colocar o colar cervical nela.

Guimarães colocou o colar protegendo o pescoço da mulher que acordou com um solavanco puxando o ar de uma vez. Ela quis mexer a cabeça angustiada.

- Me ajuda, por favor! As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Liliane.

- Calma moça, não se mecha, vou tirar você daí!

Ele estava concentrado em cortar um pedaço do estofamento do banco que prendia as pernas dela. O corpo do homem que dirigia ainda não tinha sido retirado e isso dificultava o trabalho.

Depois de retirar parte por parte conseguiu liberar as pernas da moça.

Liliane chorava muito, os lábios tremiam de tão nervosa.

Guimarães vendo o desespero no rosto dela se compadeceu.

- Moça olha para mim, por favor! Pediu com jeito e assim que ela virou, ele olhou em seus olhos que eram de um verde claro que ele nunca tinha visto, ficou ali parado por alguns segundos e continuou.

- Não tenha medo, vou tirar você e vai para o hospital tratar desses machucados, vai ficar tudo bem! Deu um sorriso e viu o olhar dela se suavizar.