Capítulo 1
Sul da Suécia — 18 anos atrás
— Você sabe exatamente por que estou aqui — disse o Dom, a arma firme apontada para o homem à sua frente. — Não deveria ter me traído. Você era um dos meus melhores. Eu confiei em você. E tudo isso… por ganância.
Arnold engoliu em seco. As mãos tremiam.
— Sei que não tenho o direito de argumentar. Nem de me defender. Aceito meu castigo — a voz falhou. — Sei que a punição é a morte. Só imploro misericórdia pela minha família. Eles não sabiam de nada. A culpa é só minha.
O choro veio depois, descontrolado, humilhante.
— Se realmente se importasse com a sua família, teria pensado nela antes — respondeu com frieza.
Deu alguns passos e parou diante da mulher. Ela apertou a criança contra o peito, como se o gesto pudesse protegê-la.
— Pensando melhor… morrer seria fácil demais para você — murmurou.
Abaixou-se levemente e passou os dedos pelo rosto da criança, num toque quase gentil.
— Não… minha filha, não — a mulher implorou, a voz quebrada pelo desespero.
— Quando sua filha completar dezoito anos, ela se casará com meu filho — disse com frieza. — Mantenha a garota pura. Se não o fizer, ela também pagará pelo seu erro.
O homem soluçava no chão, incapaz de responder.
— Quanto ao seu filho, ele servirá à organização com lealdade absoluta. Só se casará se eu permitir… ou se meu filho, como futuro líder, decidir conceder isso a ele.
Deu alguns passos lentos, calculados.
— Faça um trabalho melhor com eles do que fez comigo. Mantenha-os na linha. Caso contrário, você viverá para assistir às consequências. Sua punição será essa: ver tudo, sem poder fazer nada.
Fez uma breve pausa, o suficiente para as palavras se fixarem como sentença.
— Prepararei o contrato de casamento. Voltarei para que seja assinado. E não se esqueça: o destino dos seus filhos foi traçado por você.
Sem olhar para trás, o Dom virou-se e caminhou até a porta. Antes de sair, parou e deu uma ordem curta a um dos homens armados.
— Vigie-os. Se tentarem fugir, me avise.
A porta se fechou.
Ficaram para trás um pai ajoelhado no chão, uma mãe em desespero silencioso e um garoto parado, rígido, com os olhos grandes demais para o rosto jovem, marcado para sempre pelo que acabara de testemunhar.
Dias atuais.
O som de uma respiração ofegante rompeu o silêncio do quarto escuro.
Outro pesadelo.
Na verdade, não um pesadelo, mas uma lembrança antiga, insistente, que voltava a assombrá-lo nas últimas semanas.
Augusto acendeu o abajur. A luz fraca iluminou o ambiente, mas não alcançou o aperto em seu peito. A escuridão permanecia ali.
Levantou-se e foi até o banheiro. Lavou o rosto, apoiou as mãos na pia e encarou o próprio reflexo no espelho. Trinta anos. Ainda assim, preso ao mesmo momento.
Pensou em sua irmã. Em como poderia tirá-la daquela armadilha.
Aos treze anos, Augusto aprendera que algumas imagens nunca se apagam. Nunca esquecera os olhos do filho do Don da máfia pousados sobre ele naquela noite. Um olhar atento demais para alguém tão jovem. Um olhar que não esquecia.
Hoje, aquele garoto já não era conhecido como o filho do chefe. Era o líder da organização.
Assumira o comando aos vinte e dois anos, quando o pai adoecera. Desde então, seu nome se tornara sinônimo de crueldade e frieza. Diziam que não tinha piedade. Que deixava passar apenas mulheres consideradas inocentes e crianças. Para inimigos e aliados, era o mesmo: o monstro.
Augusto fechou os olhos.
O motivo dos pesadelos era simples e implacável. Sua irmã, Alice, completaria dezoito anos em uma semana.
E ele não sabia se conseguiria livrá-la da sentença que os aguardava: casar-se com o monstro.
Durante aqueles anos, o pai permitira que a filha tivesse certa liberdade. Sabia que, depois do casamento com o líder da máfia, ela seria privada de quase tudo. Deixara que saísse, que se divertisse, que experimentasse pequenas escolhas. Em troca, implorara apenas por uma coisa: que permanecesse pura.
