capítulo 1
Sophy despertou com um sobressalto, os murmúrios no corredor penetrando seu sono como um grito desesperado. Ela esfregou os olhos, ainda sonolenta, mas uma sensação de inquietude a envolvia. Ao puxar o roupão sobre o pijama, cada movimento parecia pesado, como se o ar estivesse carregado de uma tensão que ela nunca havia sentido antes. Com o coração acelerado, abriu a porta do quarto e se deparou com as empregadas. Seus rostos estavam pálidos, marcados pela mistura de medo e incerteza, e elas trocavam olhares nervosos que falavam mais do que palavras poderiam expressar.
— O que está acontecendo? — perguntou Sophy, sua voz trêmula traindo seu terror crescente.
As empregadas apenas abaixaram a cabeça, incapazes de lhe dar uma resposta. Um frio na barriga a tomou, e, preocupada, Sophy desceu as escadas. Os degraus ecoavam sob seus pés descalços como um presságio sombrio. À medida que se aproximava da sala, as vozes tornaram-se mais claras, mas não menos alarmantes. Seu pai, geralmente calmo e controlado, discutia fervorosamente com alguns seguranças; sua mãe estava sentada no sofá, com o olhar fixo no chão, as mãos trêmulas em seu colo.
— Mãe? — chamou Sophy, a voz mal saindo em um sussurro assustado.
A mãe levantou o olhar por um breve momento, seus olhos refletindo uma mistura de amor e pavor antes de desviar rapidamente. O coração de Sophy disparou quando percebeu que algo estava terrivelmente errado. No entanto, antes que pudesse correr até ela, o caos irrompeu como um furacão. A porta da mansão foi arrombada com um estrondo ensurdecedor que reverberou em seus ossos. Homens armados invadiram o local; o som dos tiros preenchia o ar com uma violência horrenda, seguido pelo estilhaçar de vidros e móveis.
Sophy congelou no lugar, incapaz de processar a rapidez com que tudo estava acontecendo. O fogo começou a se espalhar como serpentes vorazes lambendo as paredes e os móveis; o cheiro de fumaça invadia seus pulmões como um veneno sufocante. Em meio ao tumulto aterrador, ela agarrou seu ursinho de pelúcia — uma pequena âncora de conforto em meio ao terror que a cercava — e se encolheu no chão, soluços sacudindo seu corpo enquanto os gritos e os tiros ecoavam ao seu redor.
— Sophy! — a voz da mãe surgiu em meio ao caos como um farol distante e desesperado. Com lágrimas nos olhos e o coração acelerado pela adrenalina do medo, Sophy levantou-se trêmula à procura da mãe. Entre chamas dançantes e destroços caídos, ela avistou a figura familiar: sua mãe caída no chão, coberta de sangue e fuligem.
— Mãe! — gritou Sophy com toda a força que lhe restava enquanto corria até ela. A cena era surreal; cada passo parecia uma eternidade enquanto suas pernas tremiam sob o peso do horror. Ela se ajoelhou ao lado da mãe, as lágrimas escorrendo livremente pelo rosto enquanto a abraçava uma última vez.
O calor das chamas ao redor delas era quase insuportável; o mundo parecia ter parado naquele instante cruel. Sophy não conseguia soltar sua mãe.
— Não, por favor, não! — soluçava Sophy entrecortadamente, sentindo o desespero tomar conta dela como uma onda avassaladora.
— Sophy... — a mãe sussurrou com uma voz fraca que parecia vir de outro mundo. — Seja forte, meu amor.
As palavras ressoaram em seu coração como um eco doloroso enquanto tudo ao redor delas desmoronava em chamas e gritos. Naquele momento devastador, Sophy entendeu que nada poderia prepará-la para perder a pessoa mais amada em sua vida.
Antes que Sophy pudesse responder, uma mão forte a puxou para longe, arrancando-a do calor das chamas que devoravam tudo à sua volta. Ela lutou, gritando e chorando, enquanto o desespero tomava conta de seu pequeno coração. A última imagem que viu foi a de sua mãe, uma figura amada sendo consumida pelo fogo, desaparecendo nas chamas como um sonho desvanecido. Sophy foi arrastada para fora da mansão, o som estridente das sirenes e os gritos de terror ainda ecoando em seus ouvidos, criando uma sinfonia de dor e confusão. Tudo ao seu redor parecia irreal, como se estivesse presa em um pesadelo do qual jamais conseguiria acordar… mas ela acordou.
No silêncio gélido do convento, uma batida suave na porta quebrou a tranquilidade habitual daquele lugar sagrado. Irmã Verônica, uma freira de meia-idade com o semblante sereno, estava ajoelhada no jardim em oração quando se levantou abruptamente, a inquietação crescendo em seu peito. A batida era incomum para aquele horário, um presságio de algo sombrio.
Ao abrir a pesada porta de madeira, a cena que se apresentou diante dela era um verdadeiro pesadelo: uma criança caída no chão, completamente ferida, coberta de cinzas e sua pele avermelhada pelas chamas. O cheiro pungente de carne queimada misturava-se ao odor de fuligem, tornando o ar ao redor ainda mais denso e insuportável. A menina estava inconsciente, sua respiração fraca e irregular como se cada suspiro fosse uma luta pela vida.
Com o coração acelerado e uma onda de compaixão invadindo seu ser, irmã Verônica agachou-se e envolveu a criança em seu manto como se fosse um tesouro precioso. Sem hesitar, ergueu-a nos braços e a levou para dentro do convento, seus passos firmes ecoando pelos corredores frios enquanto a preocupação apertava seu coração.
Ao chegar aos aposentos onde cuidava dos doentes, colocou a menina delicadamente sobre a cama. Sua expressão era um retrato de angústia e determinação. Sabia que precisava agir rapidamente. Preparou um banho nem quente nem frio com carinho, sabendo que cada gota poderia trazer alívio às feridas da garota. Enquanto lavava cuidadosamente o corpo da criança, sentiu a profundidade das queimaduras e como aquelas marcas eram testemunhas silenciosas de um trauma inimaginável. O que mais a preocupava era o estado de inconsciência da menina; mesmo com todo o cuidado que lhe dedicava, ela permanecia alheia ao mundo.
Depois de passar remédios em suas feridas e cobrir Sophy com lençóis limpos e suaves como nuvens, irmã Verônica foi chamada à sala da madre superiora. Ao entrar naquele espaço solene, encontrou a madre com uma expressão séria — algo raro em seu rosto geralmente calmo e acolhedor.