Capítulo 1
...Eve...
Caminhei pelo parque onde o novo circo da cidade estava sendo apresentado. As luzes das barracas de comida brilhavam, atraindo um fluxo constante de pessoas. De longe, parecia um lugar comum… mas havia algo estranho no ar.
O ambiente era mais pesado do que deveria.
O anúncio prometia um espetáculo nunca visto antes.
E eu precisava de alguma coisa assim.
Algo que distraísse.
Algo que fizesse a solidão diminuir, nem que fosse por algumas horas.
Parei em uma barraca de pipoca e algodão-doce. Um palhaço parecia ser a única pessoa ali. As roupas dele eram pretas e brancas, assim como a maquiagem. Nada chamativo… mas também nada confortável.
Quando ele me olhou, senti um leve desconforto.
Ignorei.
— Uma pipoca e um algodão doce, por favor? — disse em voz baixa.
Ele continuou olhando antes de responder:
— Doce ou salgado?
— Como assim? — perguntei.
— A pipoca, não é? — responde, divertido.
— Ah, sim… doce, então… — falo sem graça.
Ele inclinou a cabeça.
— Você não gosta de coisas salgadas, senhorita?
Arregalei os olhos, entendendo o tom, mas preferi ignorar.
— Bom, é que tenho pressão alta, então não gosto muito de coisas salgadas.
— Ótima escolha — disse, virando-se para preparar.
Olhei ao redor enquanto ele mexia na máquina.
Foi aí que percebi.
As outras barracas estavam vazias.
As pessoas que estavam ali… não estavam mais.
— Onde foram todos? — perguntei, sem tirar os olhos dele.
Ele se virou devagar.
— Lá dentro, se preparando para assistir ao espetáculo — disse, apontando para a lona. — Eu já deveria estar lá também… mas quando vi você vindo nessa direção, corri pra cá.
Aquilo me deixou desconfortável, mas não cheguei a questionar.
— Só eu mesmo pra fazer alguém se atrasar assim… — murmurei, com um meio sorriso.
Ele se aproximou e me entregou a pipoca e o algodão-doce.
Olhei para eles por um segundo, ainda com um pequeno sorriso nos lábios.
— Estou com medo de comer essa pipoca.
— Não é como se eu tivesse colocado veneno aí, ratinha. Eu acho...
Ele riu.
Acabei rindo junto, mais pela forma como ele falou do que pela frase em si.
Antes que eu pudesse reagir, ele colocou um punhado na minha boca.
— Não, parece que você colocou veneno aqui — respondi com dificuldade, rindo baixo enquanto tentava falar.
Ele continuou rindo, segurando meu rosto até eu engolir.
— Engula tudo, ratinha!
Revirei levemente os olhos, ainda meio sem jeito, com a situação, mas sem levar tão a sério quanto deveria.
Ele colocou a mão nas minhas costas e me guiou até a entrada do circo.
"Proibida a entrada de crianças para este espetáculo."
Li a placa e hesitei por um segundo.
— Vamos assistir ao espetáculo, e você vai perceber que não tem nada com o que se preocupar.
Tentei voltar.
Ele segurou meu braço com força e chamou um homem grande para a entrada. Sussurrou algo no ouvido dele e seguiu em direção ao palco, desaparecendo atrás das cortinas.
Fiquei ali.
Com o segurança.
Olhei para ele e soube que não sairia dali.
— Senhorita, tem um lugar ali na frente reservado para você, é melhor se sentar — disse sério.
Olhei para o assento.
— Mas já está ocupado!
Ele não respondeu.
Apenas me puxou pelo braço e me levou até lá.
— Vá embora! — disse para a mulher sentada.
Ela levantou sem discutir.
Fui empurrada no lugar.
— Para seu próprio bem, é melhor você não sair deste lugar por nada.
Senti um arrepio na nuca.
Olhei para ele.
Os olhos estavam fixos em mim por tempo demais.
Respirei fundo e voltei a olhar para o palco.
Havia estacas no chão e uma corda acima delas, decorada com um líquido vermelho. Parecia parte do cenário.
O espetáculo começou.
Os equilibristas entraram, arrancando aplausos. Eles se moviam com precisão, como se não existisse erro. Era bonito… quase hipnotizante.
Comi mais um pouco da pipoca e do algodão-doce.
O gosto era muito doce.
Mas bom.
Talvez eu tenha julgado o lugar errado.
Quando o número terminou, outro começou.
O mágico entrou.
E meu coração acelerou sem aviso.
Ele caminhava com calma, elegante, completamente seguro de si. Quando olhou para o público…
seus olhos encontraram os meus.
Senti um calor estranho subir pelo corpo.
Ele sorriu de leve.
Desviei o olhar, tentando disfarçar.
Mesmo assim, acabei olhando de novo algumas vezes.
E, em mais de uma delas, ele ainda estava olhando.
O número terminou sob aplausos.
Logo depois, outras pessoas foram levadas ao palco.
Pareciam lentas.
Confusas.
— Deve fazer parte do show… — murmurei baixo.
Mas quando uma delas tentou se afastar e foi puxada de volta com força…
meu sorriso desapareceu.
Olhei ao redor.
Algumas pessoas na plateia estavam iguais.
Mais quietas.
Mais lentas.
Olhei para a pipoca na minha mão.
Engoli seco.
No palco, o objeto foi revelado.
Um berço de Judas.
Meu corpo gelou.
Aquilo não parecia encenação.
Uma pessoa foi forçada contra a estrutura.
O grito foi alto.
Minha respiração falhou.
Outra pessoa foi amarrada e suspensa.
Vi o mágico novamente.
Calmo.
Como se tudo estivesse sob controle.
A serra apareceu.
Meu estômago revirou.
Olhei ao redor.
Ninguém reagia.
Ou não conseguia.
Tentei me levantar.
Meu corpo não respondeu.
Agora eu entendi.
Meu coração disparou.
Olhei para a entrada.
O segurança ainda estava lá.
Me olhando.
E dessa vez… havia algo diferente.
Minha visão começou a escurecer.
Os sons ficaram distantes.
Os gritos se misturaram com os aplausos.
Tentei respirar.
Não consegui.
E a última coisa que vi…
foi ele.