Augusto levantou-se ainda cedo e saiu para correr, como fazia quase todos os dias. O ritmo dos passos no asfalto ajudava a organizar os pensamentos. Precisava de uma saída. Qualquer saída que pudesse proteger a irmã.
Enquanto corria, decidiu ligar para Mark. Talvez juntos encontrassem uma solução.
Mark era mais do que seu melhor amigo. Era família. Assim como Augusto, fazia parte do submundo da máfia. Conheciam-se desde o ensino fundamental. Treinaram juntos na cúpula, dividiram quedas, vitórias… e até a primeira vez, num esquema improvisado que Mark arranjara para os dois.
O telefone chamou apenas uma vez.
— Alô. Preciso me encontrar com você — disse Augusto, direto. — Precisamos conversar sobre aquele assunto de novo.
Do outro lado da linha, não houve surpresa. Mark já conhecia o peso daquela preocupação.
— Claro. Estou em casa. Pode vir — respondeu Mark. — Vou te esperar.
A ligação foi encerrada, e a expressão dele mudou no mesmo instante. Ao ouvir que Augusto queria falar mais uma vez sobre a irmã, Mark respirou fundo. Serviu uma dose generosa de bebida e engoliu de uma vez só. Precisava de coragem para o que teria de fazer.
O encontro seria no apartamento de Mark, mas antes disso Augusto voltou para casa. Estava suado da corrida e precisava de um banho. Assim que entrou, percebeu que algo estava errado.
Havia uma comoção incomum.
Alice chorava. O pai e a mãe estavam próximos, tentando consolá-la, falando baixo, como se as palavras pudessem ferir mais do que ajudar.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou, fazendo com que todos se virassem.
Alice levantou o rosto ainda molhado de lágrimas e correu até ele, abraçando-o com força, como se tivesse medo de soltá-lo.
— Augusto… eles querem que eu me case com aquele monstro. Com o Pietro — disse Alice, agarrando-se a ele, fora de si.
O abraço era forte demais para ser apenas medo. Era desespero.
Augusto ergueu o olhar para os pais, em busca de respostas. Eles apenas desviaram os olhos, derrotados.
— Calma — murmurou, beijando o topo da cabeça da irmã. — Vamos sentar. Você precisa se acalmar.
Conduziu-a de volta ao sofá, tentando conter o próprio aperto no peito. Foi então que notou a caixa grande sobre a poltrona. O laço ainda intacto. Dentro, um vestido de noiva.
Augusto sentou Alice e pegou o papel pousado sobre a tampa. Leu.
“Espero que goste do vestido que escolhi para minha futura esposa. Não vejo a hora de vê-la entrando na igreja usando ele.
Obs.: Segue um terno para seu irmão. Acredito que ficará muito bem nele. O irmão da noiva também precisa estar impecável.”
O ar pareceu ficar mais pesado.
Abaixo da caixa maior, havia outra menor. Augusto não precisou abrir para saber.
Era o terno.
— Petulante desgraçado — murmurou Augusto, baixo o suficiente para que ninguém ouvisse.
— Eu não quero me casar com ele — disse Alice, a voz quebrada. — Prefiro morrer a passar a vida ao lado daquele homem.
As palavras o puxaram de volta aos próprios pensamentos. Augusto deixou o bilhete sobre a caixa e se aproximou. Segurou o rosto da irmã entre as mãos, sentindo as lágrimas quentes escorrerem por seus dedos.
— Nosso pai não teve escolha — disse, firme apesar do nó no peito. — Mas eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tirar você disso. Mesmo que o preço seja alto demais.
Ela respirou fundo. O choro cessou aos poucos. As sobrancelhas se franziram, e o olhar que ergueu para ele não era mais apenas medo. Era desconfiança.
— Espera… — disse, afastando-se um pouco. — Você também sabia disso? Sabia dessa armação toda… e não me contou?
Augusto percebeu a raiva nos olhos de Alice antes mesmo do empurrão. Ela se afastou com força e saiu correndo em direção às escadas, subindo para o quarto sem olhar para trás.
Ele ficou ali, imóvel.
Nada naquela situação era fácil para aquela família. Mas sabia que, para ela, era ainda pior. Ser forçada a se casar com alguém que não amava… alguém que temia.
A ideia se fechou em seu peito como um aperto lento, quase sufocante.
Augusto